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A Tal Felicidade

Saúde, bem estar e alegria para os paulistanos
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É preciso reaprender a se relacionar com o próprio filho

A pedagoga e educadora Carolina Delboni fala que, sim, ser pai ou mãe de adolescente é uma conversa possível

Por Carolina Delboni, em depoimento a Helena Galante
26 Maio 2023, 06h00

Os pais se preparam de muitas maneiras para a chegada do bebê. Sem memória viva sobre a própria fase e nenhuma — ou pouca — prática com seres humanos bem pequenos, eles se matriculam em cursos oferecidos por maternidades ou por consultórios médicos. Compram livros e livros sobre a chegada, assistem a palestras e vídeos no YouTube. Amparam-se num arsenal oferecido para ensinar o básico sobre banho, troca de fraldas, assaduras, cólicas e até as tentativas de identificar os diferentes choros.

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Além da existência de toda uma indústria voltada para apoiar os pais de primeira viagem, o próprio tempo colabora com esse processo de boas-vindas. São nove meses de gestação, nove meses de possibilidades diárias de preparo para arrumar a casa — interna e externa — e receber esse novo ser que chega à família e ao mundo. Tudo para viver o tempo da chegada com calma.

O Tempo, aquele que é substantivo, com letra maiúscula, nos é generoso. Mas esse mesmo Tempo parece nos abandonar quando a criança chega aos seus 12, 13 anos — a tal pré-adolescência — e somos imbuídos de um sentimento de “não vou dar conta”, “adolescentes dão problema” e “essa fase é superdifícil, não sei o que fazer agora”.

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Não existem mais cursos nem palestras, o suporte pediátrico em geral deixa de fazer sentido e, de repente, pais e mães parecem abandonados à própria sorte. Parece que os filhos vão dormir pequenos e acordam crescidos, respondões, mal-humorados e briguentos. Ninguém reconhece mais ninguém dentro de casa.

Mas calma, vou te contar que não é bem assim. Existe uma relação gentil e afetuosa que é muito passível de se estabelecer com seu filho adolescente. E duas maneiras importantes e saudáveis de começar é se lembrando que você também já passou por essa fase e que os tempos mudaram.

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Aquela célebre frase “ah, mas na minha época…” não funciona mais. Entender que os tempos mudaram, que o que era uma questão há vinte anos não é mais hoje e que as músicas que você gostava não vão ser as mesmas do seu filho é regra de ouro para evitar os primeiros conflitos quando ele ligar o som alto na hora do banho.

Resgatar na própria memória o tempo de adolescência contribui para a compreensão de atitudes e posturas que parecem inexplicáveis e incoerentes. O exercício de empatia é importante nessa idade, e isso não deveria ser utópico. No fundo, não é uma fase “monstra”.

É uma fase de mudanças para todos. Para os filhos, trata-se da despedida da infância; para os pais, trata-se da despedida de um filho que até ontem era criança. E se despedir dói, é difícil, requer amparo e carinho.

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Dói ver um filho crescer e se desprender do nosso corpo de vez. Dói não ter mais acesso a todos os espaços e sentimentos. A rejeição, as batidas de porta e a falta de comunicação doem também. Dói quando não somos mais os escolhidos — e por vezes, nos transformamos no “mico da vez”.

Se insistirmos nos papéis dos pais rejeitados e do filho ingrato, todos sairão machucados. Mas eu vou te contar mais uma coisa: os adolescentes adoram quando pai e mãe os escutam. Quando são valorizados, quando o que dizem é aceito ou quando recebem um elogio.

É preciso reaprender a se relacionar com o próprio filho ainda que ninguém ensine a gente a ser pai ou mãe de adolescente. Faltam livros, cursos, palestras e redes de apoio. Mas esse serzinho que vive aí na sua casa pode ser um excelente professor. Qual foi a última vez que você deu colo a seu adolescente? Não vale dizer que ele que não quer.

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Existem muitas formas de dar colo. Já pensou em fazer um elogio ao som que ele escuta? Já pensou em assistir às séries que ele gosta? Já pensou em elogiar alguém que ele admira?

Ser pai ou mãe de adolescente é uma conversa possível. Totalmente possível. Mas é preciso olhar para essa figurinha que você diz não mais reconhecer e reconhecê-la. Como alguém que cresceu, que diz o que pensa, que tem vontades próprias e que nem sempre vai te abraçar e dizer que te ama. Ainda que te ame profundamente.

Carolina, de roupa branca, braços cruzados e sorrindo
A pedagoga e educadora, especialista no comportamento adolescente, Carolina Delboni (Pedro Brandão/Divulgação/Divulgação)

Pedagoga e educadora, especialista no comportamento adolescente, Carolina Delboni é autora do livro Desafios da Adolescência na Contemporaneidade. É integrante e pesquisadora do grupo Abordagem Psicanalítica da Adolescência (Instituto Sedes Sapientiae). Colunista do Estadão, atua como consultora educacional e palestrante em escolas e instituições. É pós-graduada em educação e tem como primeira formação o jornalismo, área em que atuou por vinte anos.

A curadoria dos autores convidados para esta seção é feita por Helena Galante. Para sugerir um tema ou autor, escreva para hgalante@abril.com.br

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Publicado em VEJA São Paulo de 31 de maio de 2023, edição nº 2843

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