Teatro

Atores ficam doze horas em cena na peça ‘Vigília’

Carlos Canhameiro, André Capuano e Daniel Gonzales passam a noite em claro para contar a história de um homem que não dorme

Por: Bruno Machado - Atualizado em

Vigília - Teatro
Daniel Gonzales, Carlos Canhameiro e André Capuano na Oficina Cultural Oswald de Andrade: improvisações madrugada adentro (Foto: Mariana Chama)

“Faz alguns anos que não durmo. Não sei bem porque parei de dormir. O fato é que faz alguns anos que eu não durmo sequer uma hora, que eu não dou um cochilo sequer.” Esse é o ponto de partida de Vigília, espetáculo que mescla linguagens dramáticas e performáticas. O resultado é uma espécie de “performance-instalação” que narra a história de um homem insone.

Isso já seria o suficiente para classificar o espetáculo como pouco convencional. A grande diferença é que os atores Carlos Canhameiro, André Capuano e Daniel Gonzales decidiram radicalizar a proposta sugerida pelo texto de Cássio Pires, e durante as apresentações, que duram impressionantes doze horas, passam a madrugada em claro na Oficina Cultural Oswald de Andrade.

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Segundo Pires, autor e diretor do experimento artístico, a ideia original surgiu ainda 2006, quando o texto ganhou uma versão final. Inicialmente, o trio de atores ficaria enclausurado num teatro durante dez dias. “Ainda bem que mudamos de ideia, pois acho que não sobreviveríamos até o final”, brinca Canhameiro, que abdicou da ideia maluca por outra não menos absurda. “Até o final da temporada, vou ficar 108 horas em cena”, calcula. A montagem faz sessões de sexta a domingo até o dia 29.

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Carlos Canhameiro e André Capuano em cena de 'Vigília' (Foto: Mariana Chama)

Em cena, os atores se revezam em poltronas, reviram-se na cama, servem-se de água e comida de uma geladeira, assistem a filmes como Super Xuxa Contra o Baixo Astral em televisores espalhados pelo cenário e usam o YouTube para criar a eclética trilha sonora do espetáculo, que vai de Fagner a Tchaikovsky. “Criamos uma série de pequenas cenas que chamamos de matrizes, alguns movimentos que repetimos aleatoriamente. É impossível dizer o que é ensaiado e o que é improviso”, explica Canhameiro. Em dado momento, o trio permanece em silêncio e estático durante vinte minutos, enquanto um marcador registra a contagem regressiva; noutra, é obrigado a repetir uma série de exercícios físicos projetados num telão. Em um dos trechos mais dramáticos, Gonzales agarra uma taça com água e um peixe vivo e engole todo o conteúdo de uma vez.

Todas as ações são coordenadas pelo diretor, que programa algumas ordens aleatórias num computador que fica à disposição do elenco, que nunca sabe exatamente qual ação terá de executar. “Não se trata de dirigir os atores, mas de sugerir algumas ações simples como arrumar o cenário ou tomar uma xícara de café para promover o improviso”.

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Carlos Canhameiro em cena do espetáculo: 108 horas em cena (Foto: Mariana Chama)

O público pode entrar e sair do espaço cênico no momento que desejar. E pode se servir de café também. A maioria das pessoas, de acordo com o diretor, permanece na Oficina cerca de duas horas, com exceção de uma estranha e corajosa espectadora. “Estamos até agora impressionados com uma mulher que assistiu aos três primeiros espetáculos inteiros. Chorou, cantou, brigou com os atores e dormiu. Algumas pessoas chegaram a pensar que ela fazia parte da performance”, afirma.

Entre um espetáculo e outro, os atores se preparam, e sobretudo, tentam dormir. “Está sendo difícil retomar a rotina do sono, ainda mais tendo uma criança de cinco meses em casa e uma reforma no apartamento acima”, confessa Carlos Canhameiro, que não reclama do desgaste físico decorrido do processo.  Para ele, no entanto, a insônia é só uma metáfora para fazer o espectador refletir sobre a passagem do tempo: “O espetáculo fala sobre prestar atenção nas pequenas coisas. Queremos que as pessoas que venham nos ver criem uma nova relação com o tempo. Estamos propondo um exercício de contemplação”.

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Fonte: VEJA SÃO PAULO