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Noivas perdem vestidos de casamento com incêndio da Rua São Caetano

O drama das mulheres que tiveram prejuízo por conta da destruição da região das noivas

Por: Cristiane Bomfim - Atualizado em

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Raquel: promessa de ter a peça pronta até a véspera de subir ao altar (Foto: Fernando Moraes)

Foi em março de 2011 que a assistente social Elaine Friozi de Souza, de 25 anos, iniciou os preparativos docasamento, marcado para a noite deste sábado (17). Escolheu toalhas bege e arranjos com galhos secos e flores cor-de-rosa para a decoração das mesas do salão, reservou 50.000 reais para as despesas e mandou convites a 400 pessoas.“Faltava o vestido perfeito, e, desde oinício, pensei em procurá-lo em São Paulo, na Rua das Noivas”, diz ela, vinda de Ouroeste, a 580 quilômetros da capital, referindo-se à região da Rua São Caetano, via do centro que concentra 117 lojas especializadas na moda nupcial.

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Rua São Caetano: destruição por conta do incêndio (Foto: Reprodução)

Na Recanto das Noivas, Elaine encomendou um modelo tomara que caia com cauda longa e detalhes de renda, reservou o aluguel da peça por 4.000 reais e, na segunda-feira (12), dirigiu-se ao ateliê para a última das três provas feitas ao longo de sete meses. A poucos metros de lá, saltou aos prantos do carro do pai, ainda em movimento, ao ver que um incêndio havia consumido no sábado diversos estabelecimentos da área: oito foram destruídos e quatro interditados por tempo indeterminado. As labaredas, que atingiram 750 graus, foram contidas em operação dos bombeiros com mais de 24 horas de duração. Segundo os lojistas, “milhares” de vestidos viraram cinzas. O tomara que caia de Elaine estava entre eles. “Como eu vou me casar agora?”, ela gritava.

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A assistente social Elaine: substituição do modelo às pressas (Foto: Fernando Moraes)

Por sorte, as lojas concorrentes poupadas pelo fogo se uniram a fim de arranjar uma solução para as noivas. Mas nem isso tem sido grande alento. “Este novo é lindo, mas não é o que eu sonhei”, conformou-se Elaine. Barbara Pinheiro, de 40 anos, vendedora do ateliê onde estavaa roupa da assistente social, teve de informar outras 25 clientes com casamento próximo a respeito do ocorrido. “Mesmo arranjando uma solução, é um sonho que chega ao fim”, lamenta.

A Recanto das Noivas, onde trabalha, é uma das cinco lojas da empresária Neuza Procópio, de 67 anos. Três foram devastadas e uma interditada devido ao risco de desabamento. Neuza estima um prejuízo de pelo menos 1,5 milhão de reais. “Só estou de pé graças à ajuda de amigos na rua”, conta.

Da vizinha Mar Noivas, ela ganhou um espaço para montar uma oficina. O endereço da frente, a J. Lima Trajes Masculinos, ofereceu um lugar para guardar os poucos itens que sobraram. Outros estão se apressando em arranjar alternativas para as clientes com maior urgência. Não ter lugar para trabalhar é a principal preocupação do comerciante Fernando Bueno, de 50 anos. Ele calcula ter sofrido um prejuízo de 250.000 reais, incluindo sapatos e acessórios. “Tenho medo de ir à falência.”

Com 850 empregados e 3.500 vestidos vendidos ou alugados por mês, a região da Rua das Noivas ganhou esse apelido na década de 70. Lojas mais populares, nas quais o aluguel do traje chega a sair por menos de 1.000 reais, dividem o espaço com algumas opções sofisticadas, que utilizam rendas francesas e outros materiais de primeira linha, o que explica os preços superiores a 20.000 reais. O incêndio foi percebido primeiro por Carlos José de Lima, comerciante da área, que não perdeu nada. Os bombeiros iniciaram a operação às 16h33 de sábado(10) e usaram 148 homens e 37 veículos para combater o sinistro. Os endereços atingidos pertencem à Igreja de São Cristóvão, que loca os espaços comerciais. As causas do incêndio ainda são desconhecidas.“Minha suspeita é de curtocircuito, já que as instalações são bem antigas”, disse o coronel Jair Paca, coordenadorda Defesa Civil Municipal.

Na tarde de terça, a noiva Raquel Trindade, de 21 anos, chorava convulsivamente na recepção de uma loja, mesmo depois de ter recebido a garantia de que seu vestido, criado a partir da fusão de três croquis, seria refeito em até 72 horas.“Não quero escolher outro modelo”, dizia ela, a quatro dias de subir ao altar. Ou seja, o vestido só ficaria pronto na véspera, quando, conforme planejara, já estaria tudo mais do que organizado para a cerimônia na igreja e a festa para 200 pessoas em um salão da Zona Leste decorado em tons de branco e azul.

Menos sorte teve a compradora Cidiane Santana de Oliveira, de 27 anos, que escolheu seu vestido em maio. Faltando duas semanas para o enlace e com sua escolha destruída, ela provou outras opções. Não gostou de nenhuma e começa a se desesperar. “Mas não é porque houve esse problema que eu tenho de me casar ridícula”, desabafa. “A gente sempre imagina que pode acontecer alguma tragédia no dia do nosso casamento, como a luz acabar ou morrer algum parente próximo poucas horas antes da cerimônia”, ela pondera. “Mas jamais pensa que o vestido poderia pegar fogo.”

E O FOGO LEVOU...

O incêndio começou na tarde de sábado (10)

Arte Incêndio na Rua das Noivas
(Foto: Lucas Padua)

8 LOJAS INCENDIADAS

4 LOJAS INTERDITADAS

 

A operação dos bombeiros:

das 16h33 de sábado até as 17h de domingo

148 homens

37 viaturas, como caminhões-pipa e autoescadas

 

Rua São Caetano e região:

117 lojasn

3.500 vestidos vendidos ou alugados por mês, que custamentre 800 e 20.000 reais

850 empregados

Fonte: VEJA SÃO PAULO