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A história de Giva, que aos 22 é CEO de empresa nascida em Paraisópolis

A Favela Brasil Xpress já entregou 1 milhão de pacotes onde antes compras on-line não chegavam e teve faturamento de mais de 7 milhões de reais

Por Clayton Freitas
Atualizado em 15 jul 2022, 13h56 - Publicado em 15 jul 2022, 06h00

Em Paraisópolis, a figura de um jovem de 22 anos, magro, pele clara de descendente de holandês, falando pausadamente e vestido de forma impecável — sapatos lustrosos, bem engraxados, e camisa Tommy Hilfiger fazem parte do vestuário esporte fino —, pode confundir um eventual observador, que terá dificuldade em acreditar que Givanildo Pereira Basto, que prefere ser chamado de Giva Pereira e dirige um potente Jeep Compass, já passou muita dificuldade na vida, situação que levou sua família a sair do distrito de Palmeira, em Imaculada, no sertão da Paraíba, rumo a São Paulo em busca de oportunidades.

O menino que um dia ajudou a mãe na roça, morou num barraco em cima de um córrego e nunca conheceu o pai hoje é CEO de uma empresa de logística que oferece seus serviços aos maiores players de e-commerce do Brasil, movimentando quase 600 milhões de reais em cargas em pouco mais de catorze meses de operação, dá oportunidade de emprego a 400 moradores de favelas e, de quebra, teve faturamento de mais de 7 milhões de reais.

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No que depender da vontade dele, a Favela Brasil Xpress, empresa que fundou em sociedade com Gilson Rodrigues, do G10 Favelas, uma iniciativa de empreendedores sociais que pretende ampliar os negócios nas favelas, será o primeiro unicórnio — termo que designa as startups que têm avaliação de mercado de 1 bilhão de reais — criado em uma comunidade.

Giva, um homem branco, de cabelos e barba castanhos, veste uniforme de sua empresa de entregas. Está na frente de outros dois trabalhadores, homens negros que também usam uniforme, em uma das ruas de Paraisópolis. Eles seguram pacotes e caixas e compras on-line
(Alexandre Battibugli/Veja SP)

Última milha
Giva, no centro: jovem criou empresa que facilita a entrega dos produtos de grandes empresas de e-commerce em favelas e que já transportou cargas de mais de 600 milhões de reais

Bem antes de montar a empresa, Giva estudava e distribuía panfletos, além de vender bala e água em faróis do trânsito da capital para ajudar no orçamento da família. Mais tarde, se envolveu com a União de Moradores e Comerciantes de Paraisópolis, presidida por Gilson Rodrigues. Foi lá que ele começou a trabalhar como assistente, em 2018, e liderou um projeto que trouxe 700 pessoas de trinta países para conhecer a favela com mais de 100 000 habitantes.

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O jovem se envolveu cada vez mais com projetos sociais e, com a pandemia, se voluntariou para organizar a entrega de doações de cestas básicas nas casas, no início de 2020. Ele foi o primeiro presidente de rua, um sistema que selecionou 658 voluntários residentes na favela para cuidar, cada um, de moradores de cinquenta casas. O papel deles se assemelha ao de “guardiões das comunidades”, já que iam até os moradores perguntar se precisavam de alimentos, remédios ou serviços de saúde. “Percebi que nada chegava aos moradores, muitas vezes nem serviços públicos”, afirma Giva.

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Após observar a dificuldade que ele mesmo vivia e a de seus vizinhos, que não recebiam compras feitas pela internet, ou precisavam dar o endereço de outras pessoas que conseguiam receber em locais fora da favela, ele teve um estalo e montou um projeto de logística que geraria renda aos próprios moradores. A ideia se baseou na experiência dos presidentes de rua, já que eles conheciam todas as vielas e becos pelo trabalho voluntário que desempenhavam desde o início de 2020.

Giva conta que o início não foi nada fácil. No projeto piloto, quem botou a mão na massa e bateu na porta das lojas oferecendo os serviços foi ele, que também atuou na separação dos produtos, fazendo a triagem, e quebrou um galho também como entregador. Percebeu que sozinho não ia longe e precisava de dinheiro para contratar pessoal, o que também não foi nada fácil, tendo em vista o fato de ser um jovem de apenas 21 anos na época e não ter um score alto para captar investimentos junto a bancos.

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A solução foi recorrer ao G10 Bank, uma outra empresa ligada ao G10 Favelas, que aportou 15 000 reais. Esse valor foi empregado no projeto piloto, iniciado em setembro de 2020. Como notou que o serviço teve boa aceitação, em abril de 2021 decidiu estabelecer oficialmente a Favela Brasil Xpress LTDA. e fechou seu grande primeiro contrato com a Americanas, hoje responsável por 60% dos serviços. No começo da operação, em abril do ano passado, foram transportados 6 250 pacotes, número que hoje responde pela média diária das bases. No acumulado, já são mais de 1 milhão de entregas.

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Segundo Giva, como a intenção era ampliar os serviços para outras localidades, uma vez que o G10 Favelas tem uma rede de contatos com 118 comunidades em nove estados, a solução foi entrar na Bolsa de Valores das Favelas, que, na prática, funciona como um crowdfunding (financiamento coletivo). A oferta pública de ações da Favela Brasil Xpress, chamada de IPO no jargão do mercado financeiro, conseguiu captar 900 000 reais de 844 investidores. Será esse o valor a ser empregado na criação das cinquenta novas bases até o fim deste ano, o que deve fazer com que o negócio empregue 1 500 novos colaboradores e bata a meta de chegar a 10 milhões de entregas até dezembro próximo.

Do valor do faturamento, ele conta que 33% são destinados em forma de doações para projetos do G10 Favelas, que as reverte para moradores das comunidades em que atua, e o restante vai para o pagamento dos funcionários e a manutenção das bases. Para os cerca de cinquenta funcionários diretos, Giva faz contrato via CLT. Já os mais de 300 indiretos, como os entregadores, que ganham de 1 500 a 4 000 reais por mês, a contratação é feita por nota de uma microempresa aberta pelo profissional.

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O serviço que a Favela Brasil Xpress oferece é conhecido mundialmente como last mile, ou última milha. Trata-se da etapa final do processo de entrega, quando o produto chega à casa do cliente. Para as comunidades, muitas empresas simplesmente “bloqueiam os CEPs”, já que não vendem os produtos por receio de serem alvo de crime ou mesmo por dificuldades de acesso, como falta de endereço ou impossibilidade de encontrá-lo. A Total Express era uma das poucas que faziam o serviço, porém com uma abrangência limitada, segundo o seu vice-presidente, Eduardo Peixoto. “Com a parceria, foi possível atendermos mais comunidades e de uma maneira muito mais ativa”, diz.

Dois trabalhadores, um homem e uma mulher, descarregam um caminhão e um contêiner com pacotes e caixas, em Paraisópolis
Logística: encomendas são recebidas nas bases e distribuídas (Alexandre Battibugli/Veja SP)

Ele afirma enxergar um grande potencial na ampliação para outros pontos do país. Fernando Gasparini, diretor-executivo de logística da Via, grupo que congrega Casas Bahia, Ponto, banQi, entre outras, avalia que o emprego de moradores da própria comunidade traz benefício tanto para tornar as entregas mais assertivas quanto para deixá-las mais seguras. “Com o relacionamento que eles têm com a comunidade, o grau de risco é reduzido. O sucesso deles é criar essa empatia com a comunidade. Conseguiram converter uma ameaça em uma fortaleza.” No caso da Via, a parceria inclui a cessão de um espaço físico em uma das lojas das Casas Bahia localizada em Paraisópolis.

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A meta da Favela Brasil Xpress também é ampliar o rol de empresas parceiras das atuais nove para quase vinte. Além da Via e da Americanas, hoje os serviços são prestados para Riachuelo, Total Express, Mercado Livre, Magalu, DHL, Shopee e o supermercado Brasileiríssimo. Segundo Giva, até junho, o tíquete médio de compra era de 592 reais, cifra reduzida para 292 com a entrada de novos clientes. A redução do valor não significa que as pessoas estão comprando menos, mas que, além de produtos eletroeletrônicos, que geralmente puxam a média para cima, estão diversificando as aquisições.

O agora CEO é formado em análise e desenvolvimentos de sistemas. Conta ter visto amigos serem presos e outros mortos pela violência. Giva prefere qualificar sua opção de vida como um “ponto fora da curva”, já que insistiu em manter os estudos até descobrir, quando estava prestes a entrar no ensino médio, uma escola particular que oferecia ensino em tempo integral dentro de Paraisópolis, a Escola Alef Peretz. Prestou o vestibulinho e ficou numa lista de espera com 20 000 nomes. Ao ser chamado, agarrou aquela que ele considera a maior oportunidade de sua vida. Na escola ele desenvolveu projetos premiados, entre eles um sensor de enchentes que monitorava a situação da região da Caixa Baixa, próximo ao córrego Antonico.

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Ao ser questionado de onde vem o tino para os negócios, ele credita à sua curiosidade em aprender, tendo em Gilson Rodrigues, conhecido como “prefeito de Paraisópolis”, seu mentor. Ele lembra que em 2012, assim que aportou em Paraisópolis com os irmãos e a mãe para morar de favor no barraco de uma de suas tias, num total de dez pessoas, estranhou a vista e as características geográficas do local, cheio de morros, vielas e becos de difícil acesso. Ele diz que à época nem sonhava que percorrer esses locais para entregar os produtos que os seus vizinhos compravam e não conseguiam receber seria o seu ganha-pão e de muitos amigos seus.

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ENTREGA NA PORTA

Moradora de Paraisópolis desde que nasceu, a auxiliar administrativa Gerciane Alves, de 35 anos, até fazia compras pela internet , porém precisava dar o endereço de uma vizinha moradora de uma das 56 ruas principais da favela para poder receber o que comprava. “Muitas vezes diziam que não encontravam”, conta. Hoje, com a facilidade de receber os produtos na porta de casa, passou a comprar mais, inclusive o material escolar do filho.

Um entregador, com camiseta azul, seu uniforme, entrega uma grande caixa de papelão a um mulher na porta de uma casa, em Paraisópolis
Em mãos: Gerciane antes precisava dar outro endereço (Alexandre Battibugli/Veja SP)

A dificuldade em receber os produtos na viela onde mora levou a auxiliar de limpeza Jéssica Araújo de Oliveira, 31, a desistir das compras pela internet. “Eles até vendiam, já comprei celular, coisas para cozinha e a desculpa era sempre a mesma, de que não conseguiam achar. E olha que eu moro pertinho da rua principal”, conta. Nas horas vagas, ela também faz bicos oferecendo às vizinhas serviços de tratamento de cabelo, que foram ampliados com a facilidade de comprar os produtos e receber na porta de casa com o novo serviço de entrega na favela. “A loja que vende produtos de estética é longe. Além disso, na internet é sempre mais barato”, afirma.

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OPORTUNIDADE AOS 50

Entre os colaboradores da Favela Brasil Xpress está a secretária Sirlene Soares, 50, braço direito de Giva Pereira. Após passagens por multinacional farmacêutica e órgãos governamentais, ela ficou desempregada durante a pandemia. A solução foi vender objetos como notebook, freezer e outros itens para pagar as contas.

Giva sentado em sua mesa, enquanto sua secretária, uma senhora de cabelos lisos e grisalhos, se apoia e olha seu computador
Braço direito: Sirlene é quem comanda a agenda de Giva Pereira (Alexandre Battibugli/Veja SP)

Moradora de Interlagos, ao assistir a um programa de notícias pela TV em 2021, ficou sabendo que um projeto social de Paraisópolis estava contratando funcionários. Pegou seu carro e foi até a favela. “Até pela idade eu achava difícil ter uma oportunidade”, diz. Um mês depois, aos 50, foi contratada. “Nunca tinha passado por Paraisópolis e sentia muito medo, mas hoje eu respiro isso aqui, virou minha família e quero me mudar para cá”, conta. Com o emprego, ela conseguiu realizar um antigo sonho, comprar um Jeep vermelho. Quem já se mudou de Parelheiros, na Zona Sul, para Paraisópolis há três meses foi Caio Santos, de 26 anos, coordenador-geral da base de entregas. “Antes, eram duas horas para ir e outras duas para voltar.”

VENDA DE CARTER’S SURPREENDE

A Carter’s, marca que motiva a viagem de muitos endinheirados para Miami com a finalidade de vestir seus bebês, chegou à favela. “Isso chamou muito a nossa atenção por um lado, mas, por outro, mostra o potencial de consumo enorme desse público”, afirma Gabriel Kanner, 32 anos, do Instituto Riachuelo. A rede de lojas de departamento comercializa a marca no Brasil, que tem preço médio de 120 reais a peça. Parceira da Favela Brasil Xpress desde fevereiro, a Riachuelo está presente em cinco pontos de distribuição: Paraisópolis, Capão Redondo, Heliópolis, Cidade Júlia, em São Paulo, e Diadema, na Grande São Paulo. Desde então, já foram mais de 10 000 pedidos, muitos deles da Carter’s. “Antes não entregávamos, e o faturamento não existia”, afirma Kanner.

Giva e seus funcionários e parceiros sentados com vários pacotes de encomendas em um suporte de madeira à frente
Potencial: valor médio de peças da marca infantil é de 120 reais (Gabriel Kanner/Divulgação)

Quem está desde o começo e é a maior parceira da Favela Brasil Xpress é a Americanas S.A., que responde por seis em cada dez entregas. Segundo Bruna Sabóia, gerente de sustentabilidade da empresa, a dificuldade de logística para entrar nas vielas e becos era o maior problema para levar os produtos até a casa dos clientes. “Não é apenas entregar o produto, mas incluir essas pessoas no e-commerce”, afirma Bruna. Sem revelar valores, ela diz que o tíquete médio é similar ao dos clientes dos Jardins, área nobre da capital.

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“AGORA FAÇO PARTE DA SOCIEDADE”

Há seis anos, Alexandra Pereira da Silva, de 47 anos, deixou a casa que ocupava numa área de risco no Parque Santo Antônio, na Zona Sul, e se mudou para Paraisópolis. Por não conseguir receber os produtos que comprava em casa, dava o endereço antigo, distante 8 quilômetros do novo local. “Falavam que não conseguiam achar a casa. É como se a gente não existisse”, diz. Agora seu endereço está disponível até no Google Maps, já que sua casa é uma das 1 300 que contam com o Plus Code, um sistema que funciona como um endereço digital e permite a fácil localização. “Agora eu faço parte da sociedade.”

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Alexandra, mulher negra e magra, na frente de sua casa, em Paraisópolis. Segura um pacote de encomenda on-line e aponta para a placa de seu endereço
No Google: código em placa permite localizar endereço de Alexandra (Alexandre Battibugli/Veja SP)

Criada em maio por meio de uma parceria da Americanas com o Google, a ação é inédita em uma favela. A meta é dotar 100 000 endereços de Paraisópolis com o código. “A gente quer fazer de Paraisópolis um modelo para a América Latina”, afirma Newton Neto, diretor de parcerias globais do Google para a América Latina. A tecnologia da big tech é open source, ou seja, qualquer um pode fazer a inserção, sem custos. A precisão é de 1 metro quadrado, o que permite a localização em áreas urbanas muito adensadas como uma favela. O maior desafio no caso de Paraisópolis, e em favelas de todo o mundo, é a cartografia, já que muitas vielas e becos não têm nome e precisam ser “desenhadas”, num trabalho manual.

BASES FUNCIONAM COMO FILIAIS

Um dos sete pontos em operação da Favela Brasil Xpress é na Cidade Júlia, em Cidade Ademar, no extremo da Zona Sul. Nesses locais, o CEO da empresa, Giva Pereira, conta com parceiros, numa espécie de subsidiária da empresa. Eles montam um CNPJ e assumem a função de líderes operacionais, ficando responsáveis por contratar os entregadores e fazer a intermediação do serviço.

Trabalhadores em centro de distribuição repleto de caixas e pacotes
Cidade Júlia: local é um dos sete pontos em operação; meta é de 50 (Alexandre Battibugli/Veja SP)

Apesar de trabalhar com moradores do bairro, investidas de criminosos acontecem, o que leva a necessidade de escolta armada, bancada pelo contratante, no caso, a empresa que vende os produtos. “Preferimos não operar a fazer acordo com criminosos”, explica Giva.

* Diferentemente do informado na versão anterior, Bruna Sabóia é gerente de sustentabilidade da Americanas S.A., e não diretora.

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Publicado em VEJA São Paulo de 20 de julho de 2022, edição nº 2798

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