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Na Plateia Tudo sobre teatro

“Fim”, de Felipe Hirsch: espetáculo traz artistas à beira do abismo

A montagem do coletivo Ultralíricos apresenta as angústias criativas em um tempo de esfacelamento da autoralidade e dos códigos de ética

Por Dirceu Alves Jr. - Atualizado em 14 mar 2019, 12h16 - Publicado em 14 mar 2019, 12h13

Um dos mais expressivos encenadores do país, Felipe Hirsch depositou forte carga social e política em seus mais recentes trabalhos, Puzzle, A Tragédia Latino-­Americana, A Comédia Latino-Americana e Selvageria. Com Fim, adaptado de textos do escritor argentino Rafael Spregelburd, o diretor se volta para as angústias artísticas em um tempo de esfacelamento da autoralidade e dos códigos de ética. Dividido em quatro episódios, o espetáculo desconstrói o universo de profissionais envolvidos com a criação.

Na abertura, O Fim das Fronteiras, o ator Renato Borghi (foto) esbanja ironia ao misturar idiomas em sua explanação e transmitir mensagens cifradas para uma desinteressada tradutora (vivida por Magali Biff). A seguir, Amanda Lyra e Rodrigo Bolzan exibem perfeita sintonia e beiram o absurdo em O Fim da Arte. Eles interpretam dois professores diante de um descompasso de ideias. A visita de um estudante e do pai do rapaz (representados por Vinícius Meloni e Borghi) esquenta a discussão em torno de tradições e relações pessoais.

Destaque do conjunto, O Fim da Nobreza traz um grupo de artistas que vende as habilidades para a diversão de milionários em uma festa. Os atores Magali Biff, na pele da anfitriã alienada, e Rodrigo Bolzan, como o paleontólogo que se traveste de mulher, são talentos evidentes. A performance coreográfica de Danilo Grangheia, porém, rouba a atenção pelo preciosismo corporal e pela ausência de palavras.

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Para terminar, a melancolia ganha forma óbvia em O Fim da História, centrada em uma companhia de teatro envolvida com os ensaios de um clássico e travada em face de ousadias criativas. Mesmo que sejam pessimistas, as cenas estimulam a resistência de profissionais à beira do abismo.

O diretor elaborou um conceito capaz de mostrar que, em tempos repletos de obstáculos, a arte busca incansavelmente a possibilidade de salvação. Aqui, Hirsch usa palavras e imagens certas, conquistando o interesse do público e assinalando que o fim, apesar de inevitável, pode estar ainda um pouco mais adiante. Com Blackyva, Sarah Rogieri, Maria Beraldo e Mariá Portugal (120min). 16 anos. Estreou em 8/3/2019.

+ Teatro Anchieta — Sesc Consolação. Rua Doutor Vila Nova, 245, Vila Buarque. Quinta a sábado, 21h; domingo, 18h. R$ 40,00 Até 14 de abril.

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