crônica

O café do futuro

Por: Matthew Shirts

“Não está fácil para ninguém.” É o que passa pela minha cabeça ao entrar no café e ver dois ciclistas ensopados pela chuva. Eu estava ali tomando um expresso quando eles chegaram. O estado da dupla inspira a curiosidade dos fregueses e certa compaixão. Havia caído o mundo, como se diz, pouco antes, durante uma daquelas tempestades com raios e trovões do fim da tarde no verão paulistano. O mais espantoso é que nem sequer desceram das bicicletas. Entraram pedalando. Passaram pelas mesas do café, por mim, por todo mundo rapidamente e, sempre montados nas magrelas, sumiram nos fundos do estabelecimento.

Nesse momento, compreendo que as miniciclovias pintadas no chão ali em laranja, tais como aquelas espalhadas pela cidade, não são mero enfeite. Dão passagem entre as mesas a quem chega de bicicleta. Percebera já que estava num café temático. O nome, Aro 27, refere-se ao tamanho de uma roda. São vendidos no local camisetas, mochilas, bancos e outros acessórios.

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Quem marcou o encontro no endereço foi meu amigo Caio. Ele sabe que eu gosto de um café, até mesmo do Starbucks. “Mas esse lugar é diferente”, garantiu-me por mensagem eletrônica. Fica em uma travessa da Rua Paes Leme, completou, próximo à Estação Pinheiros do metrô. Está na cara que se trata de um café e restaurante temático. Percebera isso ao entrar, como dizia. Mas, antes de o Caio chegar, ao menos, o negócio havia me parecido ser apenas um artifício de marketing, algo que justificasse a venda de marcas sofisticadas de cerveja e macarrão de pupunha e de uma bicicleta de vez em quando. Há várias ali penduradas na parede, diga-se, lindas, todas elas.

Quando chega o meu amigo, conto a história dos ciclistas ensopados e pergunto onde teriam ido parar. Estava curioso, mas não me parecia uma pergunta que se pudesse fazer ao garçom sem constrangimento. O Caio me explica que nos fundos do café há um vestiário com chuveiros, estacionamento de bicicletas e oficina. Vou lá ver, como quem procura o toalete. É surpreendente. É para valer. Mecânicos trabalham simultaneamente e com rapidez em meio às peças. Usuários se enxáguam depois do banho, conversando sobre onde estavam na hora da tempestade. É um mundo novo para mim. Quem poderia imaginar que existisse isso tudo nos fundos de um café?

Volto para a mesa espantado. Parece que dei uma voltinha pelo futuro. “O que é aquilo?”, questiono. Caio explica que o bicicletário é a base de tudo. Por 9,90 reais, o usuário ganha o direito de deixar seu veículo guardado das 8 às 20 horas — e de tomar banho. Se precisar, poderá aproveitar para fazer manutenção no equipamento. Há a opção também de tomar café, almoçar ou comer um lanche. O que se vende, na verdade, são serviços a quem quer ir trabalhar de bicicleta, explica o meu amigo. Parar ali com frequência representa um custo mensal que não é exatamente baixo, basta multiplicar o preço da diária. Por outro lado, fugir do trânsito de automóveis em São Paulo não tem preço.

Fonte: VEJA SÃO PAULO