Saúde

Segundo pesquisa, 80% dos paulistanos têm dificuldade para dormir

A tecnologia contribui para o aumento no índice, já que luz emitida por tablets e smartphones inibem a produção de hormônios que induzem ao sono

Por: Ana Carolina Soares

Smartphone noite sono furlan
O radialista Furlan: madrugadas entre o celular e a televisão (Foto: João Bertholini)

O epíteto de “cidade que não dorme” nunca foi tão adequado para São Paulo. Há nove anos, um estudo realizado pelo Instituto do Sono em parceria com a Unifesp com 1 000 moradores da metrópole mostrou que 67% deles tinham dificuldade para pregar os olhos à noite. A instituição acaba de repetir o trabalho com esses voluntários. Agora, oito em cada dez pessoas relataram sofrer algum desconforto, um aumento de 16% sobre o estudo anterior.

Os problemas vão de uma simples insônia a casos crônicos nos quais a vítima fica rolando na cama durante as madrugadas pelo menos três vezes por semana. Isso nos garante o nada honroso título de capital mundial do transtorno, ao lado de Tóquio, no Japão, segundo dados da Organização Mundial da Saúde. Entre os motivos capazes de causar pesadelos nos paulistanos estão fatores bem conhecidos, como stress no trabalho e as horas perdidas no trânsito.

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As mulheres representam 60% dos insones, de acordo com o trabalho da Unifesp. “O problema se agrava na menopausa, por causa da variação hormonal”, diz a psicoterapeuta Myriam Durante, presidente do Instituto de Pesquisa e Orientação da Mente. A questão não afeta apenas adultos: 88% das crianças e adolescentes dormem até cinco horas por noite. “As consequências podem ser déficit de crescimento, hiperatividade e mau rendimento escolar”, diz a especialista.

A tecnologia é um dos fatores que estão fazendo esses índices crescer. “A luz emitida pelos aparelhos inibe a produção dos hormônios que induzem ao sono”, explica a pesquisadora Camila Hirotsu, do Departamento de Psicobiologia da Unifesp. Cada vez mais disseminados, smartphones e tablets tornaram-se parceiros frequentes das pessoas na cama. “Sou ansioso, não consigo sair do WhatsApp nem desligar a televisão, ainda mais em época de Olimpíada”, conta o radialista Roger Furlan. A advogada Fabrícia Freitas percebeu a queda nas notas das filhas Maria Eduarda, de 17 anos, e Maria Clara, de 13, nos últimos meses, por falta de sono.

redes sociais
A advogada Fabrícia com as filhas Maria Eduarda (à esq.) e Maria Clara: troca das redes sociais por meditação (Foto: Renato Pizzutto)

Agora a dupla vai para a cama às 22 horas. “Substituí a Netflix e o Facebook por quinze minutos de meditação e tudo voltou ao normal”, diz. Além de bocejos e olheiras, as noites mal dormidas podem trazer uma série de prejuízos à saúde. “Repousar menos de sete horas pode provocar obesidade, depressão e, a longo prazo, doenças cardiovasculares”, afirma a médica Dalva Poyares, coordenadora do Instituto do Sono. Localizado na Vila Mariana, o centro é referência na área e oferece atendimento gratuito a cerca de 75 pessoas por dia.

Certos tratamentos estão se popularizando por aqui para ajudar as pessoas, como a terapia cognitiva em grupo, disponível em alguns consultórios e clínicas. Nessa prática, reúnem-se turmas de até dez pessoas para encontros semanais de uma hora e meia de duração. O procedimento detecta e trata as causas do problema — geralmente ansiedade e depressão —, ensina técnicas de relaxamento e indica mudanças de hábito ao paciente. “É possível livrar-se do transtorno em quatro meses”, afirma a professora Karina Haddad Mussa, do Instituto de Medicina Comportamental da Unifesp. São cobrados 250 reais, em média, por sessão.

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Há também novos medicamentos para ajudar quem não consegue dormir. Aprovada em vários países, a melatonina é um hormônio de indução do repouso. Nos Estados Unidos, tornou-se artigo popular em farmácias, vendido em cápsulas de 3 miligramas por 10 dólares (31 reais). Os brasileiros podem importar o produto em lojas de suplementos por 120 reais. Apesar de não existirem estudos científicos que comprovem seus efeitos, ele tem sido bastante indicado para pessoas com mais de 45 anos. “Sofro para dormir desde criança”, diz a cantora Leilah Moreno, de 31 anos, que passou a utilizar meditação e melatonina em janeiro. “Desde então, apago oito horas seguidas, o que melhorou minha aparência e voz.” 

No campo farmacológico, há uma grande expectativa em torno da chegada do “Viagra do sono”, o Suvorexanto, capaz de inibir a produção de hipocretina, uma substância que deixa o cérebro em alerta. Nos Estados Unidos, o medicamento é vendido desde agosto de 2014. Por aqui, está em fase de regulamentação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), sem prazo para a finalização do processo.

Bons Sonhos: terapias para dormir melhor

Meditação

Entre os diversos procedimentos, ensina a manter a mente relaxada e livre de preocupações por pelo menos quinze minutos diários. Vale praticar à noite ou até mesmo pela manhã, logo ao acordar. É possível encontrar vários vídeos no YouTube com diferentes técnicas guiadas de relaxamento.

Remédios

Vendido na Europa e nos EUA, o Suvorexanto está em fase de liberação pela Anvisa. Já o hormônio melatonina pode ser importado em comprimidos de 3 miligramas em sites do exterior e consumido diariamente.

Sleep Trackers

Aplicativos em smartwatches monitoram a qualidade do sono e indicam a necessidade de procurar um médico.

Terapia em grupo

Detecta e trata os motivos do problema e ensina o paciente a cair no sono por meio de relaxamento e mudança de hábitos. São dez sessões semanais (cada uma por cerca de 250 reais) e os efeitos surgem em quatro meses.

Fonte: VEJA SÃO PAULO