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Ivam Cabral: “É uma maravilha o que podemos fazer em um território”

Às vésperas de mais uma Satyrianas, festival multicultural que agita o Centro, ator e diretor relembra trajetória que ajudou a revitalizar a Praça Roosevelt

Por Clayton Freitas
28 out 2022, 06h00

Quando a companhia Os Satyros aportou na Praça Roosevelt, em 2000, predominavam a criminalidade e a degradação, o que fazia a ida ao antigo galpão improvisado da trupe um passeio bem arriscado. Mesmo ameaçados pelo crime, insistiram, e essa permanência foi uma das molas propulsoras para a revitalização do entorno. Um dos heróis dessa resistência é Ivam Cabral, 59, fundador, ator e diretor da trupe. Prestes a abrir a 23ª edição da Satyrianas, uma maratona multicultural que acontece entre os dias 12 e 15 de novembro, ele relembra alguns fatos que marcam a relação do grupo com o espaço urbano onde está inserido.

Como era a Praça Roosevelt quando começaram?
Era uma praça intransitável, um lugar onde você não podia caminhar porque seria inevitavelmente assaltado. Um território muito hostil para o nosso trabalho, dominado pelo tráfico e pela prostituição. Era também um momento econômico muito difícil. Muitas famílias indo morar na praça por terem sido despejadas. E como um todo o Centro não era habitado, ninguém pensava em viver no centro da cidade. Foi muito difícil esse início, ainda mais a labuta de trazer público. Alguns críticos de teatro iam e depois nos questionavam por qual motivo escolhemos a praça. Diziam que não iam aparecer mais.

Como lidaram com esse cenário adverso?
A grande revolução foi a mesinha na calçada, que se mantém até hoje. Abrimos o espaço para o outro e conversamos com essas pessoas, além de trazermos algumas delas para trabalhar conosco. Até para reconhecer primeiro esse território, que era hostil para a gente, um lugar de difícil convivência. Algumas trabalham até hoje. Temos meninos que estavam no tráfico, que atuavam como “aviõezinhos” e abasteciam os inferninhos aqui da Augusta. E a gente foi trazendo essa moçada, travestis, transexuais, e vimos também a vida dessas pessoas transformada.

Isso não incomodou o tráfico? Teve alguma situação de risco?
Muitas (ri alto). Em uma peça do Bortolotto (Mário Bortolotto, ator e dramaturgo, líder do grupo Cemitério de Automóveis) em 2004, O que Restou do Sagrado, recebemos um telefonema dizendo que se a gente não saísse de lá não seria bom para a nossa saúde. As ameaças já vinham acontecendo havia muito tempo, mas dessa vez foram mais incisivos, dizendo que haveria derramamento de sangue naquela noite. Eu fiquei completamente assustado. Informei à produtora do espetáculo, a Fernanda (Fernanda D’Umbra, atriz, diretora e produtora), e ela nem deu bola. Porém muitos artistas saíram de vários projetos, todos assustados, dizendo que não tinham saúde para uma situação dessas. Mas nada aconteceu. Eu até agradeço à Fernanda por essa postura. Depois disso, chegamos a nos reunir com lideranças do PCC.

O espaço era adequado para abrigar uma sala de teatro?
Era um outro jeito de pensar a arte e a cultura de modo geral. A gente tem um mérito ali que nunca foi devidamente reconhecido, que foi o jeito de fazer teatro numa sala como aquela. Era um lugar que não dava para fazer nada, e a gente insistia nesse outro jeito de pensar a produção teatral. Ainda mais quando você pensa em teatro, pensa em palco italiano, poltronas vermelhas, cortina vermelha. A nossa iluminação é analógica, e a gente ainda não chegou ao digital, e isso é proposital. Inauguramos o espaço no ano de 2000 e o ar-condicionado chegou somente em 2008. E não era pelo dinheiro, até porque era relativamente barato colocar um ar-condicionado lá, mas era um jeito que a gente queria reproduzir. Hoje você encontra espaços como o nosso espalhados pela cidade, e eu acho isso muito bacana.

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Sempre houve ruído com a vizinhança e vocês não eram muito benquistos. A ocupação do entorno mudou?
Tivemos muitos problemas. Sempre achavam que deveriam nos tirar daqui e falavam em cercar a praça. As coisas agora estão mais apaziguadas, mas até antes da pandemia era uma guerra. A praça se aburguesou demais. Com a reforma, teve uma grande especulação imobiliária e se tornou um dos metros quadrados mais caros da cidade. Vieram mais hipsters, moradores com grana e prédios bacanas.

Existe relação entre a ocupação cultural e o impacto urbano?
Sim. Esse movimento foi tão potente que criou o Baixo Augusta, que é um outro jeito de ver a cidade. A gente mostrou e mostra até hoje que é possível rever a história, que é possível rever a geografia. Hoje, tudo começa na Roosevelt e tudo acaba na Roosevelt, da Parada Gay às manifestações políticas. É uma maravilha o que a gente pode fazer em um território. Lembrando que começamos isso com um galpãozinho pequeno, onde cabem setenta pessoas. Precisamos lembrar também que esse conceito não é novo e a gente não inventou a roda. Vimos isso em Nova York com o Soho, em Lisboa, em Berlim, na Alemanha… Enfim, a gente foi vendo que esses espaços degradados onde ninguém queria morar, habitar, podem ser salvos pelos artistas, e a arte pode, sim, ressignificar esse espaço.

Guardadas as devidas proporções, é possível traçar algum paralelo da experiência de vocês com a atual questão da Cracolândia?
É claro que é possível. Vamos analisar a questão da Sala São Paulo (um dos objetivos para sua criação foi a revitalização da região da Luz). Por qual motivo o projeto não deu certo? Porque é um projeto que esconde a cidade. A pessoa vai porque tem um estacionamento, que te conduz até a sala de concerto, você não precisa caminhar por ali, então não tem vida, e aquele trecho da cidade continua morto. É preciso colocar gente, colocar mesas na calçada, levar os skatistas, criar espaços onde você promova ou possa promover a convivência. A maioria que está lá (Cracolândia) ainda tem jeito. As pessoas que ali estão não têm seus afetos reconhecidos, e a arte é o único reduto que pode te conectar com a humanidade. A arte é um lugar onde você é alguém e a sua alteridade pode ser praticada. Tinha de acontecer um pouco como foi com a gente, abrir mais espaços, bares. Quando chegamos, era um lugar não habitável e desacreditado, e ninguém conhecia, precisava fazer mapa para chegar aqui. A região da Luz é riquíssima culturalmente.

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Publicado em VEJA São Paulo de 2 de novembro de 2022, edição nº 2813

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