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Em Terapia Por Arnaldo Cheixas Terapeuta analítico-comportamental e mestre em Neurociências e Comportamento pela USP, Cheixas propõe usar a psicologia na abordagem de temas relevantes sobre a vida na metrópole.

Eu sou você amanhã: o imaginário aguçado pelo app de envelhecimento

O psicólogo Arnaldo Cheixas analisa os motivos que levaram ao sucesso da ferramenta

Por Arnaldo Cheixas Atualizado em 24 jul 2019, 19h50 - Publicado em 24 jul 2019, 19h49

A brincadeira que se disseminou globalmente nos últimos dias é aplicar em retratos digitais um filtro de envelhecimento que mostra a possível aparência da pessoa como se ela fosse décadas mais velha. Por meio do aplicativo FaceApp (da empresa russa Wireless Lab), basta carregar uma fotografia de alguém e aplicar o filtro disponibilizado por lá.

A ferramenta foi registrada em 2016 e lançado pra valer no início de 2017. Não se sabe as razões para o pico de downloads das últimas semanas, mas é evidente a curiosidade das pessoas em ver envelhecida a própria imagem (e a de pessoas próximas). Não me parece possível cravar uma explicação única para o sucesso repentino do FaceApp mas alguns pontos podem ajudar na reflexão.

A expectativa de vida no Brasil na década de 1940 era de 45 anos. Atualmente é de 76 anos. Ponderando-se a alta taxa de mortalidade no país dos anos 40, a população tem de fato vivido cada vez mais e com qualidade cada vez maior sob certos aspectos. Antigamente não se aproveitava muito do potencial de desenvolvimento biológico. Morria-se cedo.

E a aparência de quem morria com 45 anos não era tão diferente de sua aparência aos vinte e tantos anos. Se fosse possível desenvolver na época algoritmos de envelhecimento da imagem das pessoas, provavelmente não haveria tanto sucesso quanto agora. Dito de outra forma, envelhecer nossos retratos em 200 anos não despertaria tanto nosso interesse. Tanto num caso quanto no outro, o ponto é que a imagem envelhecida não nos transmitiria uma noção de factibilidade… Não nos pareceria algo real.

Mas nesse momento temos a combinação perfeita de tempo maior de vida pela frente (mesmo entre os idosos atuais) e capacidade tecnológica de antecipar com qualidade o resultado do envelhecimento. Ou seja, há um interesse efetivo no resultado do filtro porque ele é fidedigno ao envelhecimento real. O fato de anos atrás já terem surgido algoritmos de envelhecimento com menor refinamento e sem o mesmo sucesso do atual reforça essa abordagem.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a crescente expectativa de vida está redefinindo a noção de velhice no mundo todo. Assim documenta a OMS em seu Relatório Mundial de Envelhecimento e Saúde (2015):

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“Uma vida mais longa é um recurso incrivelmente valioso. Proporciona a oportunidade de repensar não apenas no que a idade avançada pode ser, mas como todas as nossas vidas podem se desdobrar. Por exemplo, em muitas partes do mundo, o curso da vida é atualmente enquadrado em torno de um conjunto rígido de fases: infância, fase de estudos, um período definido de trabalho e, em seguida, aposentadoria. A partir dessa perspectiva, frequentemente se assume que os anos extras são simplesmente adicionados ao fim da vida e permitem uma aposentadoria mais longa. Entretanto, quanto mais pessoas chegam a idades mais avançadas, há evidências de que muitas estão repensando este enquadramento rígido de suas vidas. Em vez de passar anos extras de outras maneiras, as pessoas estão pensando em talvez estudar mais, em ter uma nova carreira ou buscar uma paixão há muito negligenciada. Além disso, conforme as pessoas mais jovens esperam viver mais tempo, elas também podem realizar planejamentos diferentes, por exemplo, de iniciar suas carreiras mais tarde e passar mais tempo no início da vida para criar uma família (página 5).”

Este precioso documento da OMS identifica uma mudança muito relevante produzida pela maior longevidade combinada com a saúde. As pessoas cada vez mais vislumbram o próprio envelhecimento como um período de vida que pode ser bastante ativo, um momento que, a despeito da maior proximidade com a morte, pode ser vivido de forma ativa e explorando potencialidades. Considerando que até 2025 o Brasil terá a sexta maior população idosa do mundo, é natural o interesse dos brasileiros em poder imaginar como será seu rosto daqui algumas décadas.

Outro fator que certamente contribui para a atratividade da brincadeira de envelhecer a própria imagem é o fato de nossa sociedade valorizar bastante a imagem, a estética corporal. O culto à imagem e ao corpo tem sua expressão mais intensa na história por causa das redes sociais. Faz-se tudo por um clique. Certamente muita gente compartilha sua selfie posando de velhinho fitness. E, certeza, assim como faz com suas fotos contemporâneas e com seus TBTs, tem gente aí que aplica o filtro de velhinho em várias fotos até escolher para compartilhar aquela em que ficou um coroa tipo George Clooney ou Julia Roberts. Depois do TBT, estamos inaugurando a era do AVT (#advancethursday).

Para não deixar passar em branco as preocupações de parte da sociedade com as questões de privacidade já que, para usar o recurso, é necessário autorizar o acesso do aplicativo russo à galeria de fotos do smartphone, vale a pena uma reflexão. Ao que parece toda a desconfiança sobre o FaceApp se deu porque a empresa desenvolvedora é russa. Você acha os Estados Unidos mais confiável do que a Rússia em relação às boas práticas de privacidade? Você confia mais no Facebook do que no FaceApp? Não soa curioso as pessoas se preocuparem com o que o FaceApp fará com suas informações e, logo depois de aplicarem o filtro a uma selfie, publicarem-na no Facebook ou no Instagram?

Agora, talvez a razão mais simples para o sucesso da brincadeira do envelhecimento seja pura e simplesmente o fato de nós humanos termos em nossos cérebros o córtex pré-frontal. Esta porção evolutivamente mais recente do cérebro concede a nós humanos a consciência sobre a própria existência (e sua finitude) e uma capacidade complexa de estabelecer uma personalidade e uma identidade individuais, além de nos enxergarmos como parte de um coletivo no qual podemos até nos colocar no lugar do outro.

Somos sempre curiosos sobre a realidade, sobre o cosmo e sobre nós mesmos. Tudo o que nos mostre diante do espelho da existência desperta nosso interesse e nossa curiosidade. Quando esse espelho atiça nosso olhar egocêntrico e desperta nossas neuroses, ficamos ainda mais curiosos. Quer força maior para isso do que nossa imagem como mais velhos? O futuro antecipado numa imagem pode nos ajudar a querermos chegar lá com escolhas que preservem nossa melhor imagem. Envelhecer com qualidade de vida torna a proximidade da morte menos apavorante. Mas de fato a vida é sempre agora… até que acabe.

Referências

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