Crônica

Maníaco pelo Twitter

Por: Walcyr Carrasco - Atualizado em

Confesso: estou viciado no Twitter. Nunca imaginei que isso aconteceria. No Twitter só se escrevem recados curtos, com um máximo de 140 caracteres. E olha que sou dos textos longos! Entrei por curiosidade. Descobri um mundo de relacionamentos, papos, ideias. Para quem não conhece, o princípio do Twitter é simples: uma pessoa pode "seguir" quem quiser ou ser "seguida". Isso significa que todas as mensagens colocadas por mim serão lidas por quem me acompanhar. Por outro lado, lerei as de quem eu escolher. Também posso trocar mensagens diretas. Cada pessoa forma sua própria rede. Gosto de mensagens variadas. Reclamo que acordei cedo, digo como me sinto, dou dicas sobre minha novela, Caras&Bocas. Dia desses me senti mal. Contei. Fui soterrado por mensagens de apoio! Em outra ocasião, disse que ia almoçar com Vittorio, "meu amigo de quatro patas". Várias pessoas quiseram saber mais: Vittorio é um labrador marrom que presenteei filhote a meu amigo Gabriel, em seu aniversário. Agora Vittorio também tem Twitter, onde o próprio Gabriel narra o cotidiano do ponto de vista canino! Não faltam mensagens sérias. Ultimamente, o secretário das Subprefeituras, Andrea Matarazzo, empreendeu uma campanha contra o uso de mototáxi em São Paulo. Na sua opinião, uma temeridade! Ou de lazer: o ator Sérgio Marone me enviou um vídeo com um show lindíssimo. Muita gente dá palpite sobre minha novela, fala da vida, troca experiências comigo!

A profissão de escritor é solitária. Por trás do glamour, há um lado que ninguém conhece. É preciso autodisciplina: quanto mais conhecido um autor se torna, mais constantes são os convites para festas e eventos de todo tipo. A maior parte das vezes não posso aceitar. Escrevo à noite, varo a madrugada. Desfruto pouco o tal glamour. Fico até dois ou três dias sem botar o pé na rua, trabalhando, pesquisando. Minha personalidade pede o oposto. Adoro conhecer gente. Herdei essa característica da minha mãe: fazia amigos no ônibus, entre os vizinhos, nas compras! Quantas vezes eu conheço alguém, troco telefone, prometo almoçar qualquer dia e só vejo depois de um ano! Tenho um grupo de amigos que estudou comigo no colegial... A Lúcia e a Bia tentam há um mês organizar um jantar e já se conformaram em esperar uma brecha na minha vida complicada. Haja tempo! Escrevo seis capítulos da novela por semana. Ou seja, um por dia, e no sétimo aproveito para revisar!

Outra coisa que atrapalha a vida de um escritor é a forma cautelosa como ele é tratado. Quando alguém me conhece, passa um tempo me elogiando. Fico envaidecido, é óbvio. No entanto, para surgir a amizade, é necessário ultrapassar a barreira dos elogios, buscar interesses em comum. Não acho que alguém seja melhor ou pior por ser escritor. Cada profissão tem seu valor.

Mas, com as mensagens curtas e diretas do Twitter, essa barreira é rapidamente abolida. Crio amizades virtuais com pessoas de outros estados, outra geração. Reativo relações abandonadas. Converso agora com muito mais gente em um dia do que em todo o ano passado! E me sinto cheio de amigos!

O contato virtual nunca substituirá o olho no olho, o encontro pessoal. Mas é um bom começo, uma forma de conhecer gente, descobrir afinidades! Muita gente pensa que a internet separa as pessoas, torna as relações frias. Para mim, é todo um novo jeito de ser e viver fascinante. E, se esse é o tão temido admirável mundo novo, já gostei!

Fonte: VEJA SÃO PAULO