Crime

Médico baleado sai do coma e já está falando

O urologista Anuar Ibrahim Mitre se recupera bem após ter tomado três tiros: um na cabeça, outro no braço direito e um nas costas

Por: Redação Veja São Paulo - Atualizado em

O urologista Anuar Ibrahim Mitre saiu do coma induzido e se recupera bem após ter tomado três tiros: um na cabeça, outro no braço direito e um nas costas do médico Daniel Edmans Fort na semana passada.

Ele só sobreviveu ao atentado graças ao atendimento rápido. Acabou sendo socorrido às pressas pelo amigo e cirugião Sérgio Nahas.

Um dos riscos de sequela é a perda da visão do olho direito, que sofreu uma hemorragia na retina, mas os médicos acreditam em plena recuperação. “Estamos consternados, mas esperançosos de que ele se recupere logo”, conclui o cirurgião e amigo Raul Cutait.

Entenda o caso:

No dia 25 de fevereiro de 2012, o médico Daniel Edmans Forti voltava para casa, no Recreio dos Bandeirantes, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, após um encontro com amigos. Na Avenida Salvador Allende, pilotava sua moto quando foi fechado por um carro, desequilibrou-se e acabou no matagal que margeia a pista.

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Desacordado e gravemente ferido, só foi socorrido na manhã seguinte, após despertar e ligar para um colega, que acionou o resgate. No acidente, ele quebrou a bacia e algumas costelas. Teve ainda um pulmão perfurado e um trauma no pênis,  que afetou o canal da uretra.

A vida independente e confortável que havia conquistado como médico do trabalho e socorrista ganhava outro rumo, com internações, cirurgias e reclusão. Avia-crúcis terminou em São Paulo na semana passada, de forma trágica, num crime que chocou a cidade.

Na segunda (15), ele invadiu o consultório do urologista Anuar Ibrahim Mitre, de 65 anos, na Bela Vista, com quem se tratava desde 2012. Carregava um revólver Rossi 38 na mão e uma pistola Ceska 6.35 numa sacola plástica. Deu quatro tiros à queima-roupa no médico com a primeira dessas armas. Acertou três.

Uma das balas atingiu a cabeça da vítima, a outra o braço direito e a última se alojou nas costas. Enquanto a secretária de Mitre saía de lá em disparada em busca de ajuda, Forti usou o mesmo revólver para se suicidar com um tiro na boca. Mitre foi levado ao Hospital Sírio-Libanês, situado do outro lado da rua. Até a tarde da última quinta-feira (18), encontrava-sena UTI em coma induzido, ainda em estado bastante delicado de saúde.

De uma família judia paulistana, Forti, de 52 anos, era o filho mais novo de Eduardo Mansur Forti, já falecido, e Eliane Esther Simhon Forti. Ao lado do irmão, o engenheiro José Edmans, de 54 anos, cresceu em Higienópolis. Estudou no tradicional Colégio Rio Brancoe se graduou em medicina.

Daniel-Edmans
Daniel Edmans Forti: suicídio após atentado contra urologista (Foto: Reprodução)

Solteiro e sem filhos, sempre foi visto por amigos como bon-vivant e alegre. “Ele sabia curtir a vida e não se prendia a ninguém”, contou um colega, que pediu anonimato, durante o enterro, na quarta (17), no Cemitério Israelita do Butantã.

A transformação de sua personalidade ocorreu após o acidente de moto no Rio. Nas primeiras horas no hospital, Forti teve uma sonda colocada na uretra. Segundo a família, o procedimento levou a um rompimento do canal. Depois da cirurgia, passou a usar uma bolsa plástica que armazenava a urina.

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Decidiu prosseguir o tratamento em São Paulo. O trajeto até a Santa Casa de Misericórdia, no centro, durou nove horas e ocorreu dentro de uma ambulância. Novas operações no pulmão e na bacia precisaram ser realizadas, mas o problema na uretra persistia. Devido a isso, Forti resolveu procurar um dos maiores especialistas do país nessa área.

Mitre é médico do Hospital Sírio-Libanês, professor da Faculdade de Medicinada USP e um dos pioneiros no Brasil da técnica de cirurgia por laparoscopia. Após a análise do caso pelo urologista, Forti foi submetido a uma nova operação em 2012.

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De acordo com o irmão, ele deixou de usar a sonda, mas começou a sentir dores fortes, dificuldade para caminhar (passou a usar bengala) e ficou impotente. Sem conseguir trabalhar, cancelou seu registro no Conselho Regional de Medicina e passava os dias no apartamento da mãe, para onde se mudara ao voltar a São Paulo.

“Logo depois dessa operação, ele fez uma denúncia contra o urologista, pois estava revoltado com a situação”, conta Eliane Esther. O caso foi registrado no Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) e, de acordo com colegas de Mitre, arquivado. Procurada pela reportagem de VEJA SÃO PAULO, a entidade não quis falar sobre o episódio.

Após a cirurgia, o atirador ligou para o urologista por três meses insistentemente. Depois disso, sumiu, e reapareceu somente no dia do crime, com as duas armas de fogo, mais uma faca Tramontina modelo Amazonas.

Sírio-Libanês
Hospital Sírio-Libanês, onde Mitre foi atendido após ter sido baleado (Foto: Eduardo Brammen/Estadão Conteúdo)

As atitudes de Forti e as insinuações da família a respeito da qualidade do trabalho do urologista revoltaram a classe médica. De acordo com os assistentes do profissional, as dores que o paciente sentia eram decorrentes do trauma na bacia, e não sequelas da cirurgia.

“Pela excelência médica de Mitre, a chance de ter ocorrido uma complicação é mínima, mas, se tivesse acontecido, ele saberia se aproximar do paciente e ampará-lo”, diz o respeitado urologista Miguel Srougi. “Provavelmente, trata-se de uma pessoa com desequilíbrio emocional.”

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Roteiro fatal

O passo a passo docrime na Bela Vista

› Em seu consultório, o urologista Anuar Ibrahim Mitre atende o primeiro paciente às 11 horas e em seguida sai para uma reunião no Hospital Sírio-Libanês

› Ao retornar, por volta das 14 horas, Mitre recebe mais quatro pessoas em sua sala

› Daniel Edmans Forti chega de carro ao prédio por volta das 16 horas e sobe sem ser anunciado na portaria

› Forti fala com a secretária de Mitre e aguarda em pé na porta do consultório até que o médico termine o atendimento

› No momento em que o paciente deixa a sala do urologista, Forti entra xingando e atirando.Três tiros atingem Mitre. O atirador se suicida na sequência

› O cirurgião Sérgio Nahas, que tem um consultório no mesmo prédio, socorre o amigo e o leva em uma cadeira de rodas ao Sírio-Libanês

Fonte: VEJA SÃO PAULO