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Ladrilhos hidráulicos: conheça a mais antiga fábrica da cidade

Fundada em 1922 por uma família italiana, a Ladrilar produz cerca de 10 000 peças a cada mês

Por Mônica Santos Atualizado em 28 fev 2020, 16h58 - Publicado em 28 fev 2020, 06h00

O piso vermelho que cobre o último andar da Pinacoteca, o chão do terraço do Edifício Martinelli, o pavimento que reproduz o mapa do Estado de São Paulo nas ruas do centro desde os anos 60 e a calçada samurai adotada na região da Liberdade no início da década passada: esses são alguns exemplos de peças feitas manualmente na mais antiga fábrica de ladrilhos hidráulicos da cidade. Instalada no número 69 da Rua Porto Calvo, uma via do Bom retiro que parece ter parado no tempo, a Ladrilar foi fundada em 1922 pelo imigrante Federico Ruocco.

Italiano de Luca fugindo da guerra, ele chegou com o maquinário e os moldes, instalou-se em uma área desde então pouco valorizada e pôs a família para trabalhar. “A água e a areia para o feitio das peças eram retiradas do Rio Tietê, que na época passava a poucos metros dali, e levadas de charrete até a fábrica”, conta Hamilton Cristófalo, um dos bisnetos do fundador e responsável pelo negócio hoje.

Desde os primórdios, o processo de fabricação não mudou: unta-se a fôrma com óleo desmoldante, acrescentam-se as tintas pigmentadas e, na sequência, uma mistura de cimento e pó de pedra, que vai secar a peça. Depois, o ladrilho é prensado em uma das seis máquinas que estão lá desde a inauguração, desenformado e colocado em uma prateleira horizontal — nesse momento, se é tocado, vira areia. No outro dia, as peças são mergulhadas em água durante oito horas e, por fim, seguem para as prateleiras de secagem. A chamada cura leva cerca de cinquenta dias. Se o clima está úmido, o período aumenta.

É possível visitar a fábrica poeirenta, que passa por reforma no momento e em nada lembra os atraentes show rooms de grandes lojas de construção, ver de perto o trabalho dos ladrilheiros e perder-se no incrível universo de possibilidades que os ladrilhos hidráulicos proporcionam — afinal, mudou uma cor, muda tudo. “Temos perto de 1 800 modelos, mas mantemos apenas 300 em exposição para facilitar a escolha”, diz Cristófalo. A maior parte das encomendas, contudo, não é feita pelo cliente final, mas por escritórios de arquitetos como Mauricio Arruda, Melina Romano, Duda Senna e Catê Poli. Alguns deles assinam linhas exclusivas, que costumam ser as mais caras por causa dos royalties. O metro quadrado do ladrilho hidráulico liso custa 180 reais; o preço dos decorados varia de 270 a 390 reais.

Na mira dos arquitetos e decoradores

Hexagonal: coleção de Mauricio Arruda Lufe Gomes/Divulgação

Muitos dos clientes finais que chegam à Ladrilar descobriram a marca por causa do arquiteto Mauricio Arruda. O apresentador do programa Decora, do GNT, desenvolveu linhas exclusivas para a marca. Da coleção Geraldo, o hexagonal da foto sai por 398 reais o metro quadrado e pode ser customizado em quarenta cores.

Philippe Starck

Philippe Starck: desenho exclusivo para hotel do Rio Denílson Machado/Divulgação

Ambiente do Hotel Yoo2, em Botafogo, no Rio de Janeiro, inaugurado em 2016, às vésperas da olimpíada. O convite para produzir os ladrilhos exclusivos do local foi feito pela designer de interiores Melina Romano, responsável pela “tropicalização” do projeto desenvolvido pelo escritório do arquiteto francês Philippe Starck.

Edifício Martinelli

Edifício Martinelli: ladrilho da fábrica Ladrilar/Divulgação

Hamilton Cristófalo cresceu ouvindo a história de que o piso do terraço do Martinelli tinha saído da fábrica de sua família. Mas a confirmação ele só teve em 2011, quando a Ladrilar foi chamada a criar peças para a restauração do pavimento. “Fomos escolhidos porque encontraram o nome da nossa empresa nos arquivos da construção do prédio.”

No universo lúdico de OSGEMEOS

OSGEMEOS: peças para uma exposição Acervo OSGEMEOS/Divulgação

Em 2011, a empresa desenvolveu um molde único para fabricar os ladrilhos desenhados pelos irmãos Gustavo e Otávio Pandolfo, OSGEMEOS. As peças, que não podem ser reproduzidas, foram empregadas em uma escultura mecânica e musical da exposição Fermata.

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Modelos icônicos

Traço de Niemeyer: piso de uma igrejinha em Poços de Caldas foi feito ali Ladrilar/Divulgação

>Encomenda de Oscar Niemeyer para capela construída em uma fazenda de Roberto Irineu Marinho em Poços de Caldas: o traço chegou num guardanapo. Não está à venda.

Padrão usado por Paulo Mendes da Rocha em muitas obras: este pode ser customizado em outras cores Ladrilar/Divulgação

> Modelo adotado por Paulo Mendes da Rocha na Casa Gerassi, em 1990, e em outras obras dele: custa 289 reais o metro quadrado e ganhou o nome do arquiteto.

Destalhe do piso do Edifício Martinelli Ladrilar/Divulgação

> O ladrilho, feito com moldes vindos da Itália, usado no pavimento do Edifício Martinelli, inaugurado em 1929: 289 reais o metro quadrado. É uma das opções que podem ser personalizadas.

Piso da Pinacoteca: padrão liso foi adotado em algumas áreas na reforma no final da década de 90 Ladrilar/Divulgação

> O piso vermelho da Pinacoteca, a 180 reais o metro quadrado. O revestimento foi escolhido por Paulo Mendes da Rocha em 1998, quando a construção passou por uma ampla reforma.

Curiosidades da fábrica quase centenária

1 800 modelos estão no catálogo, mas apenas 300 deles ficam em exposição

60 ladrilheiros trabalham atualmente na fábrica, fundada em 1922

50 dias é o tempo de secagem das peças. Por isso a entrega não é imediata

10 000 ladrilhos são produzidos, em média, a cada mês

Publicado em VEJA SÃO PAULO de 4 de março de 2020, edição nº 2676.

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