Retratos e Ideias

A garota da capa

Em entrevista exclusiva, Marisa Berenson — a aristocrata e modelo icônica dos anos 70 — revela qual o próximo capítulo de uma vida glamourosa. E ele não envolve plumas e paetês

Por: Roberta Salomone, de Nova York - Atualizado em

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Durante quase dois anos, Marisa Berenson repassou mais de cinco décadas dos seus 64 anos por meio de milhares de fotografias. Precisou da ajuda do amigo Steven Meisel — um dos fotógrafos mais importantes da segunda metade do século XX — para elencar os momentos mais decisivos de uma vida vivida diante das lentes. Chegou a pouco mais de 300 imagens, que valem mais do que mil palavras para recontar sua história, em Marisa Berenson: A Life in Pictures (Editora Rizzoli, 60 dólares, inédito no Brasil). “Poderia ter feito uns seis livros”, afirma ela a VEJA LUXO.

Marisa é neta de Elsa Schiaparelli, a estilista italiana rival de Coco Chanel que chamou o pink de shocking e incorporou o surrealismo à moda. Seu batizado figurou nas páginas de Vogue. Ainda garota, ao lado da irmã Berry (viúva do ator Anthony Perkins, de Psicose, e morta num dos aviões do 11 de Setembro), estampou a capa de ELLE num vestido vermelho de laço rosa-shocking da vovó. As atrizes Greta Garbo e Audrey Hepburn passaram Natais nos salões da aristocrática casa dela. Com o astro de Dançando na Chuva, Gene Kelly, aprendeu a dançar — anos mais tarde, nos anos 70, junto com a amiga (princesa e estilista) Diane von Furstenberg, ela seria uma das rainhas da pista do Studio 54, o clube-símbolo dos dancing days nova-iorquinos. Graças a Diana Vreeland, a lendária editora de moda, Marisa virou modelo aos 16 anos, posando para Irving Penn e Richard Avedon. Depois seguiu a carreira de atriz (Stanley Kubrick a escalou para Barry Lyndon e antes teve papéis marcantes em Morte em Veneza e Cabaret).

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Na Sardenha, em editorial de 1969 da Vogue: para Yves Saint Laurent, ela era a cara da década (Foto: Henry Clarke)

Considerada a garota icônica dos anos 70 por ninguém menos do que Yves Saint Laurent, ela se casou (vestida de Valentino e com cerimônia registrada por Andy Warhol) com o industrial James Randall, com quem teve a única filha, Starlite, hoje com 33 anos. O vestido do segundo casamento, com um advogado, foi pink, assinado por Roy Halston. Marisa hoje se divide entre os apartamentos de Nova York e Paris e a casa de Marrakesh, a decoração de um spa no Sofitel na cidade marroquina, um namorado, a supervisão de uma linha de cosméticos, a Sois Sublime, uma participação em Love Punch, filme com Emma Thompson e Pierce Brosnan, e escrever um livro sobre saúde. “Muito trabalho pela frente”, diz. Entre tantas tarefas, concedeu a seguinte entrevista:

Sua vida daria um filme só com gente famosa. Ao folhear o livro, qual foi a sua sensação?

Sei que tive uma vida muito rica e a sorte de conhecer seres humanos incríveis que fizeram a minha história tão especial. Meu pai trabalhou com Aristóteles Onassis e passei a infância viajando pelo mundo. Estudei em várias escolas, morei em diferentes países e aprendi muito com as experiências que tive. Esse livro é um agradecimento a cada uma dessas pessoas.

Se pudesse, reescreveria sua história?

Não foi fácil perder meu pai aos 16 anos e minha irmã, que estava no primeiro avião que bateu contra o World Trade Center no 11 de Setembro. Mas como evitar essas tragédias? Acredito que nascemos com um destino traçado. Não quero lamentar nada.

Você foi considerada a mulher mais bonita do mundo nos anos 70. Afinal, beleza ajuda ou atrapalha?

Ajuda, claro. Quem diz que não está mentindo. Mas nunca me achei bonita. Na escola me chamavam de Olívia Palito. Minha mãe dizia que eu parecia uma pintura de Modigliani — eu achava isso uma tristeza. Só fui me achar o.k. anos depois.

O que faz para se manter bonita?

Medito, alimento-me bem e faço exercícios.

Botox e cirurgia plástica?

Jamais me envenenarei com Botox. Há certo exagero hoje em dia que faz com que todas as mulheres queiram ser iguais. Eu acho isso muito estranho.

Tem medo de envelhecer?

Medo, não, mas não gosto de envelhecer.

Depois de uma carreira na moda, continua ligada à cena?

Amo moda e acho incrível que hoje não seja preciso dinheiro para se vestir bem. Existem milhares de opções democráticas. Inclusive todo mundo copia todo mundo, e fica por isso mesmo (risos). Continuo admirando os grandes estilistas — Yves Saint Laurent, Valentino, Dior, Gaultier. Nos Estados Unidos, amo Donna Karan.

Guarda suas peças antigas?

Anos atrás, muitas peças dos anos 70 que guardava num depósito em Nova York foram roubadas.Tinha a ideia de doá-las a um museu. Foi muito triste, mas hoje o que guardo eu uso. Até mesmo as roupas que eram da minha avó Elsa.

Você ainda tem roupas dela?

Sim, e elas me fazem lembrar dessa pessoa tão marcante na minha vida. Com ela, além do amor pela moda, aprendi a ter força, coragem e independência. E é isso que tento passar para minha filha.

A moda também une vocês?

Ela gosta, mas tem um estilo de vida bem diferente. É psicóloga e trabalha como assistente social em abrigos de adoção em Nova York. Agora ela está noiva, e mal posso esperar para ser avó.

Fonte: VEJA SÃO PAULO