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“São Paulo é muito esquisita”, diz Jão, prestes a começar sua maior turnê

Cantor que esgotou duas datas no Allianz Parque fala sobre sexualidade, fãs, seus 30 anos e a relação que tem com a cidade que, segundo ele, não dá paz

Por Tomás Novaes
19 jan 2024, 06h00

Para a família de Jão, 29, a prova mais incontestável do sucesso é participar do especial de fim de ano de Roberto Carlos, na TV Globo.

No final de 2023, aconteceu. “Ele que escolheu e gostou muito de Me Lambe, disse que lembra coisas da Jovem Guarda. Foi um presente, não fiquei nervoso, senti que estava cantando com um parente”, disse o artista, que apresentou duas músicas com o rei no programa.

Natural de Américo Brasiliense, no interior paulista, João Vitor veio a São Paulo para cursar publicidade e propaganda na ECA-USP, onde se formou e fez as amizades que hoje integram a sua equipe de produção.

Estrela do pop nacional, lançou seu quarto disco, SUPER (2023), em agosto último e dá o pontapé inicial da turnê mais ambiciosa da sua carreira neste sábado (20), no Allianz Parque — data que vendeu 50 000 ingressos em uma hora.

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Você esperava essa rapidez nas vendas das primeiras datas da Superturnê?

A gente não esperava que fosse tão rápido. Tínhamos uma confiança de que iria esgotar, baseados na turnê anterior. Em toda nova turnê a gente sabe que a capacidade dobra, geralmente. Fiquei surpreso, porque sempre tenho muito medo de ter dado sorte um dia e as pessoas não voltarem mais aos shows. O sentimento antes de começar um projeto grande é como se eu estivesse sendo levado para o abate, sabe? Mas, estranhamente, quando chega dois dias antes, eu começo a ficar muito calmo, de um jeito até assustador. O corpo tem seus mecanismos para se preparar e você conseguir fazer o trabalho direito.

Qual é a grande diferença de estrutura da sua turnê anterior para a atual?

É completamente diferente. Acho que estamos estreando uma nova forma de fazer show, que a gente sempre se preparou muito para acontecer. Não conseguiríamos ter feito essa turnê em outros discos. É difícil realizar um show desse nível no Brasil, com essa estrutura, esse som, esse equipamento da banda e o meu. Vai ter pulseiras de LED (para o público) e vamos ter que trazer um fone do exterior, porque preciso de um isolamento muito grande no ouvido para me escutar, pelo tamanho das caixas de som. São coisas muito específicas, que a gente não teria condição alguma de ter feito antes.

Você dedica uma música a São Paulo no seu último disco. Sua relação com a cidade passou por diferentes fases?

São Paulo é muito esquisita. Acho que, na cabeça de todo mundo que mora aqui, ela é quase uma pessoa com quem você se relaciona. Quando eu cheguei, era algo que não conseguia entender e abraçar, porque eu não tinha nenhum contato com grandes prédios, grandes metrópoles, metrô, assaltos, coisas que não existiam na minha realidade no interior de São Paulo. A primeira coisa que conquistei na vida foi ganhar e explorar esta cidade. Isso teve um sentido muito grande para mim, me deu coragem, me desenvolvi muito como pessoa. Hoje São Paulo é um pouco diferente para mim, acho que ela me trata pior. Sou muito privilegiado pelo lugar onde eu moro, mas tenho sentido cada vez mais falta de ter calma. A minha vida profissional é muito agitada, com muita ansiedade o tempo inteiro, e eu sinto muita falta de ter paz, que é uma coisa que esta cidade não te dá.

Você sente uma responsabilidade de falar abertamente sobre a sua bissexualidade para o seu público?

Eu me sinto muito responsável. Quando comecei a minha carreira, pensava que iria falar e escrever o que eu quisesse, sem dar satisfação para ninguém. Para mim, ser artista era isso. Conforme os meus fãs foram chegando e essa comunidade foi crescendo, fui entendendo que eu era um polo que irradiava muitas coisas — pessoas se casavam no meu show, pessoas pediam desculpa, se encontravam pela primeira vez. Então comecei a criar um senso de responsabilidade muito maior, sobre sexualidade, principalmente. Vejo nos meus shows que a maioria daquelas pessoas não se sente em casa ou na escola do jeito que elas se sentem ali. É um conforto para as pessoas criar um lugar seguro e me colocar como alguém que é LGBT e está fazendo sucesso. Se eu puder ser isso para o meu público, é meio caminho andado na minha carreira.

“É um conforto para as pessoas criar um lugar seguro e me colocar como alguém que é LGBT e está fazendo sucesso”

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A maior parte do seu público é composta por mulheres jovens. Como é dialogar com esse grupo e, ao mesmo tempo, ver o alcance das suas músicas ultrapassá-lo?

Esse é o grosso do meu público, com certeza, e que me ensina muito, a gente troca muita experiência. Não de uma forma arrogante, mas o trabalho que eu faço é muito diferente do que existe no pop. Existe uma vertente mais dançante, outra mais MPB, e sigo um caminho em que, por escolha própria, estou meio sozinho. Então acho que eu represento algo para um grupo de pessoas que precisa desse tipo de artista, e o mais importante para mim é que eles entendam que a minha maior entrega é o show, a música, a conexão. Tem muita gente brigando e fazendo uma guerra pela atenção e por notinhas, e não que isso não seja divertido, mas não é o que eu considero vital para a minha carreira. A minha guerra é criar conexão com as pessoas, estou na batalha pela conexão, não pela atenção. Acho que esse público vem até mim por isso, porque não costumo mostrar a minha vida, não costumo mostrar o que eu como; eu costumo escrever as minhas letras e, pelo bem e pelo mal, se você gosta ou não gosta, o que eu tenho é isso.

Você faz 30 anos em novembro. Os seus discos contam a história dos seus 20. Que história você quer escrever na próxima década?

Os 30 anos pulsam de uma forma diferente na cabeça de cada pessoa. Sempre que eu tenho medo de uma idade, e passa um tempo, olho para trás e vejo o quanto eu era novo e não sabia de nada. Então estou fazendo esse exercício: me sinto mais bonito, mais legal, mais bem-sucedido, por que um número seria um problema? Essa carga existe, ainda mais no entretenimento, e com homens bem menos do que com as mulheres. É algo que ronda a indústria [do entretenimento], e, apesar de me preocupar, não é algo a que quero dar muita vazão. Quero ser mais honesto e cru a partir de agora. Sinto que tenho mais temas a dizer e que encerrei um capítulo com esses quatro álbuns. Gosto muito de escrever as minhas músicas, tenho orgulho delas, porque, se são ruins ou boas, são minhas. São álbuns de fotografia para, quando eu tiver filhos, netos, eles me conhecerem melhor.

Publicado em VEJA São Paulo de 19 de janeiro de 2024, edição nº 2876

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