Favela

Paraisópolis: 74% dos moradores com emprego fixo trabalham no Morumbi

Prefeitura e governos estadual e federal investiram quase 500 milhões de reais em obras de saneamento, pavimentação e edificações de moradias neste ano

Por: Pedro Marcondes de Moura - Atualizado em

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Vista aérea: o loteamento nasceu nos anos 20 (Foto: Eric Bergeri)

A notícia logo se espalhou pelas 28 agitadas ruas de Paraisópolis. O Banco do Brasil está prestes a operar ali. A agência representa mais uma da série de inaugurações na segunda maior favela de São Paulo — fica atrás de Heliópolis, no Sacomã, com 120 000 moradores. “Temos Bradesco, casa lotérica, loja da Porto Seguro e até Casas Bahia”, orgulha-se a estudante Juliana Gonçalves, 27 anos, que mora desde sempre em Paraisópolis, na Vila Andrade, bairro vizinho do Morumbi. Todos os investimentos foram feitos nos últimos dois anos.

“Estamos conversando com outras grandes empresas”, diz Gilson Rodrigues, presidente da associação local, sem revelar nomes. Antes de funcionar, elas precisam passar pelo crivo de um conselho de lideranças comunitárias. “Queremos preservar os negócios já existentes”, explica Gilson. Há 8 000 estabelecimentos comerciais em Paraisópolis. A maioria botecos, barracas de roupas ou pequenas mercearias sem registro de funcionamento. Existem, porém, sete lojas de material de construção, cinco supermercados e doze padarias de médio ou grande porte. Além de 230 salões de cabeleireiro e quatro academias de ginástica, onde parte dos 90 000 moradores cuidam do visual.

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Conjunto habitacional: parte do plano de reurbanização (Foto: Lucas Lima)

Paraisópolis nasceu nos anos 20 de um loteamento de 2 200 pequenos terrenos. Chamado de Fazenda do Morumbi, o local permaneceu desocupado por mais de duas décadas, até ser invadido por migrantes nordestinos, atraídos pela promessa de emprego na construção civil. Em 1970, 20 000 pessoas já ocupavam o espaço irregularmente.

Hoje, 74% da população economicamente ativa está empregada no bairro do Morumbi ou no entorno. Outros 21% trabalham na própria favela. Não precisam atravessar as quinze entradas que separam em poucos metros a favela das residências vizinhas de alto padrão. A favela passa por um amplo projeto de urbanização desde 2006. A prefeitura e os governos estadual e federal investiram quase 500 milhões de reais em obras de saneamento básico, pavimentação de vielas e edificações de moradias neste ano. Alguns terrenos estão sendo legalizados — 90% dos domicílios, entretanto, ainda se mantêm irregulares, ou seja, não têm escritura nem pagam IPTU. Fios de alta tensão se entrelaçam, o que pode provocar um curto a qualquer momento.

Os barracos, em sua maioria improvisados, feitos de madeira, não possuem rede de esgoto. Quando chove, as vielas de barro se transformam num lamaçal, o que impede a entrada dos carros de coleta de lixo e até de ambulâncias. “O Grotão vive isolado de tudo. Os agentes de saúde nunca aparecem”, diz o auxiliar de pedreiro Rodivaldo Sousa. Outra questão de difícil resolução é o elevado número de ocorrências de tráfico de drogas. A Rua Doutor Laerte Setúbal, uma travessa da Avenida Giovanni Gronchi, é o ponto de tráfico mais famoso dali, onde garotos ricos costumam buscar crack, cocaína e maconha.

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O ex-servente José Francisco: 200 pizzas por dia (Foto: Lucas Lima)

Muitos conseguiram prosperar neste ambiente. “Fiz a minha vida aqui. Tudo o que tenho consegui dentro de Paraisópolis”, conta o ex-servente de pedreiro José Francisco, dono há dezesseis anos da KI-Pizza. Com faturamento mensal declarado de 90 000 reais, Francisco diz possuir, além da casa de quatro andares, onde funciona o negócio, fazenda, residências alugadas, terrenos e uma caminhonete último modelo. O segredo do sucesso, segundo ele, é trabalhar com exigência e não desmerecer a freguesia: “Não é porque estou numa favela que vou oferecer produtos de segunda categoria.”

OS NÚMEROS DA SEGUNDA MAIOR FAVELA DA CAPITAL

800 000 metros quadrados é a área total, o equivalente a 97 campos de futebol

90 000 pessoas vivem em seus 22 000 domicílios

85% dos moradores são nordestinos e 35% têm entre 15 e 29 anos

8 000 é o número de estabelecimentos comerciais, entre eles 230 salões de cabeleireiro e duas casas noturnas

90% dos domicílios estão irregulares, ou seja, não têm escritura nem pagam IPTU

Fonte: Secretaria de Habitação e União dos Moradores de Paraisópolis

 

Fonte: VEJA SÃO PAULO