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Vereador quer tombar sotaque da Mooca

Vereador quer preservar o 'mooquês', a pronúncia cantada e italianada característica do bairro da Zona Leste

Por: Maria Paola de Salvo e Dirceu Alves Jr. - Atualizado em

Não vale rir. Há cerca de um mês, o vereador Juscelino Gadelha (PSDB) entrou com um pedido inusitado no Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da cidade de São Paulo (Conpresp). Ele quer tombar o ‘ mooquês ’, aquele sotaque cantado e italianado do bairro da Zona Leste fundado em agosto de 1556 por um grupo de jesuítas. ‘ Meeu, é o seguiiinte: a cidade passa por uma transformação tão brusca que, se essas medidas não forem tomadas, tudo vai se perder ’, explica Gadelha, que, claro, é nascido na Mooca. ‘ Só nós falamos com o ‘ r ’ puxado e comendo o ‘ s ’ das fraaase (sic). ’ A pronúncia característica data do final do século XIX, quando imigrantes italianos passaram a habitar a região. Como o plural da língua italiana não prevê o ‘ s ’, eles tinham dificuldade em pronunciar essa letra no final das palavras, costume incorporado também pelos descendentes. O mooquês aparece nas canções de Adoniran Barbosa e nos poemas de Juó Bananére, pseudônimo do poeta Alexandre Marcondes Machado, que no início do século parodiava a fala inculta dos moradores do Brás, Barra Funda, Bexiga e Bom Retiro.

‘ A Mooca é uma comunidade linguística e quem é de lá se reconhece pela melodia das frases ’, afirma o professor Mauro Dunder, mestre em literatura portuguesa e autor de um estudo sobre o vocabulário mooquês. Em 2005, ele pesquisou o modo de falar de uma dezena de moradores entre 18 e 73 anos. Encontrou palavras nunca antes vistas no dicionário, como capucheta (pipa) e carcanhá (calcanhar). Expressões como ‘ belo ’, ‘ meu ’ e ‘ ma vá ’ são usadas até hoje. ‘ A gente sabe quem é daqui só pela fala ’, diz, caprichando no sotaque, o comerciante Domingos Licastro, proprietário da Ótica América, que funciona desde 1943 na Rua da Mooca.

O Conpresp não tem data para analisar o pedido. Caso seja aprovado, o mooquês será o primeiro bem imaterial protegido da cidade. Apenas quinze patrimônios desse tipo estão registrados no país pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). É o caso, por exemplo, do samba de roda do Recôncavo Baiano e do frevo. No processo de tombamento, o Iphan exige a apresentação de vídeos, gravações, fotos e outros materiais que possam comprovar a importância do que se está querendo preservar. ‘ Embora a língua seja muito mutável, acho a iniciativa válida’ , afirma o professor de sociolingüística da USP Luiz Antonio da Silva. ‘ Mas desde que esteja prevista uma série de medidas para arquivar e proteger o sotaque.’

Fonte: VEJA SÃO PAULO