KondZilla fatura mais de 1 milhão de reais por mês

Aos 28 anos, novo midas do funk comanda um dos principais canais de música do YouTube no mundo, com mais de 12 milhões de inscritos

Filho de um pedreiro e de uma funcionária pública, Konrad Cunha Dantas cresceu na periferia do Guarujá. Após perder a mãe devido a um aneurisma cerebral, em 2008, passou a receber uma pensão de 1 600 reais por mês e correr como nunca atrás de suas metas. “Prometi a ela que realizaria meu sonho de ser cineasta”, lembra.

Determinação e tino para os negócios alçaram o rapaz de 28 anos ao posto de dono do canal brasileiro mais importante do YouTube atualmente. A plataforma que leva seu nome artístico, KondZilla, alcançou as marcas de 5,2 bilhões (sim, bilhões) de visualizações e 12 milhões de seguidores. O rapaz transforma funk em ouro.

O sucesso do espaço na internet se deve aos videoclipes que produz, roteiriza e dirige com estrelas desse gênero musical que faz torcer o nariz de muita gente por aí. O próprio diretor, aliás, assume não consumir o gênero. “Sou um pizzaiolo que não come pizza”, brinca o profissional, fã de Rita Lee e de Jorge Vercillo. Sua empresa, baseada no Tatuapé, na Zona Leste, fatura mais de 1 milhão de reais por mês. O negócio ganhou um porte que chama atenção no mercado internacional.

KondZilla rodeado pelos cantores Mitico, Dani Russo, MC Dede, MC Hollywood, MC MM, Tati Zaqui e MC Kevinho: ele virou também empresário desses artistas (Leandro Godoi/Veja SP)

De acordo com o ranking americano Tubefilter, o ibope do YouTube, o canal de KondZilla, uma espécie de MTV do batidão, ocupou em fevereiro o quarto lugar na lista dos mais vistos do mundo. Perdeu para a gravadora indiana T-Series, o infantil Ryan ToysReview e o cantor Ed Sheeran — e deixou comendo poeira estrelas do calibre de Shakira (11º lugar).

De quebra, apareceu a quilômetros de distância do segundo nome brasileiro da lista, a Turma da Mônica (42º lugar). “Hoje, a plataforma do Konrad conta com igual ou até maior relevância em comparação com qualquer grande emissora de televisão na hora de divulgar uma faixa”, afirma Sergio Affonso, presidente da Warner Music Brasil.

MC Guimê: um dos principais nomes do portifólio (Leandro Godoi/Veja SP)

A assinatura artística mistura as iniciais de seu primeiro nome com Godzilla (o rapaz é fã de filmes de monstros japoneses). Na época em que ele entrou no mercado, os clipes de funk eram toscos, com o cantor e seus amigos dançando ao fundo. O profissional apostou desde o início em edição ágil, closes em câmera lenta e tomadas coloridas.

Recheou, ainda, as cenas com mulheres saradas rebolando, carrões (à la Velozes e Furiosos, uma de suas inspirações) e correntes de ouro. Os videoclipes-fenômeno são curtidos e compartilhados não apenas pelos frequentadores dos pancadões das periferias, mas também pelo público que bate ponto em baladas regadas a champanhe.

O maior hit, o clipe Deu Onda, do cantor MC G15, angariou mais de 223 milhões de visualizações em apenas três meses (confira o ranking abaixo). Até os moderninhos entram no embalo e curtem composições como as da curitibana Karol Conka, garota-propaganda da Avon e uma das artistas que brilharam na abertura da Olimpíada.

(Veja São Paulo/Veja SP)

“O canal segue à risca as dicas de como se dar bem na internet, a exemplo de criar conteúdo constantemente”, elogia Sandra Jimenez, diretora de música e parcerias do YouTube para a América Latina. No último dia 21, Sandra e outros altos executivos da indústria fonográfica reuniram-se com Kond e sua turma do funk no Espaço Liberty, na Freguesia do Ó, na Zona Norte, para festejar a marca dos 10 milhões de inscritos no YouTube, batida em fevereiro.

Trata-se de um patamar inédito entre canais de música no Brasil. No palco, os cantores convidados à balada entoaram um pot-pourri de músicas e refrões famosos do gênero, como “Na festa dos playboys / Os maloqueiros é que tão roubando a cena”. Na pista lotada, personalidades como a artista plástica Adriana Varejão e Pedro Buarque de Hollanda, sócio-fundador da Conspiração Filmes, dançavam e cantavam a plenos pulmões.

Com a namorada, Alana, na casa do Guarujá: juntos desde 2010 (Leo Martins/Veja SP)

O videomaker aproveitou o evento para mostrar sua nova fase profissional: acaba de se lançar como empresário, e agora cuida da carreira de onze artistas — entre eles, os mais conhecidos são MC Guimê (de País do Futebol, tema de abertura de novela da Rede Globo), MC Bin Laden (de Tá Tranquilo, Tá Favorável) e MC Kevinho (de Olha a Explosão, um dos hits mais tocados no Spotify, com 20 milhões de streamings). “Apesar dos números em alta, esse mercado ainda se vê marginalizado”, afirma KondZilla. “Quero mudar o cenário.”

O talento do rapaz o fez cruzar recentemente os limites do funk e cair nas graças do conceituado diretor Andrucha Waddington, responsável por longas como Eu Tu Eles (2000). “Ele criou uma linguagem própria”, elogia o cineasta, sócio da Conspiração Filmes. No fim do ano passado, KondZilla assinou um contrato de três anos com a produtora, bastante ligada à publicidade.

Parte da coleção dos tênis de grife: cada par custou, no mínimo, 2 000 reais (Leo Martins/Veja SP)

Atualmente, ele dirige uma campanha da Nestlé estimada em 1 milhão de reais. Vem sendo sondado por marcas do naipe de Bradesco, Nike, O Boticário e PepsiCo para futuros trabalhos. Enquanto isso, sua empresa não para de crescer. Na equipe há outros seis diretores, que elaboram os roteiros, mais 24 funcionários. Todos com, no máximo, 30 anos.

Dão expediente em um escritório de dois andares no Tatuapé, mas a ideia é se mudarem no ano que vem para um imóvel na Avenida Brigadeiro Faria Lima, endereço que tem muito mais a ver com ostentação. Ali na Zona Leste são feitos entre quatro e sete clipes por semana a preços entre 20 000 e 180 000 reais. O mais caro foi Need for Speed, do duo Tropkillaz, de 2015, com direito a carros importados e efeitos especiais. Demandou 180 000 reais.

Na maior parte das vezes, mansões alugadas, casas noturnas ou a própria rua servem de locação. O artista aparece cantando, cercado por mulheres bonitas, e isso costuma bastar. A exceção é uma gravação no Japão, para a música Farofei, de Karol Conka. Na produção, que consumiu um investimento de 100 000 reais, cinco pessoas viajaram para o país asiático e filmaram pelas avenidas de Tóquio por cinco dias.

Além de se envolver com as câmeras e com o gerenciamento de artistas, KondZilla cresce os olhos sobre os planos de licenciamento. Há quatro anos, o logo com seu nome estampa bonés e camisetas vendidos em um e-commerce. É possível, inclusive, encontrar artigos falsificados por aí. “Até o fim do ano, teremos também material escolar em grandes lojas de departamentos”, garante Samuel Pascarelli, responsável pela área.

Eles sonham faturar 5 milhões de reais por mês com esse setor. Na onda do crescimento meteórico, a empresa conquistou uma importância comparada à de uma gravadora nas décadas passadas. Ao lado de outros cinco escritórios, controla o mercado do funk em São Paulo. “Existe agora a mesma lógica dos cartéis na internet: para fazer sucesso, quase sempre o artista deve se aliar a algum deles”, diz o produtor Carlos Eduardo Miranda, que trabalhou com Titãs e Raimundos.

Concorrentes especulam que os acordos recentes desviam sua atenção daquilo que o tornou famoso. “Ele está se dedicando mais aos novos negócios, abriu mão do lado artístico, e a qualidade dos clipes caiu”, critica um diretor que não quis se identificar. Depois do contrato com a Conspiração Filmes, KondZilla passou a acompanhar as produções de longe.

Aos 2 anos: sua mãe morreu em 2008, por causa de um aneurisma cerebral (Arquivo Pessoal)

“Às vezes, assisto a um clipe nosso todo errado, mas não dá mais para corrigi-lo, porque, em poucos dias, ele teve milhões de visualizações”, admite. Suas broncas costumam reverberar no escritório. Outra questão: os créditos da equipe volta e meia são reivindicados nas gravações. “Levei muitos anos para construir minha empresa, e só o logotipo da produtora permanecerá”, diz. “Para trabalhar comigo é assim.”

A marca aparece ao final dos videoclipes e serve como uma etiqueta de grife para os artistas. Nos bastidores, Konrad já enfrentou contratempos com intérpretes. Certa vez, um empresário, irritado com o jeito meticuloso e soberano do diretor, deixou o set com o “astro” a tiracolo. “Ele dava muito palpite. Expliquei, então, que seria melhor ele usar o meu cachê para comprar uma câmera e filmar do jeito dele.”

Evangélico, o rapaz enfrentou ainda questões com cantores que curtem bebida e substâncias ilegais. “Fico indignado. Aviso que o trabalho vai ficar uma porcaria e eles vão ter de pagar do mesmo jeito.” A carreira do videomaker começou aos 12 anos de idade, como cantor de rap gospel na Vila Santo Antônio, periferia do Guarujá.

No comando de uma campanha da Nestlé:
meticuloso e centralizador (João Neto/Veja SP)

Devido a seus problemas de dicção (ele fala rápido e costuma não pronunciar as últimas sílabas das palavras), o negócio não foi longe. Depois que abandonou o microfone, pediu à mãe, Áurea Cunha, um gravador de CDs e internet em casa. Ficou popular no bairro ao criar as capinhas dos álbuns dos candidatos a MCs da turma e fazer coletâneas. “Aos 14, tinha 600 reais guardados na gaveta e me considerava rico”, lembra.

Apaixonado por videoclipes de hip-hop e filmes de franquias como Transformers, sonhava em cursar cinema na Faap, mas sabia que se tratava de algo distante para o orçamento dos pais. Conseguiu, então, uma bolsa no curso de marketing na Universidade Metropolitana de Santos (Unimes).

Após a morte da mãe, em 2008, mudou-se para a casa de uma amiga em São Paulo, arrumou emprego em uma agência de publicidade e estudou técnicas de 3D em uma faculdade na Vila Mariana. Em 2009, ao completar 21 anos, perdeu a pensão da mãe e desistiu da publicidade. Voltou, então, para o apartamento no Guarujá, onde morava o irmão, e pediu dinheiro emprestado à namorada, a farmacêutica Alana Leguth, com quem começara a relação fazia pouco tempo.

Boné e outros produtos da marca: foco em venda de licenciados (Divulgação)

“No início, me perguntavam o que eu estava fazendo com esse cara”, conta a moça de 28 anos, braço-direito do empresário na produtora. “Agora, insinuam que fico com ele por interesse.” Konrad comprou um computador e uma câmera fotográfica Canon 5D de 8 000 reais. “Fiz meus primeiros trabalhos em troca de passagem de ônibus, lanche no McDonald’s e networking”, diz.

Agora, comanda mais de 140 pessoas no set, com duas câmeras de cinema do tipo Red, que custam, no mínimo, 190 000 reais e aparecem em filmes de ação do naipe de Independence Day. Com o passar do tempo, ele voltou seu foco para o milionário mercado do funk. Hoje, desfila seu sucesso: desembolsa, sem pudor, 7 000 reais em um par de tênis de grife (possui uma coleção com sessenta peças).

Exibe suvenires de viagens pelo mundo, a exemplo de uma réplica da Torre Eiffel e espadas japonesas, em seus apartamentos. Possui um imóvel de dois quartos no Tatuapé e outro de sete cômodos no Guarujá, no requisitado Morro do Maluf, e dirige um Porsche Cayenne S 2017. “Sempre soube que me daria bem na vida, mas nunca imaginei que conseguiria tanta grana”, comemora.

Treina o inglês para se mudar daqui a cinco anos para Venice Beach, na Califórnia, o primeiro passo para tentar realizar o sonho de virar diretor de cinema em Hollywood. “Lá, é meio parecido com o Guarujá: tem praia, muita gente e até aqueles camelôs vendendo chapéu de palha de coqueiro”, brinca.

(Veja São Paulo/Veja SP)

MENINO DE OURO
De garoto da periferia a empresário de sucesso

Nome: Konrad Cunha Dantas.
Nascimento: 13/9/1988 (28 anos).
Natural de: Santos, mas foi criado na Vila Santo Antônio, periferia do Guarujá.
Negócios: comanda o canal do YouTube KondZilla, o principal do país e um dos dez mais influentes do mundo, com 12 milhões de inscritos.
O primeiro cachê para dirigir um clipe: vale-transporte e um lanche no McDonald’s. Hoje, cobra de 20 000 a 180 000 reais.
Ganhos mensais: mais de 1 milhão de reais, entre visualizações no YouTube e produção de clipes.
Influências: os filmes das sagas Transformers e Velozes e Furiosos.
Imóveis: divide-se entre seus apartamentos no Tatuapé (70 m²) e no Guarujá (140 m²).
Carro: Porsche Cayenne S 2017, avaliado em 450 000 reais.
Hobby: coleciona tênis de grife. Tem mais de sessenta pares, que custaram pelo menos 2 000 reais cada um.
O que ouve: gospel, hip-hop e MPB, principalmente Rita Lee e Jorge Vercillo. “Não escuto funk.”
Religião: evangélico, da Assembleia de Deus.
Bebida e festa: jura só ter tomado dois porres na vida. Bebe cerveja, adora champanhe Veuve Clicquot e detesta balada.
Planos para o futuro: em cinco anos, quer estudar cinema em Hollywood e morar em Venice Beach, em Los Angeles.

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  1. silas vieira

    Parabens