Abastecimento

Volume morto: tire suas dúvidas sobre a qualidade da água

Sim, o líquido vem do fundo dos reservatórios do Sistema Cantareira, mas isso é um problema? Confira abaixo

Por: Nataly Costa - Atualizado em

Volume morto - Cantareira
Sete bombas são utilizadas para captar a água do volume morto da represa Jaguari/Jacareí (Foto: Fábio Lemos Lopes)

Com o nível dos reservatórios em constante baixa e sem perspectiva de chuva forte para os próximos meses, o governo estadual terminou na quinta-feira (15) a instalação de bombas que conseguem captar água de um patamar mais profundo do Sistema Cantareira, o chamado "volume morto". Esse recurso começou a chegar às torneiras paulistanas no domingo (18), mas ainda suscita dúvidas: é algo de qualidade inferior? Apresenta algum risco para a saúde de quem consome? 

Especialistas ouvidos por VEJASAOPAULO.COM responderam a essas e outras questões para desmistificar a qualidade de água que agora sai das nossas torneiras. 

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1. Por que a água retirada do reservatório se chama "volume morto"? 

Volume morto ou reserva técnica é a água que, nas represas, fica abaixo do nível de captação. Ou seja, é uma água que não foi programada para ser usada no dia a dia, mas funciona como "poupança" em caso de emergência. Não existe uma separação física entre a água do volume morto e a água do volume útil. É a mesma água, apenas em um nível mais profundo. 

2. Por que a Sabesp está utilizando essa água?

Foi a alternativa pensada pelo governo estadual para garantir o abastecimento - sem a necessidade do racionamento - pelo menos até novembro, quando, espera-se, as chuvas de verão já vão ter começado e os reservatórios voltarão a encher. 

3. O fato de essa água ficar no fundo do reservatório significa que ela tem mais impurezas? Isso é um problema?

Sim: quanto mais no fundo, mais sedimentos e poluentes se acumulam. "A matriz de solo do fundo de um rio ou uma represa é muito complexa, pois além da porção geológica, dos sedimentos, há o acúmulo de matéria orgânica decorrende de decomposições, além de microorganismos e compostos inorgânicos como metais", explica a professora do departamento de biologia da Unesp de Rio Claro Maria Aparecida Marin Morales. O geólogo e professor da USP Pedro Luiz Côrtes explica, porém, que isso não é necessariamente um problema. "A princípio, não há água que não possa ser tratada. A água que a Sabesp disponibiliza depois do tratamento é confiável, muitas vezes até mais confiável do que aquela água do garrafão azul que a gente compra e não sabe de onde vem". Côrtes lembra ainda que a água do volume útil que os paulistanos estavam bebendo até domingo já era um líquido com mais concentração de poluentes por estar mais no fundo da represa.

4. O que a Sabesp diz a respeito do tratamento dessa água? 

De acordo com a Sabesp, a água passa pelo mesmo processo de tratamento na Estação Guaraú que a do volume útil passava. A companhia nega que exista um procedimento especial para o volume morto, mas "garante a qualidade". "A água é analisada pelos mais modernos laboratórios do mundo, que seguem as normas NBR ISO/IEC-17025 e são certificados pelo Inmetro. É o reconhecimento da competência técnica de um laboratório e tem abrangência internacional", explica, em nota, a empresa. 

5. Foi feito algum teste para averiguar a qualidade da água do volume morto?

Sim. A Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) realizou, em abril, análises da qualidade. "Verificou-se que a água do reservatório continua apresentando boas condições de qualidade. Entre os parâmetros físico-químicos mais relevantes, apresentou baixa quantidade de sólidos em suspensão, pH neutro, oxigênio dissolvido superior ao padrão de qualidade e os metais alumínio, bário, cádmio, chumbo, cobre, cromo, ferro, manganês, mercúrio, níquel e zinco em concentrações inferiores aos padrões de qualidade da Classe 1", informa a companhia. O padrão "Classe 1" utilizado pela Cetesb é o exigico pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente na resolução 357/2005, que dispõe, entre outras coisas, sobre o uso e a qualidade do líquido para abastecimento público. 

Fonte: VEJA SÃO PAULO