Cinema

Trinta anos da Mostra Internacional de Cinema

Em três décadas, festival trouxe à cidade diretores e atores consagrados e mais de 6 000 filmes

Por: Miguel Barbieri Jr. - Atualizado em

Outubro de 1977. Então responsável pelo departamento de cinema do Masp, o jornalista Leon Cakoff decide criar uma mostra internacional em comemoração aos trinta anos de fundação do museu. Como os tempos eram de ditadura militar, Cakoff teve de submeter à censura prévia os dezesseis longas e sete curtas, incluindo o drama político Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia, de Hector Babenco. Apenas um curta chinês, identificado como comunista pelos censores, acabou vetado. Todos os outros filmes foram projetados em um velho equipamento de 16 milímetros, emprestado pelo Instituto Goethe. Dezesseis mil pessoas marcaram presença no evento e pediram bis. Isso apesar de boa parte das fitas ser apresentada em versão original, sem legendas em português. Entre os títulos, havia produções da Coréia do Sul e das antigas Iugoslávia e Checoslováquia. Três décadas depois, muita coisa mudou. A programação da 30ª Mostra, que começa na sexta (20), terá mais de 400 filmes distribuídos por dezoito salas, todos legendados em português, e público estimado em torno de 220.000 espectadores.

Cakoff deixou o Masp em 1983, ao fim da 7ª Mostra. Alegou diferenças irreconciliáveis com Pietro Maria Bardi, que dirigia o museu. "Bardi ofendeu-me mortalmente ao insinuar que eu estaria ganhando dinheiro com o festival e que as contas de bilheteria eram suspeitas", diz, em seu livro Cinema sem Fim, que será lançado no dia 30, no lounge montado no 6º andar do Shopping Frei Caneca. A obra, editada pela Imprensa Oficial, traz, além da trajetória do evento responsável até hoje pela projeção de mais de 6.000 filmes, uma série de histórias de diretores e atores que passaram por aqui (veja fotos).

Para escolher o que o paulistano vai assistir, Cakoff vive uma rotina que é o sonho de muitos cinéfilos. Ao lado de sua mulher, Renata de Almeida, ele vai a todas as edições dos festivais de Cannes, Veneza e Berlim e, às vezes, a Locarno, na Suíça. O produtor Ivan Melo segue para o festival de Roterdã, na Holanda, realizado em janeiro. Juntos, eles assistem a aproximadamente 2.000 títulos por ano. Orçada em 4,8 milhões de reais, a mostra, que nasceu com um cardápio de fitas extravagantes, tornou-se eclética. "Na década de 70, havia um caráter de transgressão", afirma Cakoff. "Agora queremos atrair outros públicos. A diversidade é positiva." Neste ano, por exemplo, há desde arrasa-quarteirões de Martin Scorsese (Os Infiltrados) e Ridley Scott (Um Bom Ano) até o exotismo das Filipinas (A Cobradora de Apostas), de Cingapura (Fica Comigo) e da Romênia (12:08, A Leste de Bucareste). "É uma das poucas oportunidades que temos de ver produções que dificilmente chegarão ao circuito comercial", diz a jornalista Marília Gabriela, que não perde uma edição da mostra. No ano passado, ela viu pelo menos três filmes por dia. Promete repetir o feito a partir de sexta-feira.

1995 – As atrizes Rossy de Palma e Marisa Paredes, com Pedro Almodóvar e Cakoff, o criador da Mostra: o diretor espanhol rodou a baiana por causa da péssima projeção de A Flor do Meu Segredo no vão livre do Masp

1992 – Caetano Veloso abraça a atriz portuguesa Maria de Medeiros, ao lado da hoje ex Paula Lavigne: "Caetano vibrou com Era uma Vez no Cinema, do iraniano Makhmalbaf", lembra Cakoff

1992 – Renata de Almeida, Maria de Medeiros e Quentin Tarantino jantam no restaurante Il Sogno di Anarello. Então um mero desconhecido (lançava por aqui Cães de Aluguel), Tarantino via no mínimo quatro filmes por dia

1984 – O ator Dennis Hopper chegou a São Paulo após passar por um tratamento de desintoxicação: agradecimento ao organizador da Mostra por tê-lo resgatado de uma perigosa depressão

1983 – O diretor do Masp, Pietro Maria Bardi, vira homem-placa no centro para divulgar a 7ª Mostra: relação de amor e ódio com Cakoff, que, em seu livro, o chama de ciumento tirano e "o maior algoz do festival"

2000 – A energia imbatível do cineasta português Manoel de Oliveira, na época aos 91 anos, e sua mulher, Isabel: sambinha no pé na festa de encerramento da 24ª Mostra, no Tom Brasil

2001 – O cineasta bósnio Emir Kusturica mostra seu malcomportado rock cigano na abertura da festa: a camisa do São Paulo Futebol Clube dividiu a platéia entre aplausos e vaias

1991 – "Uma figura insolente, um grosso suíno com esnobe sotaque britânico." Assim Cakoff define o diretor inglês Alan Parker, que veio divulgar The Commitments – Loucos pela Fama

1986 – Hoje Espaço Unibanco, o Gaumont Majestic foi o palco principal da 10ª Mostra: entre os diretores estavam Stephen Frears, Andrei Tarkovski, Denys Arcand e Federico Fellini, que assinou o cartaz

Oito filmes que você não deveria perder

Um Bom Ano

Ridley Scott dirige Russell Crowe. O astro vive um londrino que tira a sorte grande quando recebe de herança um vinhedo na Riviera Francesa

Volver

O diretor espanhol Pedro Almodóvar reúne Penélope Cruz e Carmen Maura em um drama sobre perdas e reencontros

Babel

Alejandro González Iñárritu narra três histórias em continentes distintos. No elenco, Brad Pitt e Cate Blanchett

Os Infiltrados

Matt Damon e Leonardo DiCaprio estrelam o novo filme sobre mafiosos de Martin Scorsese, que conta também com Jack Nicholson

A Promessa

Candidato ao Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro em 2006, o épico romântico é comandado pelo chinês Chen Kaige, de Adeus Minha Concubina

The Wind that Shakes the Barley

A fita sobre os conflitos na Irlanda rendeu a Palma de Ouro ao diretor Ken Loach no Festival de Cannes 2006

Paris, Te Amo

Dezoito episódios enfocam a capital francesa. Walter Salles e Daniela Thomas dirigem Catalina Sandino Moreno em Loin du 16ème

A Última Noite

Meryl Streep e Lily Tomlin arrasam ao microfone na nova comédia dramática musical de Robert Altman

30ª Mostra Internacional de Cinema. De segunda a quinta, os ingressos custam R$ 13,00; de sexta a domingo, R$ 15,00. A permanente integral, que dá acesso a todas as sessões e está à venda no Conjunto Nacional ( 3253-9256/9237), sai por R$ 340,00; para assistir somente às sessões vesperais (até 17h55), de segunda a sexta, o preço cai para R$ 90,00. Há também pacotes com vinte (R$ 120,00) e quarenta (R$ 220,00) ingressos de livre escolha. No Centro Cultural São Paulo, no Olido, na Faap, no Memorial da América Latina e no vão livre do Masp, a entrada é grátis.

Fonte: VEJA SÃO PAULO