Crônica

Sou todo ouvidos

Por: Ivan Angelo

Sou todo ouvidos
(Foto: Veja São Paulo)

Meu caro cronista, relaxe, as coisas já foram piores. Entendo o seu ponto, sua inquietação. Se tudo continuar como está — é perigo em cada esquina, perigo em casa, perigo no restaurante, para cada ladrão que age nas ruas existem dois enfiados em altos negócios com políticos corruptos, ninguém mais sabe o que é bom para consertar o país, ou cada um sabe uma coisa diferente, e se você não concorda é uma besta, um incompetente, despreparado, cooptado, aparelhado, petralha, ou é fascista, elitista, golpista, reacionário, ressentido, coxinha—, se continuar assim, ia dizendo, não vai dar para o pessoal baixar a guarda e botar a cabeça no lugar, vai acabar perdendo-a. Nesses momentos é que uma assembleia inventa a guilhotina ou um marechal escorraça o imperador, como insinuou um juiz. Relaxe, cronista, já foi pior. Houve época em que os intolerantes perseguiam, matavam e até queimavam em fogueiras os que consideravam errados, fosse a divergência religiosa, étnica, econômica ou ideológica. Veja a história, a matança de milhares de protestantes na França, aquela disparada de ódio que começou na Noite de São Bartolomeu, veja as atrocidades dos “puros” nas revoluções Francesa, Russa, Mexicana e Cubana, veja os falangistas espanhóis, fascistas italianos, nazistas alemães, linchadores de negros na América, as tropas civis dos ditadores latino-americanos, as atrocidades na Bósnia. Relaxe, cronista, que os tempos são outros, as democracias vão-se impondo como solução, o número delas cresce no planeta, não há como voltar atrás.

Entendo o seu ponto, você reclama que as pessoas não querem mais ouvir, querem é falar, e no meio desse tumulto ninguém ouve, mas acontece que não há quem elas queiram ouvir, e olhe, digo mais, não há quem valha a pena ouvir. Não se tem mais aquela palavra certa que vinha da boca dos líderes, e com certeza ela não vem dos que mais querem aparecer agora. São uns vazios. Quer ver um exemplo, cronista? A criminalidade juvenil cresce, e eles discutem o entorno. Abrem a questão da idade penal de 16 anos e só debatem se isso vai ou não vai resolver o problema. Ora, não é para resolver, é para punir, não é não? Para amenizar o ar de impunidade geral que se respira por aqui. Simples assim. Vem a presidente e fala que isso não vai resolver. Ora, minha senhora, resolver é com educação, oportunidades, valores, exemplos, e cadê? A senhora fez a sua parte? Isso é que eu diria a ela. Então, cronista, o descompasso entre o que queremos e o que temos nos deixa indignados e revoltados, mas não raivosos e hidrófobos como já estivemos, aqui neste país cordial. Relaxe, até a grosseria já foi pior. Já chutaram o traseiro de um ex-presidente, preso, o mais popular do Brasil, um mineiro da paz. Queriam acabar com a mamata e a aumentaram. Veja lá no dicionário o que é mamata, é a nossa velha corrupção. Deixe-me ler para você um trecho do sermão que o padre Antônio Vieira fez em 1669, ou seja, 346 anos atrás, chamado Cegueira, criticando a governança portuguesa, que incluía as colônias. Diz ele lá: “Ministros da República, da Justiça, da Guerra, do Estado, do Mar, da Terra (salto um trechinho, e aí vem), vedes as desatenções do governo, vedes as injustiças, vedes os roubos, vedes os descaminhos, vedes os enredos, vedes as dilações, vedes os subornos, vedes as potências dos grandes e as vexações dos pequenos, vedes as lágrimas dos pobres, os clamores e gemidos de todos? Ou o vedes ou o não vedes. Se o vedes, como o não remediais? E, se o não remediais, como o vedes? Estais cegos”. Quase 350 anos, cara! Isso, sim, é herança maldita.

Fonte: VEJA SÃO PAULO