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Passeio zen: as atrações do maior templo budista da América Latina

Meditação, rituais sagrados, caminhadas por florestas de bambu e até aulas de kung fu estão entre as atrações do monastério, que fica a 30 quilômetros da capital

Por Carolina Giovanelli
Atualizado em 1 jun 2017, 16h00 - Publicado em 20 ago 2016, 00h00

De segunda a segunda, pontualmente às 6 horas da manhã, batidas ressoam por um dos prédios do Zu Lai, em Cotia, a aproximadamente 30 quilômetros da capital. As nove monjas que vivem no local, entre 40 e 62 anos, vindas em sua maioria de Taiwan, Malásia e Indonésia, fazem revezamento na tarefa de acordar umas às outras golpeando com um martelo uma placa de madeira. Trata-se de uma das várias tradições milenares reproduzidas ali.

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Depois de despertarem, elas seguem para a mesa de café da manhã. Mingau de arroz com legumes e sopa de macarrão compõem o cardápio, sempre vegetariano. As conversas entre elas ocorrem todas em mandarim. Essas são as guardiãs daquele que é o maior templo budista da América Latina. Aberto ao público, com entrada gratuita, o local virou ponto turístico da região metropolitana de São Paulo. No ano passado, recebeu cerca de 25 000 pessoas. A expectativa é fechar 2016 com um total de 35 000.

Templo Zu Lai
Templo Zu Lai ()

O lugar funciona de terça a sexta, das 12 às 17 horas, e nos sábados, domingos e feriados, das 9h30 às 17 horas. O trajeto de carro dura cerca de trinta minutos desde a região do Butantã, e o endereço fica perto do quilômetro 28,5 da Rodovia Raposo Tavares. Não é cobrado o estacionamento.

Existe uma opção de transporte a partir da Estação Liberdade do metrô. Aos domingos, um ônibus fretado sai de lá às 8h30, retornando para São Paulo por volta das 16 horas. O percurso de ida e volta custa 15 reais. Entre os visitantes, há um número crescente de interessados nos preceitos da religião e filosofia budistas, mas a grande maioria vai ao local para desfrutar suas atrações.

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Templo Zuali
Templo Zuali ()

Na chegada, depois de passar por um pórtico com teto no estilo oriental que parece flutuar sobre a base, o visitante tem acesso a um pátio aberto, cercado por construções interligadas umas às outras através de varandas. Ao fundo, fica o prédio principal, inspirado nos palácios da Dinastia Tang. O templo surgiu em 1992, após a doação do terreno de um antigo sítio do empresário chinês Chang Sheng Kai, também criador do Instituto Sidarta, localizado em frente ao monastério. No começo era uma edificação modesta; em 2003, ganhou a arquitetura atual, graças à contribuição de discípulos. Foi erguido com peças vindas do Oriente e por arquitetos e engenheiros estrangeiros.

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O Zu Lai fica em um terreno de 150 000 metros quadrados. Cerca de 70% da área abriga bosques e jardins, onde há bambuzais, cerejeiras e lótus. Ainda há um lago com dezenas de carpas e tartarugas de água doce. Para quem deseja conhecer melhor a religião, existe um museu no local que expãe esculturas e explica um pouco a trajetória das divindades do budismo. O templo conta com salas preparadas para a meditação e um ambiente dourado dedicado à memória dos mortos, onde ficam as cinzas de seguidores importantes.

Ali, são deixadas oferendas, de bolachas recheadas industrializadas a frutas e arroz. No maior espaço de cerimônias, o público pode sentar em banquetas em frente a um altar adornado por uma estátua de Buda, feita de jade e com 4,5 toneladas. No lugar, há também 5 600 pequenas imagens iluminadas individualmente decorando as paredes. Já visitaram o endereço personalidades como o Dalai Lama, em 2006.

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Dali Lama Templo Zu Lai
Dali Lama Templo Zu Lai ()

Funcionam também no lugar uma cafeteria e um restaurante, que oferece um almoço oriental aos sábados, domingos e feriados, das 12 às 14h30. Por 30 reais (criaças pagam 22 reais) aproveita-se o bufê com pratos quentes e frios. Tempurá de legumes e yakissoba vegetariano estão entre as especialidades do menu. No templo principal e na pequena filial na Liberdade, são dadas aulas de meditação, tai chi chuan e kung fu (é cobrada uma mensalidade de 120 reais por cada um deles). Professor de artes marciais, Alexander Leal tem ligação com o espaço há dezoito anos  — inclusive casou-se com sua primeira mulher no Zu Lai.

Suas classes de kung fu ocorrem aos sábados. Os aprendizes utilizam elementos como espadas e leques. Para testar os alunos, o tutor se inspira em técnicas à la Kill Bill. “Eles precisam subir rampas segurando baldes cheios nos braços estendidos e também realizar movimentos com uma tigela d’água na cabeça sem derrubá-la”, descreve.

Templo Zulai
Templo Zulai ()

Entre as monjas que cuidam do templo, apenas uma delas nasceu no Brasil, mas cresceu em meio aos costumes orientais de sua família. Chefiadas por uma líder denominada “abadessa”, elas são responsáveis pela administração da instituição e por comandar as cerimônias — a rotina inclui estudar e meditar. À primeira vista, é fácil confundi-las umas com as outras e achá-las mais novas do que realmente são. Todas têm os olhos puxados, usam roupas iguais (trajes marrons para o dia a dia e pretos e laranja para eventos especiais) e raspam a cabeça a cada duas semanas. Não podem ostentar acessórios, apenas um relógio.

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Em seu guarda-roupa, costuma haver apenas dois pares de sapatos e quatro vestes oficiais, além de algumas camisetas e calças para serem usadas por baixo da roupa típica.

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As monjas dedicam quase todo o tempo a atividades ligadas à instituição. Viajam frequentemente para as filiais mais próximas da ordem, em Olinda, Rio de Janeiro, Foz do Iguaçu, Argentina, Paraguai e Chile. Costumam sair do templo para tarefas como atender discípulos internados em hospitais. Na maior parte do tempo, porém, ficam reclusas, o que reforça a barreira da língua. A mestra taiwanesa Juexi, de 52 anos, há quinze no Brasil, fala pouco português. Comunica-se em mandarim ou inglês. “Aprender um idioma é um dom que não tenho”, afirma a ex-professora de jardim de infância.

A malasiana Miao You comunica-se melhor em nosso idioma, apesar do forte sotaque, e é admiradora das músicas de Lulu Santos e de Chico Buarque. Está aqui há uma década. Formada em administração e economia em Londres e caçula de oito irmãos, perdeu os pais na juventude. Chegou a procurar os mórmons antes de seguir o caminho do budismo. “Nunca foi uma fuga, mas uma escolha de vida”, garante. Vive mexendo no celular para trocar mensagens sobre assuntos relacionados ao centro.

Templo Zulai
Templo Zulai ()
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Engana-se quem pensa que as monjas não lançam mão da tecnologia. O aparelho é usado ainda para falar com os familiares distantes. Tudo se mostra, porém, bastante comedido. TV ou computador servem apenas para que elas acompanhem temas budistas. O objetivo é fugir das distrações. Por isso, também são celibatárias. Monja há dez anos, a indonésia Youchien, de 42 anos, nunca namorou. “Minha mãe me pressionava para casar, mas vi muitos exemplos de relacionamentos que deram errado”, afirma a mestra, que gosta de caminhar pelos jardins e de saborear farofa, feijão e queijo com goiabada.

Ao se ordenarem, depois de anos de estudo, elas renunciam à companhia da família e ganham um novo nome, como “sinceridade” e “proteção”. Na cerimônia de iniciação, recebem três marcas na cabeça, logo acima da testa, símbolos de comprometimento, feitos com grossos incensos. Para deixar a cicatriz, é preciso queimar a pele por alguns minutos. A dor serve como uma espécie de sacrifício.

Templo Zulai
Templo Zulai ()

Para os interessados nas práticas budistas (e quem sabe na carreira monástica), existem cursos oferecidos pelo templo que funcionam como uma iniciação nesse universo. Um retiro com esse objetivo ocorreu em junho — o próximo está marcado para outubro. Reuniu 22 pessoas, mas três delas desistiram no meio do caminho, antes dos trinta dias previstos pela programação.

A rígida rotina compreendia acordar cedo, assistir a aulas de temas como pronúncia de mandarim e meditação, ajudar nas tarefas do templo (até limpar os banheiros)… Entre os ensinamentos mais inusitados, aparecem comer mingau com hashi, manter a postura ereta e arrumar a cama corretamente. Os pupilos tinham direito a apenas um pequeno nicho para guardar seus pertences, que incluíam as vestes cinza, iguais para todos.

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Acesso ao celular apenas uma vez por semana, às segundas, durante cerca de cinco horas contadas. “Aprendi a controlar melhoro tempo”, diz o publicitário Luís Luz, que raspou os cabelos, a exemplo dos outros homens. “De manhã, tínhamos só dez minutos para nos arrumar. Não conseguia, por exemplo, escovar os dentes com calma, dente por dente, como fazia antes.” O engenheiro mecânico Michel Boczko acabara de perder o emprego como diretor de uma multinacional de consultoria e tomou a decisão de participar da atividade. Para isso, afastou-se dos dois filhos pequenos e da esposa. “Foi como voltar a ser criança”, conta. “Aprendemos de novo a andar, respirar, sentar, comer.” O estudante Bruno Provetti, de 18 anos, veio de Americana, no interior do estado, e deu um tempo no cursinho. “Foi legal para desligar de tudo”, afirma.

TEMPLO ZULAI
TEMPLO ZULAI ()

O budismo está em expansão em São Paulo. Na capital, de acordo como o último censo do IBGE, de 2010, há cerca de 75 000 praticantes, número 11% maior do que o registrado em 2000. “A religião se restringe cada vez menos à comunidade oriental”, acredita a monja Coen, uma das principais personalidades budistas da cidade. A paulistana difunde a prática japonesa, a mais antiga no país, trazida pelos imigrantes — o primeiro templo foi construído em Cafelândia, no interior de São Paulo, em 1932 —, a qual divide espaço aqui, principalmente, com a chinesa (do Zu Lai) e a tibetana.

Todas se baseiam na ideia de fazer o bem. Mestra do santuário de Cotia, Miao Tze descobriu seu caminho de uma maneira inusitada. Enquanto estudava a religião na sede da ordem em Taiwan, em 2005, ocorreu um forte terremoto. No restaurante do centro, com centenas de religiosos ao redor, ela se surpreendeu ao ver que parte deles entoava cânticos baixinho e que os monges continuavam comendo, sem demonstrar desespero. “Foi ali que percebi que queria aquilo para mim”, conta.

Templo Zulai
Templo Zulai ()

Curiosidades do santuário

Alguns dados do endereço que recebe 25 000 pessoas por ano

> Monastério imponente

A construção do prédio mais recente do templo, terminada em 2003, durou três anos e meio, teve grande parte dos materiais importada da Ásia e foi pensada por engenheiros e arquitetos orientais

> Fumaça à vista

Aproximadamente 1 000 incensos são utilizados por semana na ação de oferenda para Buda

> Festas cheias

O evento mais badalado no templo é o Ano-Novo chinês, que, em fevereiro, recebeu o recorde de 8 000 pessoas em um só dia

> Regras de conduta

Entre as recomendações a ser seguidas ao visitar o local, estão não usar roupas inadequadas, como peças com decote, e evitar contatos íntimos, como abraços e beijos

> Banho no Buda

Uma das cerimônias mais inusitadas consiste no banho de uma estátua do Buda menino, em maio, como representação da purificação da mente

> Show de selfies

Como é permitido fotografar na área externa do templo, vale a pena levar máquina ou o celular carregado. A construção e a área verde vão garantir muitos “likes” nas redes sociais

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