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Fernando Fecchio estreia o monólogo “A Geladeira”: “o teatro abre a cabeça das pessoas e atenua a intolerância”

Aos 34 anos, o ator paulistano Fernando Fecchio protagoniza o monólogo tragicômico “A Geladeira”. Escrito pelo argentino Raúl Damonte Botana (1939-1987), conhecido pelo pseudônimo de Copi, o texto é centrado em um homem que, no dia do seu aniversário, acorda e encontra um refrigerador no meio da sala do apartamento. De lá saem pessoas importantes […]

Por Dirceu Alves Jr.
Atualizado em 26 fev 2017, 20h19 - Publicado em 13 nov 2014, 13h53
Fernando Fecchio: ator protagoniza monólogo "A Geladeira" (Foto: Divulgação)

Fernando Fecchio: o ator protagoniza o monólogo “A Geladeira” (Foto: Divulgação)

Aos 34 anos, o ator paulistano Fernando Fecchio protagoniza o monólogo tragicômico “A Geladeira”. Escrito pelo argentino Raúl Damonte Botana (1939-1987), conhecido pelo pseudônimo de Copi, o texto é centrado em um homem que, no dia do seu aniversário, acorda e encontra um refrigerador no meio da sala do apartamento. De lá saem pessoas importantes de sua vida, como a mãe, a empregada e a psicanalista, e até seu cão e um rato. Todos devidamente representados por Fecchio. Sob a direção de Nelson Baskerville, a montagem entra em cartaz no sábado (22) na Sala Jardel Filho do Centro Cultural São Paulo em uma temporada gratuita nas sextas e sábados, às 21h, e nos domingos, às 20h, até 14 de dezembro. Os ingressos são distribuídos duas horas antes. A estreia nacional de “A Geladeira” faz parte da programação do Festival Mix Brasil, que se realizada entre os dias 13 e 23 de novembro na cidade.

Vamos começar pelo clichê do clichê… Acredito que um monólogo é um tremendo desafio para um ator. A coisa fica ainda mais desafiadora quando você precisa se desdobrar em diversos personagens, não? E se o público não diferenciar um do outro? 

É assustador e fascinante ao mesmo tempo. Rola um tipo de medo que me empurra para frente e não serve nunca para paralisar. No meu caso ainda existe o agravante que sempre trabalhei com muita, muita gente. Na maior parte da minha carreira, eu sempre convivi com elencos enormes e, desse jeito, não existe rotina mesmo. Em espetáculos como “Rei Lear”, “A Hora que Não Sabíamos Nada” e “Camino Real” eram vinte e poucas pessoas na equipe, talvez até mais. Mas penso também que esteja enfrentando aquele que seja o maior desafio da minha carreira. Até esse momento, assim espero. Durante esse tempo, quase 15 anos, eu vim me dedicando tanto e me preparando com tantos grupos e diretores. Trabalhei com Marcelo Lazzaratto, Ron Daniels, Hugo Possolo, Lavínia Pannunzio e o próprio Nelson Baskerville. Agora, eu estarei sozinho no palco. Só que tem tanta gente em volta que me sinto muito aparado.

Você constrói cada um dos personagens como se fosse para uma peça independente?

São seis personagens ao todo. O engraçado é que começamos pensando em muitas trocas, tempos de trocas e truques, mas o processo foi acontecendo de um jeito tão forte que fomos chegando a uma síntese de cada um deles. Alguns personagens são independentes. O Copi tinha um pé muito forte na performance e aproveitamos para fazer alguns números típicos das boates gays, com músicas conhecidas dos anos 80, sabe? Alguns outros personagens fazem parte de uma estrutura complexa. Não posso dizer mais para não revelar alguns segredos. Procurei a essência de cada um deles.

+ Confira a programação do Festival Mix Brasil.

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Como surge essa parceria com o Nelson Baskerville? Ele foi seu professor no Célia Helena ou vocês se conheceram mais tarde, no espetáculo “Camino Real”? 

O Nelson não foi meu professor na escola. Só tinha visto alguns exames meus e foi um susto quando me chamou para ser o protagonista de “Camino Real”, em 2007. Estávamos conversando sobre a retomada da companhia dele, a Antikatártika, quando vem o convite para fazer “A Geladeira”. Foi outro susto. Um monólogo? Como assim? Ele disse que teve duas intuições muito fortes sobre mim: a primeira na época de “Camino Real” e, agora, em “A Geladeira”. O Nelson Baskerville é um ser estranho. Doce e louco. Engraçado, um cara que não se leva a sério. A gente ri muito e sem perceber está fazendo uma peça. Desde os trabalhos de mesa, ele tem muito claro o que quer dizer e conduz muito bem o ator. Como também é ator, deixa a gente criar muito e isso transmite confiança.

Qual é a importância de fortalecer a discussão sobre identidade sexual e intolerância? 

O teatro abre a cabeça das pessoas e atenua a intolerância. Não acho que um espetáculo seja capaz de mudar alguém, mas acredito que possa sensibilizar o espectador de alguma forma e fazê-lo reavaliar certas questões. O teatro é só uma parte de uma coisa maior que temos que fazer: combater o preconceito, essa ideia de que uns são melhores que os outros. O teatro tem ajudado muito a provocar discussões, levantar questionamentos e isso é importante. E não é só a homofobia, mas a misoginia, o preconceito racial e tantas outras coisas que pegam forte por aí.

+ Confira a programação do Festival Mix Brasil – Dramática em Cena.

Copi foi um militante do movimento LGBT em uma época que essa sigla nem existia. De que forma essas questões aparecem na dramaturgia dele? 

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“A Geladeira” aborda uma personagem homossexual, bem clichê, superficial e engraçada, assim como todas as pessoas que vivem ou viveram ao seu redor. O legal é que, sem a gente perceber, o autor vai mostrando a humanidade dela e que ela é igual a qualquer outro que esteja por perto.  Acho que peça vai pegar a plateia por tratar de um tema comum a muita gente: a solidão. Alguém que já viu o ensaio comentou que não é sobre homossexualidade, é sobre a solidão. O Copi era um maluco. Cartunista, romancista, dramaturgo, diretor e ator. Integrou um grupo chamado Pânico, junto com o chileno Alejandro Jodorowsky  e o espanhol Fernando Arrabal, que questionava o uso equivocado do surrealismo pela arte convencional. O Copi usou uma linguagem avançada para a sua época, era a do choque. A nossa peça vai mais para o carinho e a descoberta do humano através da delicadeza.

Qual a importância de você ter feito faculdade de educação física para seu trabalho de ator e o quanto esse curso influencia na construção de um personagem?

Olha, para fazer essa peça precisa mesmo ser muito atleta (risos). É uma hora de duração com muito ritmo, correria e trocas. Acho que foi isso que a educação física me deu e, mais tarde, as inúmeras aulas e preparações corporais que fiz também. Procurei a faculdade porque acho que é muito injusto a gente ter que optar tão cedo pelo que vai fazer o resto da vida. Depois, eu percebi que minha turma era outra. Foi no teatro que me encontrei e encontrei pessoas como eu. Estou muito feliz que, depois desses quase 15 anos de carreira, eu possa fazer um espetáculo que exige tudo que aprendi e mais coisas ainda que irei descobrir durante a temporada.

"A Geladeira": Fernando Fecchio interpreta peça do argentino Copi (Foto: Raulzito)

“A Geladeira”: Fernando Fecchio interpreta seis personagens na peça de Copi (Foto: Raul Zito)

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