Música

Consagrados entre os adultos, artistas fazem canções para as crianças

Pato Fu, Arnaldo Antunes e Adriana Calcanhoto — que virou Adriana Partimpim — são exemplos que deram certo

Por: André Santoro e Natália Daumas - Atualizado em

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Fernanda Takai, John Ulhoa, Arnaldo Antunes, Taciana Barros, Sandra Peres, Edgard Scandurra e Paulo Tatit (em sentido horário, a partir da esq.): juntos em festival (Foto: Fernando Moraes)

Se esta fosse uma reportagem sobre um desenho animado, poderíamos dizer que o roteiro trata da história de um grupo de músicos que, num passe de mágica, viu seu público rejuvenescer. Não é o caso. O assunto aqui é de verdade. Tirando a magia, foi isso mesmo que aconteceu com artistas como os roqueiros Arnaldo Antunes e Edgard Scandurra, juntos no projeto Pequeno Cidadão (do qual também fazem parte Antonio Pinto e Taciana Barros), a banda Pato Fu, com seu novo disco, ‘Música de Brinquedo’, e a cantora Adriana Calcanhoto, sob o segundo nome artístico, Adriana Partimpim, entre outros. Com repertórios já consagrados para adultos, eles mergulharam de guitarra e tudo no universo infantil. Deu certo. Tanto é que, no próximo dia 17, o festival Natura Nós promete reuni-los na Chácara do Jockey, onde são esperadas 5 000 pessoas, numa programação dedicada à molecada. Estará lá também a dupla Sandra Peres e Paulo Tatit, do Palavra Cantada.

Tatit, aliás, foi o primeiro dessa nova leva de artistas a ver seu público encolher, em 1988, quando lançou ‘Quero Passear’ com o Grupo Rumo, o qual integrava. Engrossam a lista os músicos Fortuna e Paulo Bira. Cantora erudita acostumada a subir ao palco para interpretar canções medievais dos sefarditas, judeus da Península Ibérica, Fortuna se uniu ao compositor Hélio Ziskind para criar um disco e um DVD inspirados na obra da autora Ruth Rocha, batizados de ‘Na Casa da Ruth’. Entre os hits estão os clássicos ‘Borboletinha’, ‘Trem Maluco’ e ‘Alecrim’. “Já estou desenvolvendo um novo projeto para crianças”, diz ela, fazendo mistério sobre seus planos para o futuro. Bira também se inspirou em terceiros para compor. Sua primeira inserção nos acordes para menores foi em 2005, quando musicou poemas de Lázaro Simões Neto para um CD encartado no livro ‘Bem Brasileirinhos’. Neste ano ele lançou um trabalho próprio, ‘Brasileirinhos: Música para os Bichos do Brasil’, com canções de variados estilos.

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A cantora Fortuna: do repertório erudito para as letras infantis (Foto: Fernando Moraes)

Quem compõe para gente pequena não reclama da dureza do trabalho. “A garotada ouve de tudo e gosta de se aproximar do estilo adulto”, afirma Arnaldo Antunes. Há até quem caia nessa quase sem querer. É o caso da banda Pato Fu. Apesar da pegada infantil, ‘Música de Brinquedo’ não foi pensado para tal público. A ideia era gravar covers de letras que influenciaram o grupo com arranjos feitos por instrumentos de brinquedo e a participação de Nina, a filha da vocalista Fernanda Takai e do guitarrista John Ulhoa, e de seus amiguinhos. Foi só tocar nas rádios e as orelhinhas se interessaram pelo projeto. “Desde que começamos, não é raro ver crianças na plateia de nossos shows”, conta Fernanda. “Com o novo disco, isso fica mais marcante.”

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Paulo Bira: seu lançamento 'Música para os Bichos do Brasil' tem canções de estilos variados (Foto: Claudio Gatti)

Esta não é a primeira vez que os pequenos têm o privilégio de ouvir canções de qualidade criadas para eles. Nas décadas de 60 e 70, a série ‘Disquinho’ trazia historinhas com trilha sonora de Braguinha (1907-2006) e arranjos do maestro Radamés Gnatalli (1906-1988). Gilberto Gil compôs para o programa ‘Sítio do Picapau Amarelo’ e Chico Buarque tem ‘Saltimbancos’ em seu repertório. Isso sem falar de ‘A Arca de Noé’, com poemas de Vinicius de Moraes na voz de Elis Regina, Milton Nascimento e Ney Matogrosso. A coisa desandou, no entanto, na década de 80, quando tomaram conta do mercado fonográfico para petizes as cantoras que se apresentavam em trajes mínimos. Sortudas, as crianças de agora podem curtir uma espécie de retomada da música de qualidade dedicada a elas. “Essa nova geração de artistas compõe para baixinhos inteligentes”, diz o produtor Nelson Motta.

Fonte: VEJA SÃO PAULO