Crônica

Luz acesa

Por: Walcyr Carrasco

Luz acesa - 2211
(Foto: Veja São Paulo)

Uma noite dessas, ao sair, um amigo se surpreendeu com a sala toda acesa:

— Você não vai apagar a luz?

Sem jeito, desliguei. Lembrei dos meus tempos de menino. Sempre tive o péssimo hábito de deixar lâmpadas acesas. Mamãe reclamava:

— Olha a conta! Não somos sócios da companhia elétrica!

Luz é energia. Uma energia limitada. Quando se gasta demais aqui, falta ali. Quase todas as pessoas que eu conheço estão preocupadas com a defesa do meio ambiente. Agora, com o risco nuclear no Japão, não faltam discursos contra as usinas atômicas. Boa parte das necessidades energéticas do país depende delas. E aqui no Brasil se vive sob o risco de um apagão generalizado, porque, quanto mais o país se desenvolve, mais recursos energéticos são necessários. Constatei que muitas pessoas que discursam sobre a proteção do meio ambiente na vida prática são tão ausentes quanto eu. Esquecem de apagar a luz. E a água? Na academia vejo alunos que deixam o chuveiro ligado. São pessoas de bom nível, alta escolaridade. Mas não sabem fechar uma torneira! Desperdiça-se água no banho, ao escovar os dentes.

Tenho horror da poluição. Mas sou incapaz de deixar o carro em casa. Mesmo para pequenas distâncias. Outro dia me surpreendi com um conhecido: sai de Interlagos e pedala a bicicleta pela ciclovia. Só no final da pista pega o trem para o trabalho.

— Se a ciclovia fosse mais longa, nem trem eu pegaria mais — afirmou.

Senti admiração. Eu poderia caminhar até a academia. Seria um bom exercício.

— São Paulo tem pouco verde! — comentou uma amiga.

— Por que o seu quintal é cimentado?

Ofendida, ela retrucou que falava da falta de parques, de ruas arborizadas.

— O poder público tem de se preocupar!

— Mesmo um pedacinho de chão pode virar jardim — argumentei.

Há bairros áridos, sem verde algum. A Granja Viana é um bairro com muitos jardins, árvores e até reservas florestais. Até lá ganhei um vizinho de frente que reclama das minhas árvores. O motivo? As folhas que, levadas pelo vento, caem em seu quintal!

— Que absurdo! — disse para um amigo.

— Paulistano é assim mesmo, gosta de cimentar tudo!

Atualmente estou reformando minha futura residência. O arquiteto veio falar comigo.

— Que tipo de aquecimento? E as cortinas, por controle remoto?

Escolhi o solar, do tipo mais radical, que não usa energia elétrica jamais. Mostrei minhas mãos:

— É com elas que vou abrir as cortinas!

O arquiteto se espantou. Hoje em dia se colocam motores e controles em tudo! No meu atual endereço, quase enlouqueço quando vários maquinários resolvem ficar defeituosos ao mesmo tempo!

Radicalizei:

— Quero o mínimo de automação possível. Só para economizar energia!

Choquei meus amigos ao contar minhas decisões. Um deles lembrou:

— Mas é para seu conforto!

Justamente. Em nome dos pequenos confortos, costuma-se abdicar do de todos. As pessoas se acomodam. E fogem da sua responsabilidade, mesmo mínima, na preservação do meio ambiente.

Minha casa será à antiga. Mas não correrei o risco de ficar com as cortinhas emperradas porque o motorzinho quebrou. Ou de gastar água demais lavando o quintal, porque nele terei um jardim!

Um amigo esportista me deu a boa notícia:

— Assim é melhor para sua saúde! Quanto mais controles remotos a gente usa, menos se movimenta. E ganha uns quilinhos.

Sinto que começo a entender meu lugar no mundo. Não posso resolver todos os problemas da Terra. Mas sim viver de forma positiva. E com uma vantagem extra: vou emagrecer um pouco mais.

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Fonte: VEJA SÃO PAULO