“Ivanas” da vida real: transgêneros que venceram o preconceito

Eles e elas passaram pelos mesmos dramas do personagem da novela 'A Força do Querer' e se deram bem em suas carreiras

Nas últimas semanas, o tema “transgênero” virou assunto de rodas de conversa graças ao sucesso do personagem Ivana/Ivan, interpretado pela paulistana Carol Duarte, de 25 anos, na novela das 9 A Força do Querer, da Rede Globo. No capítulo exibido na terça (29), ele anunciou sua condição à família.

O episódio rendeu 42 pontos de audiência e, na média, a trama se tornou a mais vista desde 2013, época do sucesso Amor à Vida. “Sempre soube que daria essa repercussão”, comemora a autora Gloria Perez. “É um assunto muito atual e, ao mesmo tempo, ainda desconhecido da maioria da população.”

O termo refere-se ao indivíduo que nasce com um gênero mas não se identifica com ele. É o caso de Ivana, que veio ao mundo como mulher mas se sente um homem. Isso nada tem a ver com opção sexual. Há mulheres transexuais que só gostam de outras mulheres, por exemplo.

Apesar de ser uma ficção, a saga da personagem retrata a realidade de vários paulistanos (conheça algumas dessas histórias abaixo). Segundo estimativas de entidades LGBTs feitas com base no número de pessoas atendidas nos centros de saúde especializados nesse público, existem na capital pelo menos 9 000 homens e mulheres nessa condição.

Trata-se de um grupo que ainda enfrenta intenso preconceito social. “Muitos acabam indo para a prostituição não por opção, e sim porque não conseguem emprego em outra área”, conta Fernanda de Moraes, secretária executiva da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra).

É um quadro que, felizmente, vem mudando aos poucos nos últimos anos. Grandes corporações, como Coca-Cola, SAP Brasil e Carrefour, criaram recentemente departamentos de inclusão para funcionários. De acordo com cálculos do Fórum de Empresas e Direitos LGBT, cerca de 100 pessoas com esse perfil possuem emprego formal na capital. “É um número ainda baixo, mas que cresce 100% a cada ano desde 2013”, diz o consultor Reinaldo Bulgarelli, secretário da entidade.

No fim de março, a Unifesp criou o Núcleo Trans para atender essa população, com psicólogo, psiquiatra, fonoaudiólogo, ginecologista e cirurgião plástico. Além dele, há dois ambulatórios especializados na cidade: um no Hospital das Clínicas e o outro no Centro de Referência e Treinamento DST/Aids.

Desde o fim de 2014, as 5 300 escolas da rede estadual de ensino permitem que os alunos adotem nome social (ou seja, aquele com o qual eles se identificam) e escolham que banheiro usar. “Todas essas medidas são um avanço notável. Cinco anos atrás, essa discussão nem acontecia”, afirma Ricardo Sales, consultor de diversidade e pesquisador da USP.

Artigo raro 

Fã de Roberta Close e Gisele Bündchen, Marcela Thomé, de 21 anos, decidiu seguir a carreira de modelo em 2016. Possuía os requisitos exigidos: é bonita, alta (1,81 metro) e magra (58 quilos). Começou a fazer testes em agências e, em fevereiro deste ano, entrou para o casting da Way Model. Hoje, seu rendimento mensal médio é de 8 000 reais.

Marcela Thomé, de 21 anos: “Quando volto à minha cidade, pedem para tirar selfies comigo” (Leo Martins/Veja SP)

Marcela mudou-se de Andradina, no interior paulista, para um apartamento no centro da capital . Desde então, já fez campanhas para marcas conhecidas, entre elas a Hering. Seu trunfo é ser uma das únicas trans atuando nessa área: no Brasil, há menos de dez.

A garota se assumiu como Marcela aos 16 anos (a seu pedido, o nome de batismo não é divulgado). Recebeu o apoio dos familiares e, em 2013, ganhou do pai o tratamento hormonal e uma cirurgia para implantação de prótese mamária. Em 2014, veio outro presente da família: a operação para mudança de sexo.

Apesar do respaldo dos parentes, no início a menina foi bastante hostilizada pelos vizinhos. “Diziam: ‘Olha lá o traveco’ ”, relembra. Agora, a situação é bem diferente. “Quando volto à minha cidade, pedem para tirar selfies comigo.”

Drama familiar 

No folhetim da Rede Globo, a personagem Ivana se tornou Ivan há duas semanas. Processo parecido aconteceu três anos atrás com o administrador de empresas Aaron Flynn, 26. O rapaz mora em Pinheiros com a mãe e estudou em instituições como o colégio Santa Cruz e a universidade Mackenzie. “Meus amigos me ligam para comentar cada semelhança da minha história com a da novela: a tristeza antes de me assumir e a dificuldade da família em me aceitar”, comenta.

Aaron Flynn: “Meus amigos me ligam para comentar cada semelhança da minha história com a da novela” (Alexandre Battibugli/Veja SP)

Segundo Flynn, a reação dos pais foi a parte mais difícil da história. “Eles não me expulsaram de casa, nada disso, mas eu via a tristeza deles. Eles me olhavam de maneira estranha, como se não me reconhecessem mais.” A situação durou alguns meses, sobretudo por parte da mãe, que demorou mais a aceitar. “Hoje ela vê que estou mais feliz e gosta do meu novo cabelo.”

Assim que decidiu ganhar um corpo masculino, o administrador procurou um médico para fazer o tratamento. “Estou tomando coragem para enfrentar a mesa de cirurgia e me livrar dos seios.” Profissionalmente, Flynn se destaca na sede brasileira da multinacional P&G, como supervisor de TI. Bem resolvido, diz que ainda falta superar algumas barreiras. “Não vou a banheiros públicos por medo de ser agredido”, admite.

Reviravolta aos 40

A professora Daniela Mourão passou a tomar hormônios em junho de 2016, mas só neste ano decidiu se apresentar com seu novo visual — maquiada e de vestido — a seus colegas do departamento de matemática da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Guaratinguetá, onde leciona. A data escolhida foi 1º de março, dia em que completou 40 anos.

Daniela Mourão: “Não me arrependo de ter assumido tarde” (Leo Martins/Veja SP)

Casada desde 2010, ela diz que sua mulher, no início, cogitou a separação, mas hoje a apoia. A esposa vive em um apartamento na região central, e Daniela vem para cá apenas nos fins de semana, devido ao trabalho em outra cidade. O restante da família, no entanto, ainda não aprova a mudança. “Meus pais não falam mais comigo. Minha irmã tem medo que eu ‘contamine’ meu sobrinho. E meus sogros querem que minha esposa se divorcie de mim.”

Apesar de quase ter morrido pelas agressões sofridas no ensino médio devido ao seu jeito afeminado, a acadêmica prosseguiu nos estudos: fez doutorado em engenharia e tecnologia espacial no Inpe e pós-doutorado em astronomia na Unesp. “Não me arrependo de ter assumido tarde. Se fizesse isso na adolescência, teria sido expulsa de casa e talvez precisasse ter me prostituído para sobreviver.”

Advogada pioneira

Uma das figuras mais conhecidas da população LGBT, Marcia Rocha, de 52 anos, entrou para a história em fevereiro deste ano como a primeira advogada do país com o nome social na carteira da OAB. Sócia de quatro empresas nas áreas de estacionamentos e empreendimentos imobiliários, que lhe rendem faturamento mensal de 70 000 reais, é uma ativista da causa.

Marcia Rocha: “Espero que, em breve, sejamos tão inseridos quanto mulheres, negros e homossexuais” (Reinaldo Canato/Veja SP)

Presta auxílio na alteração de documentos de pessoas trans e criou em 2012 o Transempregos, portal que tem mais de 1 000 currículos para a colocação desse público no mercado de trabalho. “Espero que, em breve, sejamos tão inseridos quanto mulheres, negros e homossexuais”, almeja.

Marcia se assumiu em 2004. Enquanto a maioria dos trans prefere esquecer o passado, ela faz questão de lembrar que, antes da mudança, se chamava Marcos Cesar da Rocha. Na casa da mãe ainda há um retrato antigo em que ela aparece com a filha Giulia, hoje com 23 anos. No início, houve estranhamento, mas passou rápido. “Hoje a Giulia sente orgulho de me apresentar às suas amigas”, conta Marcia.

Abraços de apoio no escritório 

Em meados de 2015, a engenheira biomédica Maria Fernanda Hashimoto, 27, levava a vida dos sonhos de muita gente. Tinha um bom cargo na General Electric, onde controlava a qualidade dos maquinários e produtos da empresa, e uma noiva havia cinco anos. Mas, por dentro, sentia-se estraçalhada: não podia mais esconder que, na verdade, era uma mulher.

Maria Fernanda Hashimoto: “O mercado ainda é bem difícil, mas há companhias abertas às novas realidades” (Leo Martins/Veja SP)

O primeiro desafio foi abrir o jogo à futura esposa. Ela topou ficar ao seu lado e até hoje é uma das pessoas que mais a apoiam. Maria, então, passou a tomar altas doses de estrogênio. Cerca de um ano depois, tornou-se transexual (fez operação para mudar de sexo). Na fase da transformação, chegou a pedir demissão do trabalho. “Meu chefe não aceitou. Disse que não era motivo para eu sair”, conta.

O caso se espalhou no escritório e a acolhida também se mostrou surpreendente: volta e meia, ganhava abraços de desconhecidos no corredor. Em julho de 2016, recebeu uma proposta da multinacional Becton Dickinson. Seu pagamento no novo posto é de cerca de dez salários mínimos. “O mercado ainda é bem difícil, mas há companhias abertas às novas realidades”, diz Maria.

Fé na diversidade 

Presente em mais de cinquenta países, a Igreja da Comunidade Metropolitana, protestante e de origem americana, é uma das poucas no mundo que acolhem gays, lésbicas, transgêneros e afins. A filial em São Paulo fica em Santa Cecília, no centro. Um de seus fiéis é a pedagoga Alexya Salvador, de 36 anos, que frequenta o local desde 2011 com o marido, o professor Roberto Salvador Jr., 28, e os dois filhos, Gabriel, 12, e Ana Maria, 10.

Alexya Salvador: “Serei a primeira reverenda transgênero da América Latina”, (Leo Martins/Veja SP)

Alexya se encantou tanto com os ensinamentos religiosos que, em 2012, iniciou um curso de formação teológica. Em abril, tornou-se pastora auxiliar e, no fim do ano, será ordenada e subirá de posto. “Serei a primeira reverenda transgênero da América Latina”, comemora.

Formada em letras e pedagogia, ela começou a transformação há seis anos. Na época, já era casada com Salvador. “Meu marido é homossexual e me conheceu como Alexander. Tinha medo que ele não me aceitasse após me expressar como mulher”, comenta. O professor, no entanto, não apenas continuou o relacionamento, como topou a ideia de adotar filhos.

Primeiro, veio Gabriel, em 2015. Um ano depois, Ana Maria, que é transgênero como a mãe. “Posso passar toda a minha experiência a ela.” Há três anos, Alexya começou a costurar e hoje vende aventais de professores e roupas em geral. “Meu objetivo agora é abrir uma confecção voltada para o público trans”, planeja.

Demissão, despejo e depressão 

Formada em filosofia pela USP, a paulistana Luiza Coppieters, 38, decidiu se assumir como mulher em 2012. Naquele ano, passou a consumir hormônios e deixou o cabelo crescer. Ainda assim, disfarçava usando rabo de cavalo e camiseta para esconder os peitos. A revelação para a família, os amigos e os colegas de trabalho só ocorreu em 2014.

Luiza Coppieters: “Apesar de todo o perrengue por que passei, é muito melhor ser eu mesma do que ficar escondida para satisfazer às convenções sociais” (Alexandre Battibugli/Veja SP)

Os pais, irmãos e alunos aceitaram a situação, mas a notícia foi mal recebida pela direção do colégio em que ela dava aula de filosofia. “Começaram a cortar as minhas classes e meus grupos de estudo. Minha renda caiu para um terço do que recebia e tive de vender meus móveis e livros. Até que fui demitida, um ano depois”, comenta.

“Por falta de dinheiro, fui despejada de onde morava e aluguei um cubículo no centro. Cheguei a passar fome e entrei em depressão, mas me reergui graças à militância”, conta. Seus discursos calorosos em prol do movimento LGBT chamaram a atenção de entidades ligadas ao tema, que começaram a contratá-la para dar palestras.

No fim de 2015, o vereador Toninho Vespoli, do PSOL, convidou-a para entrar no partido, e, no ano seguinte, ela saiu como candidata a vereadora. Não conseguiu se eleger, mas comemorou os 9 744 votos recebidos. “Apesar de todo o perrengue por que passei, é muito melhor ser eu mesma do que ficar escondida para satisfazer às convenções sociais.”

Volta por cima após surras e expulsão de casa

Mesmo antes de se apresentar como mulher para a sociedade, há três anos, a artista plástica e designer Neon Cunha, de 47 anos, já se comportava de maneira feminina. Quando era criança, só gostava de bonecas e roupas de menina, e agia como se fosse uma delas. Isso, contudo, lhe trouxe uma série de problemas.

Neon Cunha, sobre a mãe: “Ela diz agora que sou a maior amiga e confidente dela” (Ricardo D'angelo/Veja SP)

“Meus pais viviam recebendo notificação da escola e minha família não saía comigo para evitar ‘constrangimento’”, lamenta. Ela conta que levava surras constantemente do pai e, aos 8 anos, um de seus onze irmãos tentou sufocá-la. “Ele colocou cobertores na minha cabeça e sentou em cima, dizendo que não aguentava mais todo mundo falando de mim, na rua.”

Para ajudar a complementar a renda doméstica – sua família é de classe média baixa –, Neon começou a trabalhar bem cedo. Aos 12 anos, conseguiu ingressar na Prefeitura de São Bernardo do Campo, no ABC, como mensageira. Foi promovida a auxiliar administrativa e, posteriormente, chegou ao departamento de comunicação, onde está até hoje – atualmente, ela é chefe de seção.

Nesse meio tempo, entrou para a faculdade de artes plásticas e se formou em 1992, aos 22 anos. Quando se preparava para fazer mestrado, sofreu um baque: foi expulsa de casa. “Eu era totalmente rejeitada pela minha família, e a gente foi se distanciando cada vez mais”, explica.

A designer teve de alugar um imóvel em caráter de urgência, o que consumiu o dinheiro que havia reservado para os estudos. Foi se recuperando aos poucos e, algum tempo depois, retomou projetos pessoais, entre eles, atuar com design e moda paralelamente ao cargo na prefeitura. Conseguiu alguns trabalhos nessa área. Hoje, é assistente de estilo da grife de Isaac Silva.

Neon começou a pensar em oficializar sua condição feminina em 2011, com a adoção de cabelos compridos, roupas de mulher e troca de nome, mas só três anos depois tomou a decisão. Ao mesmo tempo, também implantou prótese nos seios e fez lipo para acentuar a cintura.

Voltou a falar com a família e, atualmente, mantém uma relação próxima com a mãe. “Ela diz agora que sou a maior amiga e confidente dela”, comenta a artista plástica. “Não esqueço o que aconteceu, mas consegui perdoá-los na medida do possível.”

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  1. Dio Ferreira

    “É o caso de Ivana, que veio ao mundo como mulher mas se sente um homem. Isso nada tem a ver com opção sexual.”: como um jornalista se propõe a escrever sobre diversidade e comete tantos erros preconceituosos grosseiros em duas frase? Pessoas trans não “se sentem”, elas SÃO. E não existe “opção sexual”, ninguém opta por gostar desse ou daquele gênero.