Estradas

Como funciona o plantão de Carnaval da Polícia Rodoviária

Acompanhamos 12 horas de trabalho da equipe que cuida do sistema Anchieta-Imigrantes

Por: Pedro Henrique Araújo

Polícia 2208
Posto da Polícia Rodoviária no quilômetro 10 da Anchieta: faixa única para os carros diminuírem a velocidade (Foto: Agliberto Lima)

O café da base da Polícia Rodoviária no quilômetro 10 da Rodovia Anchieta é fraco e já vem adoçado. Quem prepara a bebida é o soldado Rafael Estevam de Oliveira, um dos que começam o plantão do sábado de Carnaval (5) às 7 da manhã. Logo em seguida, chega ao posto o soldado Sérgio Lopes, que mal estaciona sua moto e vai direto para o computador, repetindo baixinho a placa de um veículo cujo motorista havia cometido uma infração de trânsito. “O taxista veio costurando todo mundo na pista, quase me atropelou e bateu em outros carros”, disse. “Vou lhe aplicar uma multinha, para ele ficar esperto.” O responsável pelo bom andamento do trânsito nos 72 quilômetros da Anchieta é o tenente Rodrigo Franco de Souza. Com orgulho, ele discorre sobre os mais de 100 dias sem um único acidente fatal no trecho mais perigoso da rodovia. Durante o Carnaval, Souza comanda todas as vias que levam ao litoral paulista.

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Policiais observam imagens transmitidas por radar que lê placas e confere irregularidades automaticamente: tecnologia (Foto: Agliberto Lima)

Em frente ao posto policial, os soldados posicionam cones de modo que só passe por ali um veículo de cada vez. A velocidade dos automóveis diminui e, com a ajuda de um sistema inteligente de detecção de placas, a equipe para aqueles que aparecem no sistema com alguma irregularidade. Às 7h18, três carros estão no pequeno estacionamento ao lado da cabine da Polícia Rodoviária. Todos com licenciamento atrasado. Um dos motoristas, que não quis dar entrevista, anda de um lado para o outro, impaciente. Duas crianças que esperavam estar na praia dentro de instantes deixam clara a frustração da viagem abortada. Ele entra na cabine e fala mais de uma vez: “Não tem como conversar? Estou com duas crianças no carro”. Irredutível, o oficial o orienta a procurar alguém que possa levá-los para casa. Policiais contam que essa abordagem é comum.

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A professora Márcia Felix, que teve seu carro apreendido: "Nem nos lembramos do licenciamento" (Foto: Agliberto Lima)

“Hoje não tem jeitinho brasileiro”, afirmava o gerente administrativo João Carlos Rodrigues, que teve seu Renault Mégane preso por atraso no licenciamento. “Eu acho bom eles serem rígidos. Só espero que isso não esteja sendo feito apenas porque a equipe de reportagem está aqui.” Às 7h58, o estacionamento do posto policial já tem sete carros à espera do guincho. Motorista de um deles, a professora do ensino fundamental Márcia Felix não planejava passar o Carnaval na praia. Seu objetivo era fazer uma visita ao marido, que sofrera infarto um dia antes e estava hospitalizado no município de São Bernardo do Campo. “Nem nos lembramos do licenciamento. Só queria chegar até 8h30 para o horário da visita.”

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O tenente Franco (à esq.) vistoria a placa adulterada de um caminhão: o motorista cometeu seis infrações (Foto: Agliberto Lima)

Por volta das 8 da manhã, começa a todo o vapor a Operação Cavalo de Aço, um nome imponente para a fiscalização de motocicletas. Os policiais se posicionam e param quase todas as motos que passam pelo lugar. Procedimento-padrão. Conferem a documentação do carro e do motociclista, olham os pneus, luzes de freio, faróis e o licenciamento. Se estiver tudo o.k., boa viagem. Se houver alguma irregularidade, o condutor leva uma multa ou tem a motocicleta presa. Em outro ponto da estrada, no quilômetro 31, fica mais uma base dessa operação. Na saída do pedágio, um sem-fim de motos para.

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Controle de operações da Ecovias: 138 pontos sob vigilância (Foto: Agliberto Lima)

Transtornado pela notícia de que sua motocicleta seria apreendida por causa do desgaste dos pneus, o auxiliar de escritório Sander Carlos de Brito tenta argumentar. Quer arrumar o veículo antes que ele seja levado ao pátio. “Só conseguirei tirá-lo de lá na Quarta-Feira de Cinzas”, reclamava. Parado no ponto de apoio ao usuário há quarenta minutos, o contador Mateus Cerissa parece não estar muito nervoso com sua situação. A cerca de 200 metros do quilômetro 41, ele envolveu-se em um acidente leve. O próprio cunhado bateu em sua traseira. “Estávamos parados, aí andou um pouco e parou novamente, bem rápido”, disse o tatuador Raul Cleber Francisco. “Eu não consegui frear a tempo.”

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O tenente Franco, em frente ao caminhão que dá apoio aos policiais: nenhuma morte registrada no sistema Anchieta-Imigrantes (Foto: Agliberto Lima)

São 8h39. Acompanhado do soldado Nilson Aparecido Almeida, o tenente Franco chega ao Centro de Controle de Operações da concessionária Ecovias, que administra o sistema Anchieta-Imigrantes. A sala é equipada com 42 telas, que exibem imagens de todo o trajeto em uma imensa parede. De lá, funcionários da empresa e policiais conseguem vigiar 138 pontos. Avistam uma repórter de TV que prejudica o trânsito já moroso no quilômetro 55 da Anchieta. Em busca de entrevistados, a jornalista para alguns carros, o que atrai a curiosidade de outros motoristas. Em questão de minutos, a Ecovias entra em contato com a emissora e a repórter sai do local. “Ela não tem a menor noção do risco que está correndo”, diz o tenente Franco.

Para voltar ao posto do quilômetro 10, o tenente opta por encarar a Serra do Mar pelas curvas da velha estrada de Santos, aquela imortalizada pelo rei Roberto Carlos e atualmente proibida de ser percorrida por automóveis de cidadãos comuns. No meio da subida, com mata verde de ambos os lados, há uma fonte de água potável. “Às vezes você está estressado, com o dia cheio, cansado”, conta o tenente. “É só vir aqui e tomar um gole desta água que revigora.”

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Moto com pneu careca foi enviada ao pátio: a retirada só pôde ser feita na quarta-feira (Foto: Agliberto Lima)

Voltando ao topo da serra, na altura do quilômetro 14 da Rodovia Anchieta, Franco nota um caminhão derrubando cimento na pista. Imediatamente o soldado Nilson ultrapassa o veículo e faz sinal para que o motorista pare no acostamento. De bate-pronto, os dois percebem uma série de irregularidades. A primeira delas: a placa está adulterada. Com uma fita crepe, o motorista, que estava sem habilitação, tentou transformar um zero em 8. Havia ainda excesso de passageiros e pneus carecas. O caminhão foi conduzido à base e foram lavradas seis multas, em um total de cerca de 1.500 reais, mais 36 pontos na carteira de habilitação. 

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A família do contador Mateus Cerissa (à dir.), que teve seu carro atingido pelo cunhado Raul Francisco (no centro, de camisa verde): batida entre amigos (Foto: Agliberto Lima)

São 13h30 e o soldado Estevam prepara o segundo café do dia. Adoçado e fraco. O plantão do tenente Franco está chegando ao fim. Quem assume após as 15 horas é o comandante Luís Antonio Caria Cajaíba. Com 43 anos, 24 deles na Polícia Militar, sendo cinco na Rodoviária, ele conhece — e gosta de contar — muitas histórias da região. Mora em Parelheiros, no extremo sul do município de São Paulo, e fala com saudosismo sobre sua infância em volta da Represa Billings. “Sabia que ainda tem onça por aqui?”, pergunta, referindo-se ao trecho de interligação entre as rodovias Anchieta e Imigrantes. “Tem anta, jaguatirica, tatu, tucano, periquitos e psitacídeos em geral.” 

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No fim da tarde de sábado, o trânsito ainda era intenso, porém mais tranquilo que de manhã: a chuva afastou os turistas (Foto: Agliberto Lima)

O trabalho dos policiais fica mais tranquilo na parte da tarde, quando o trânsito diminui bem. E vai assim até o cair da noite. Durante todo o Carnaval, a Ecovias registrou a passagem de 391.483 veículos rumo ao litoral pelo sistema Anchieta-Imigrantes. O fluxo foi um pouquinho menor que o registrado no ano passado, com mais de 400.000 veículos. Os acidentes também caíram (de 207 em 2010 para 135 neste ano). Não foram registradas mortes. No balanço da Polícia Rodoviária que envolve todas as rodovias estaduais, constatou-se uma redução de 42% no número de vítimas fatais (de 41 em 2010 para 24 neste ano). Uma boa notícia. Ainda mais porque os acidentes cresceram 10%.

Fonte: VEJA SÃO PAULO