Na pista

Personagens que fazem a noite

Drag queen, DJs e baladeiros embalam as boates paulistanas

Por: Carolina Giovanelli - Atualizado em

Alaor Vieira 2192a
Alaor Vieira: “Eu era violento, tinha muitos atritos com quem me encarava” (Foto: Raul Zito)

Uma flor de pessoa

A primeira impressão que se tem do pernambucano Alaor Vieira é a de um tipo mal-encarado. Isso até vê-lo de roupas alinhadas discutir espiritualidade, um de seus assuntos favoritos. “Depois que trocam ideia comigo, veem que sou uma flor”, brinca. Nem sempre foi assim. Hiperativo e de fala aceleradíssima, ele se mudou para São Paulo com 33 anos (hoje tem 54) para atuar como engenheiro elétrico. Enfrentou um período difícil, pediu demissão no emprego e mais tarde foi trabalhar na limpeza do clube Madame Satã. Ascendeu para os cargos de barman e gerente da casa. Nessa época, começou a fazer suas chamativas tatuagens, que hoje formam uma só. “Eu era violento, tinha muitos atritos com quem me encarava”, conta.

Quando o Madame fechou, em 1993, Vieira viajou pelo mundo. Na volta, aperfeiçoou suas habilidades em som e iluminação e ajudou na montagem da Funhouse, na Consolação. Depois, foi contratado como barman no Sarajevo, na Rua Augusta. Amante do tabuleiro de xadrez, Vieira costumava jogar uma partidinha com alguns clientes enquanto ficava atrás do balcão do clube. Agora recluso aos bastidores da casa, onde cuida da parte técnica, ele diz ter tempo para ler três livros por semana (é sempre visto por volta das 6 da tarde na Livraria Cultura do Conjunto Nacional). Mas voltará a exibir suas tatuagens no Container, nova balada da Rua Bela Cintra, onde fará visitas constantes, pois é o responsável pela estrutura de luz e som.

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A DJ Mayara Leme: “Sei que a fama não vai durar a vida inteira” (Foto: Raul Zito)

Fera dos toca-discos aos 15 anos

A adolescente Mayara Leme coleciona feitos de dar inveja a alguns DJs que estão na estrada há mais tempo. Já tocou para 40 000 pessoas, faz residência fixa em uma casa paulistana (o Club A, em Moema), chega a receber 2 000 reais por apresentação e começa a ser reconhecida na rua. “Tem gente que diz que me ama”, diverte-se. Sua mãe, que sempre a acompanha nas discotecagens, levou-a a uma matinê pela primeira vez aos 11 anos de idade (hoje ela tem 15). “Fiquei apaixonada”, diz Mayara. Um curso de DJ, algumas experiências e menos bonecas depois, a garota engrenou — chegou a pilotar os pickups em dezoito festas num mesmo fim de semana. Porém, como ser uma estrela mirim tem lá suas dificuldades, ela baixou o número para três lugares. “Fica difícil ir à escola”, diz ela, que repetiu a 8ª série por faltas. Expert em electro e tech-house, a DJ não tinha dinheiro nem para comprar fones de ouvido no início. Hoje, mora em Caieiras, na Grande São Paulo, numa casa que ajudou a construir com o que ganhou na noite. Também engorda um pé de meia para o futuro, quando pretende ingressar em uma faculdade de direito. “Sei que a fama não vai durar a vida inteira.”

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Zé das Medalhas: “As meninas me paqueram e os rapazes também” (Foto: Raul Zito)

Nove quilos de acessórios

Nascido em Penápolis, cidade paulista com 56 000 habitantes de onde também veio a apresentadora Sabrina Sato, Almir da Silva bate ponto seis noites por semana na Rua Frei Caneca. A figura trabalha das 4 da tarde às 2 da madrugada no boteco Tom Zé, conhecido entre os baladeiros como bar d’A Lôca, por ficar pertinho da famosa boate GLS. Além das bandejas que carrega de um lado para o outro, o garçom conhecido como Zé das Medalhas (nome tirado de um personagem da novela Roque Santeiro, de 1985) sustenta 9 quilos de correntes, pingentes e anéis. Seu look é um sucesso entre a clientela, com direito a fotos dos “fãs” e paparicação.

“Gasto cerca de 200 reais por mês com as peças, mas também ganho algumas”, diz, referindo-se a um colar com caveira, segundo ele, presente do estilista Alexandre Herchcovitch. “Limpo todas uma vez por semana, mas não tiro para nada. Nem para tomar banho ou dormir.” Zé das Medalhas já visitou a Lôca duas vezes. Mas não gosta de música eletrônica — prefere o forró e a música sertaneja. Quando não precisa vestir o avental do uniforme de trabalho, Silva, de 52 anos e jeito canastrão, abusa dos cinturões, das botas e das camisas floridas. “As meninas me paqueram e os rapazes também. Eles já me chamaram até de gostoso.”

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Marcelona: “Muita gente queria entrar de graça, furar fi la. Aí rolavam uns bate-bocas” (Foto: Raul Zito)

Drag queen boa de briga

De tanto barrar clientes quando trabalhava de hostess em disputados clubes paulistanos, Marcelo Ferrari, hoje com 45 anos, ganhou fama de briguento. Quando começou a atuar nessa área, no finzinho dos anos 80, estava sempre munido de um taco de beisebol. Para se defender, diz. “Nunca precisei usá-lo, mas na noite o pessoal bebe e costuma extrapolar. Tinha muita gente chata, querendo entrar de graça, furando fila. Aí rolavam uns bate-bocas”, conta.

Sob a pele da drag queen Marcelona, cuidou da porta de várias baladas, entre elas as extintas B.A.S.E., Rose Bom Bom e Lov.e, além das ainda lotadas A Lôca e D-Edge. Blogueira, fashionista, colecionadora de bonecas Barbie antigas e figurante do filme "Carandiru" (2002), de Hector Babenco, Marcelona diminuiu o ritmo com o passar do tempo. Atualmente só exibe perucas, joias espalhafatosas, casacos de pele e a enorme tatuagem oriental nas costas em festas de casas como Glória e Lions. E não escolhe mais quem entra ou fica de fora da folia: só dá o ar da graça como “babá” de convidados figurões ou apenas um rosto de boas-vindas aos frequentadores. “Quase todos os lugares ficaram cheios e todo mundo está muito igual”, reclama. “As pessoas só querem saber de tirar fotos para colocar na internet.”

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O baladeiro Dusan Zivanovic: só não vale passar a mão na cabeça dele (Foto: Raul Zito)

"O Senhor está no céu"

Ele prefere não revelar a idade, nem falar sobre a família ou a vida pessoal. O paulistano Dusan Zivanovic (o nome tem origem sérvia) acumula mais de trinta anos de balada. Desde o momento em que chega, por volta da 1 e meia da manhã, até o fim da festa, ele não para um minuto. Em meio a gritinhos da “plateia”, Zivanovic arrasa em coreografias embaladas por música eletrônica — costuma até levantar a camiseta para ouriçar a moçada. Quinta é dia de Vegas, na Rua Augusta; às sextas e aos sábados, ele dá o ar da graça no Hot Hot, na Bela Vista.

Morador da região central da cidade, o veterano baladeiro costuma sair a pé ou de ônibus. “Já dancei até com unha encravada”, diz Zivanovic, que sofre com uma hérnia de disco há cinco anos. Álcool? Drogas? “Jamais”, enfatiza. A energia, segundo ele, surge naturalmente. Começou com as dancinhas de rosto colado na juventude, passou pelo rock, pelo break e pela dance music. Virou estrela em casas já extintas, como Toco, Contra Mão e Broadway.

Economista formado pela Universidade de São Paulo, Zivanovic possui 320 vinis de rock, é fã de cinema (vai pelo menos duas vezes por semana) e um ávido leitor dos clássicos da literatura. Odeia ser chamado de tio. Senhor, então, nem pensar. “O Senhor está no céu.” Nas baladas, as pessoas abordam o festeiro com frequência. É comum ele receber abraços, beijos... Ele só não gosta quando alguém passa a mão em sua cabeça, pois desarruma os cabelos brancos cuidadosamente arrumados com fixador.

Fonte: VEJA SÃO PAULO