Crônica

O Mercado da Lapa

Por: Matthew Shirts

Crônica Matthew Shirts
(Foto: Veja São Paulo)

Saio do Mercado da Lapa na hora do almoço com 200 gramas de verduras secas e um cacau fresquinho na mochila. Verduras secas, para quem não as conhece, lembram frutas cristalizadas, só que salgadas; ou, se preferir, uma espécie de salada de “chips”. Pense em um pacote de batatas fritas de diversas origens vegetais. Há cenoura, vagem, beterraba e por aí afora na mistura. Não são lá tão fáceis de encontrar. Fazem sucesso entre jovens e naturebas. São gostosas. É um ótimo presente para seu cunhado vegetariano. Vai por mim.

Uma das características mais atraentes dos mercados antigos é a variedade de produtos. Nesse da Lapa, encontram-se coco seco em flocos, coco seco moído e coco seco fino, para dar um exemplo só do setor de coco seco. Vendem-se canjica, arroz com casca, farinha de copioba, farinha de copioba do Pará, farinha-quebradinha, farinha da Bahia, e por aí vai. O setor de farinhas é vasto.

Uma lista delas, bem montada, por quem é do ramo, daria um poema. Quando pergunto se o milho de galinha é tão somente para as aves, a moça da banca dos grãos responde: “Não é não, é para trabalho de umbanda mesmo”. Segundo ela, existem no seu boxe vários produtos utilizados em cerimônias religiosas. “Há um trabalho que pede dez tipos de grão”, explica. “Temos todos.” Isso sem sequer falar do boxe de velas ao lado.

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Nos mercados antigos, os itens são apresentados a granel, em geral, com poucas embalagens e marcas. O marketing é feito pelos funcionários dos boxes, que atendem todos pessoalmente, explicando cada produto a quem, como eu, precisa disso. Quando pergunto por que uma castanha-de-caju é tão mais cara do que a outra, a atendente mostra uns pontinhos pretos na variedade mais em conta: “Porque não tem essas manchinhas”.

Na saída, pego o trem da Linha Diamante na Estação Lapa da CPTM até a Presidente João Altino. Dali, sai uma passarela longa, que atravessa um pátio ferroviário lotado. São cinco trens avermelhados parados e ainda um outro acinzentado, abandonado, todo grafitado, tal como os de Nova York. É a minha primeira vez nessa estação. Não sei como consegui viver tanto tempo nesta cidade, trinta anos, sem nunca antes ter estado ali.

Vamos ciscando os limites do município. Meu destino final é a Estação Pinheiros. A visão da janela do trem é diferente de todas as outras. É dos fundos da metrópole. Passamos por sítios, estradas, construções sem acabamento, pela Cidade Universitária, pela Ceagesp e pelo que me parece ser uma prisão. Estamos já no fim da hora do almoço, longe do horário de pico. Faz calor lá fora. O ar condicionado nos preserva. A curta viagem de trem traz lembranças de uma cidade de décadas atrás; o mercado, também. Aproveito para curtir um saudosismo meio “hipster”.

Apresento as verduras secas aos meus colegas bem mais jovens ao chegar de volta ao serviço. Eles não as conhecem. Elas fazem sucesso. Somem logo. Fico feliz. É bom se sentir relevante para os mais novos.

Esqueci o caju na mochila, descubro, três dias depois, ao enveredar por estas mal traçadas. Tenho lá minhas dúvidas sea inda está bom para comer. Ele está mais feio do que quando o comprei. Mas a mochila, ao menos, está perfumada.

Fonte: VEJA SÃO PAULO