Crônica

Minha lipo

Por: Walcyr Carrasco

Crônica 2201
(Foto: Veja São Paulo)

Há alguns anos, fiz um grande regime que culminou com uma plástica na barriga. Mas... ai de mim! Adoro comer bem! Faço cursos de culinária, coleciono livros de receitas, não abro mão de um bom restaurante. Sou um guloso assumido. E me encanto com tudo: de um prato exótico a um arroz com feijão benfeitinho. Pior, devoro cada prato como se a guerra nuclear fosse começar no instante seguinte! Resultado: a barriga retornou. Passei alguns meses indeciso. Finalmente, resolvi: ano novo, vida nova, barriga novíssima!

Meu cirurgião plástico, o doutor Rogério, foi franco:

— Parte da sua gordura é visceral. Não se tira com lipo, mas com regime.

— Se eu me sentir melhor, vou me animar para a sequência — insisti.

— Não faça, não faça! — rugiu meu personal trainer, Igor.

— Você perde tudo na malhação. É só comparecer às aulas com frequência.

— Depois da lipo, não perco mais a cintura. Até começo a fazer boxe! — prometi.

Internei-me em uma clínica especializada em intervenções estéticas. Deitei na cama. Olhei o teto. Pensei: “Que diabos estou fazendo aqui? Não sou ator, muito menos modelo. Não vivo da minha aparência. Para que me arriscar com uma anestesia?”.

Quase desisti. Isso não é tão incomum: uma amiga já pulou nua da mesa na hora de retocar os seios e fugiu pelada pelos corredores de um hospital. Mas só um barrigudo pode compartilhar do sentimento que eu tinha. É horrível entrar em qualquer loja, perguntar se há uma roupa que lhe sirva e constatar que o vendedor traz a maior camisa. Horror! Quando se tenta fechar no umbigo, o botão explode como uma couve-flor! Lembrei-me da última festa de réveillon. Experimentei uma camisa branca após a outra. Todas apertadíssimas. Resignei-me e fui com a mais soltinha. Sim, reconheço: vive-se sob um império estético. O reino dos magros. E daí? Não pretendo começar a revolução dos gordos. Apoio quem ousar.

Mais uma vez, irritei-me com os cientistas japoneses. Inventam de tudo. Por que não uma máquina na qual eu entre por um lado e saia idêntico ao Brad Pitt pelo outro?

Estiquei o braço. Recebi uma injeção preparatória. Fechei os olhos e parti para o centro cirúrgico. Acordei com uma cinta no abdômen. Surpresa! Apenas levemente dolorido.

— Algumas pessoas sentem uma dor insuportável — disse o enfermeiro. — Outras reagem como você.

— Eu poderia ir embora dirigindo! — anunciei alegremente.

— Mas eu não deixo! — avisou o doutor Rogério.

Quando cheguei em casa, tive dor. Mas de consciência.

Fiz a lipo exatamente no fim de semana em que ocorreu a tragédia fluminense. Ao assistir às cenas de devastação, ao ver pessoas perdendo a vida, famílias sem teto, emocionei-me. E me senti tremendamente superficial. Refleti: “Como posso brincar com meu corpo?”.

Não sou contra plásticas, nem intervenções estéticas. De jeito nenhum. Mas essa só aconteceu por que depois da primeira, em vez de me reeducar, achei mais fácil fazer a segunda.

Passados os primeiros momentos de revolta comigo mesmo, comemorei. A maior parte das minhas roupas voltou a servir. E ainda estou desinchando! Logo estarei usando uma cinta menor. É quente. Sinto coceiras. Mal posso sair de casa, porque as calças escorregam na Lycra da cinta. Há uma semana, quase fiquei pelado em pleno Shopping Higienópolis. Mas em pouco mais de um mês retiro também esse adereço. Sou vaidoso. Há uma enorme satisfação em me sentir mais elegante. Mas não pretendo transformar intervenções estéticas em modo de vida. Meu corpo merece mais que isso.

Fonte: VEJA SÃO PAULO