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Prédios que matam

Por Ivan Angelo Atualizado em 5 dez 2016, 17h15 - Publicado em 14 abr 2012, 00h50

Foi uma cena chocante. Dois senhores negros, vestidos com calça e jaleco de um azul forte, iam e vinham vagarosamente na ampla calçada do largo de onde se erguiam duas altas torres envidraçadas, no extremo sul da ilha de Manhattan. Iam e vinham, cada um em uma direção, e passavam um pelo outro a certa altura. Iam e vinham, levando na mão esquerda, pelo cabo, uma pequena pá dobrável, e na mão direita, também segurada pelo cabo, uma vassoura de cerdas de plástico amarelas, e com esses objetos recolhiam metodicamente, friamente, pequenos pássaros que tinham acabado de morrer ao se chocar com a enganadora parede de vidro dos dois altos edifícios. Um ou outro pássaro maior parecia agonizar, ou eram suas penas movendo-se ao vento que davam essa impressão.

+ Ivan Angelo: Vizinhos pássaros

+ “O jacaré e o computador”, por Matthew Shirts

Vi depois cenas parecidas, com recolhedores de pequenos cadáveres emplumados, em Toronto, Dallas e Los Angeles. A aparência mecânica do trabalho e a habituada indiferença aproximavam aquelas cenas que os quilômetros separavam.

Eu calculava que algo semelhante poderia acontecer aqui, mas não procurei saber. Julgava, ignorante, que esse era um evento do frio Hemisfério Norte, de onde migram milhões de aves ao começar o inverno, a fim de procriar e se alimentar em climas mais amenos. Essa movimentação migratória, conjugada com a arquitetura que se começou a praticar lá há algumas dezenas de anos, prepara o cenário da morte. Superfícies lisas de vidro se erguem a 100, 150 metros de altura, espelhando o azul e nuvens e plantas, enganando os pássaros, levando-os a se chocar contra um sólido céu de mentira.

Ignorante continuei, até que dois leitores mencionaram na quinzena passada dois de nossos prédios matadores; dois leitores em meio a tantos outros que comentavam uma crônica aqui publicada sobre a volta dos pássaros à cidade.

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E concluo: não é de agora. Nossa arquitetura dos primeiros oitenta anos do século passado sempre usou alvenaria nas fachadas, enfeitadas por janelinhas, sacadinhas e balcões, com acabamento em pedras, metais, tintas e madeiras. Era inofensiva para os pássaros, oferecia-lhes até abrigo. Depois vieram os espigões de vidro, belos, espetaculares, verdadeiras esculturas impondo-se no espaço, fruto da riqueza das empresas e da pressa das construtoras. Belos e mortais.

+ “A Copa e o coração”, por Matthew Shirts

Um leitor fala de um pássaro que ele viu morrer após se chocar nos vidros de um shopping em Higienópolis; outro relata mortes dramáticas de dezenas de maritacas, rolinhas e bem-te-vis numa torre espelhada no bairro do Campo Belo. Verifico, alarmado: acontece o mesmo na Avenida Paulista, na região da Avenida Berrini, ao longo da Marginal Pinheiros, na nova Faria Lima, no Brooklin Novo… Em todos os lugares onde o vidro se tornou atração fatal.

Os números totais brasileiros são de assustar. Não sei com que seriedade são feitas as contas; não são confiáveis, não as divulgo. Mesmo nos Estados Unidos, que têm o hábito das estatísticas, os números variam tanto que vão dos 100 milhões a 1 bilhão de pássaros mortos até agora em colisões com prédios. Lá, alguns arquitetos buscam soluções, sugerem a aplicação de filmes diferenciados nos vidros ou a decoração deles com adesivos de grandes aves predadoras, como falcões e águias, para evitar que os pássaros migrantes se aproximem.

Em Brasília, o monitoramento é feito na UnB. Só no prédio da Procuradoria-Geral da União, projetado por Oscar Niemeyer, morrem por ano de 100 a 150 aves do cerrado, de 23 espécies. Em vários prédios próximos ao Lago Paranoá, a mortandade é igual. Em São Paulo não há contas. Quem anda e pergunta fica sabendo das vítimas, mas não da soma.Isso não os incomoda, caros arquitetos e construtores? A morte dessas aves é, para vocês, apenas um dano colateral?

E-mail: ivan@abril.com.br

 

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