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Armazém Cia. de Teatro mergulha no inconsciente com o drama “A Marca da Água”

Em 25 anos de estrada, os paranaenses radicados no Rio de Janeiro da Armazém Cia. de Teatro conseguem um feito incomum entre os tantos coletivos brasileiros. Em grande parte de seus espetáculos, o grupo consegue estabelecer uma unidade de dramaturgia e encenação. A plasticidade impecável e capaz de encher os olhos do espectador vem aliada […]

Por Dirceu Alves Jr.
Atualizado em 27 fev 2017, 11h21 - Publicado em 1 mar 2013, 10h17

Patrícia Selonk protagoniza a montagem em cartaz no Sesc Santana (Fotos: Mauro Kury)

Em 25 anos de estrada, os paranaenses radicados no Rio de Janeiro da Armazém Cia. de Teatro conseguem um feito incomum entre os tantos coletivos brasileiros. Em grande parte de seus espetáculos, o grupo consegue estabelecer uma unidade de dramaturgia e encenação. A plasticidade impecável e capaz de encher os olhos do espectador vem aliada a uma história bem contada, que mesmo recheada de semiologia e de poucas concessões, não soa hermética ou pedante. Cartaz do Teatro do Sesc Santana, o drama “A Marca da Água” é mais um acerto nesse sentido. A parceria entre os autores Maurício Arruda Mendonça e Paulo de Moraes, também diretor, reafirma que para satisfazer o público basta um elenco afinado e uma boa trama – nesse caso, levar a pesquisa a saltar da teoria para a prática, digo para o palco.

O ponto de partida veio de estudos do neurologista inglês Oliver Sacks sobre os distúrbios do cérebro. Se a ideia pode meter medo, a cena inicial soa tão inusitada que beira o surreal. Enigmática e introspectiva, a quarentona Laura (personagem de Patrícia Selonk) vê sua rotina transformada com o aparecimento de um peixe enorme em seu jardim. Enquanto o ser estranho fica instalado perto da piscina, a mulher inicia uma surpreendente viagem ao inconsciente e revela pontos impenetráveis inclusive para seu marido (o ator Marcos Martins) e seu irmão (Marcelo Guerra). A esquisitice inicial se desfaz aos poucos, diante da reconstituição do passado e da apresentação do histórico familiar da personagem e seus desdobramentos na vida dos outros, principalmente na da mãe (papel de Lisa E. Fávero). Como tentativa de enterrar traumas, Laura ignorou a própria história e, agora, o preço começa a ser debitado em sua conta.

Nessa trilha entre a memória da personagem e a negação do passado, o espectador desvenda as intenções da montagem. Um equilíbrio nas interpretações se faz presente, fazendo com que todos não passem de uma peça de encaixe nesse quebra-cabeça, inclusive Patrícia Selonk. E como a Armazém Cia. de Teatro facilita a vida do público ao apresentar uma história decifrável, aos poucos, prepara o terreno para cobrar a fatura e novamente desafiar a plateia. A belíssima cena final é um exemplo disso. Laura encontra um escafandrista (representado por Ricardo Martins) e ali termina o acerto com sua própria história. Talvez para começar outro. O público deve entender a mensagem. Mas caso isso não aconteça pelo menos se encantará e tentará encontrar alguma explicação bem no fundo da mente.

Marcelo Guerra, Ricardo Martins, Patrícia Selonk, Lisa E. Fávero e Marcos Martins na peça dirigida por Paulo de Moraes

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