Crônica

O primeiro gol

Por: Matthew Shirts

Crônica da edição 2390
(Foto: Divulgação)

Sammy, meu caçula, de 11 anos, sai da escola às 18h32, pontualmente, como prometido, e partimos em disparada para a Estação Paraíso do metrô. Falta menos de uma hora para o jogo começar. Havíamos traçado o plano na noite anterior, debruçados sobre os mapas no computador, como dois estrategistas militares. Pegaríamos o trem da Linha Azul até a Sé, onde trocaríamos para a Vermelha rumo à Estação Itaquera, que dá acesso à Arena Corinthians.

Não há margem para erro. A troca na Sé em plena hora do rush, com um jogo nesse horário inusitado ainda por cima (19h30), pode ser demorada. Sabemos disso. Carrego sua mochila da escola para podermos avançar com maior desenvoltura. Deve pesar uns 10 quilos, quiçá mais. A digitalização da informação parece ter aumentado o peso das bagagens escolares, acrescentando a massa dos aparelhos eletrônicos à dos livros de papel.

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A Sé está ainda pior do que o previsto, com gente saindo pelo ladrão, “o puro creme de milho”, como diria meu outro filho, bem mais velho. Mas não vamos desistir. Esse será o primeiro jogo do Sammy na Arena Corinthians. Voltar atrás não existe. Abraçamos a muvuca, avançando centímetros em direção à trilha a cada trem que passa. Entramos, apertados, no sétimo, rumo à Zona Leste.

Chegamos ao setor J, no andar de cima do estádio, com alguns minutos de atraso e o jogo começado. Nossos assentos (bloco 10, fileira C, cadeiras 10 e 11) estão tomados. Ainda não está claro se a alocação para cada torcedor de uma poltrona predeterminada por fileira e número vai vingar ou não. É um dos legados da Copa. No Pacaembu não era assim. Somos instruídos pelo funcionário ali do setor J a nos acomodar em lugares próximos. “E quando chegarem os donos dessas cadeiras?”, penso, americanamente, enquanto peço licença para passar em frente aos outros torcedores.

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Minha preocupação acaba ao sair um gol do nosso time, minutos depois. Sammy e eu comemoramos muito. É o primeiro dele, afinal, no novo campo do clube. E estamos ganhando o jogo, ou assim presumimos até aparecer o placar eletrônico no telão do estádio: Corinthians 1 x 1 Goiás. Não havíamos visto o gol do adversário, concluí. Bom. Pelo menos empatamos. Mas Sammy não se conforma. Pede o meu telefone celular.

— Pra quê? — pergunto.

— Vou olhar no site e ver se é isso mesmo — responde.

Tento argumentar que, infelizmente, é isso mesmo. Estamos no estádio, afinal de contas! A internet apenas reproduz o que acontece neste local, explico. Estamos diante da realidade, considero, filosófico. Mas não tem jeito. Não vai haver sossego enquanto eu não emprestar o celular e o empate não for confirmado via internet. Trata-se de uma desavença ontológica entre gerações, penso, um pouco inconformado.

Sammy confirma o resultado, devolve o aparelho e volta a torcer, animadão. No fim, reflito, o comportamento do garoto não é muito diferente da atitude do senhor que ouve o jogo pelo rádio na fileira a nossa frente. O que vale ainda é bola na rede.

Fonte: VEJA SÃO PAULO