Beleza & bem-estar

Retorno às raízes

Flores, folhas e algas desbancam o ouro e a platina na fórmula da nova geração de super-hidratantes, num movimento da indústria cosmética que injeta alta tecnologia das receitas de beleza da vovó

Por: Katiane Romero - Atualizado em

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Orquídea imperial do tipo Vanda coerulea: base do creme Orchidée Imperiále New Generation Eye and Lip, Guerlain (Foto: Divulgação)

As orquídeas, ao contrário do que sugere a aparência, não são frágeis. Estão mais para sobreviventes, capazes de resistir a períodos de seca sem perder o viço. Algumas, como a Vanda coerulea, são heroínas da resistência. Nativa da Cordilheira do Himalaia, onde vive a alturas inóspitas de 1 000 metros, essa orquídea imperial é excepcional — não por correr risco de extinção. Intrigada com o poder dessa flor de permanecer radiante (mesmo aquelas com mais de 100 anos de vida), a Guerlain, uma das mais antigas fabricantes de cosméticos, resolveu, há uma década, estudá-la. No laboratório de Estrasburgo, na França, o primeiro raio X revelou que só a Vanda coerulea, entre 30 000 espécies avaliadas, tem alta concentração de três tipos de fitoalexina. Essas substâncias defendem as plantas de ataques nocivos e recuperam as células prejudicadas pela ação de bactérias. A empresa francesa decidiu, então, plantá-la na reserva florestal de Yunnan, na China, e numa estufa em Genebra, na Suíça. “Extraímos essas ‘moléculas da sobrevivência’ que agem sobre as células, retardando o envelhecimento e recuperando o vigor da pele”, diz Anna Beatriz Vilela, gerente da marca no Brasil. O produto da pesquisa chega neste mês ao país: Orchidée Impériale New Generation Eye and Lip (15 mililitros, 659 reais), creme para a região dos olhos e da boca. Parte de uma linha de três hidratantes (os outros atuam no rosto), promete suavizar bolsas e olheiras e firmar os lábios (em dois meses de teste, 63 mulheres apresentaram 54% de redução dos sinais do tempo).

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A Guerlain e concorrentes à altura têm apontado cada vez mais os microscópios para o que chamam de “propriedades biológicas” das plantas. Todos estão interessados no segredo de beleza de flores, folhas, raízes, sementes e algas para reproduzir a fórmula da juventude dentro de um pote. “Retornamos à época em que nossas avós usavam abacate, mel ou trigo para hidratar a pele, mas renovamos essa sabedoria caseira com tecnologia de ponta para tornar as substâncias químicas naturais ainda mais eficientes”, explica Marcus Bari, gerente da Givenchy no Brasil. A grife francesa lança em julho o Le Soin Noir Sérum (30 mililitros, 346 euros), soro anti-idade à base de alga negra, uma planta com alto poder de regeneração. É a primeira vez que o ingrediente entra na composição de um cosmético — neste caso, de três: creme para o rosto (50 mililitros, 1 201 reais) e para a região dos olhos (15 mililitros, 675 reais). Extraída do Oceano Pacífico, a alga negra hoje é cultivada em tonéis no laboratório da empresa, em Beauvais, a uma hora ao norte de Paris.

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Le Soin Noir Sérum, Givenchy (346 euros) (Foto: Divulgação)

Conhecida pelos hidratantes com ouro e platina na fórmula, a suíça La Prairie também mergulha no Pacífico para pescar a wakame. Originária da costa da China e do Japão, a alga, anti-inflamatória e calmante, é a estrela do Anti-Aging Neck Cream (50 mililitros, 1 460 reais). Lançado neste mês no Brasil, o creme — que também leva um extrato de rosa-de-jericó, típica dos desertos da América Central e extra-hidratante — promete firmar o pescoço. Para algumas marcas, agir nas profundezas da pele não é o objetivo. É o caso do Turnaround Overnight Radiance Moisturizer (50 mililitros, 249 reais), produto da americana Clinique, que desembarca aqui em julho. Com extrato de semente de castanha, o hidratante estimula a esfoliação natural. “O rosto ganha luminosidade sem sofrer irritação”, afirma Tom Mammone, diretor de fisiologia e farmacologia da pele da empresa, em Nova York.

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Anti-Aging Neck Cream, La Prairie (R$ 1 460,00): a alga wakame é o principal ingrediente (Foto: Divulgação)

É nos jardins, no entanto, que as marcas colhem mais frutos. Há dez anos, a L’Occitane planta, em 45 hectares na Ilha da Córsega, a immortelle, uma flor que “nunca” murcha nem perde a cor — daí o nome em francês, “imortal”. O mais novo produto com extrato da planta, conhecida por acelerar a renovação celular, é o Creme Precioso FPS 20 Diurno Immortelle (50 mililitros, 182 reais). A Dior também mantém jardins particulares, de onde extrai os ingredientes da linha Hydra Life, lançada no fim de 2011: no Uzbequistão, cultiva o jisten, super-hidratante; em Madagáscar, a centelha, que ativa a produção de colágeno; e na Bretanha, no nordeste da França, a rosa negra, que combate os radicais livres.

A Lancôme vai muito além do jardim. Identificou o ácido jasmônico, produzido por plantas machucadas para ativar a cicatrização, e decidiu desenvolver um equivalente sintético: a LR 2412, resultado de dez anos de estudo e dezessete patentes. Ele aparece no Sérum Visionnaire (30 mililitros, 329 reais), nas prateleiras brasileiras neste mês. Aplicado no rosto, o soro se propaga pelas camadas da pele e age como nas pétalas danificadas. Ao acelerar a regeneração, atenua as rugas e deixa o tom da pele mais homogêneo.

Fonte: VEJA SÃO PAULO