Cidade

Os podres do nosso lixo

Dos sacos que entopem os bueiros aos papéis “roubados” por piratas, mostramos o que acontece com os detritos jogados fora pelos paulistanos

Por: Mariana Barros e Manuela Nogueira - Atualizado em

Alagamento no Limão - capa 2200
Alagamento no Limão, terça de manhã: sacos são um dos vilões das enchentes (Foto: Ernesto Rodrigues/AE)

Os sacos que amanheceram boiando no Rio Tietê na última terça-feira (11) eram o lembrete de algo que a cidade não pode varrer para debaixo do tapete. Naquela manhã, os paulistanos viviam a ressaca dos estragos causados por quatro horas de forte chuva na noite anterior. Em questão de minutos, a capital tornou-se intransitável, com 125 alagamentos registrados. Entre os pontos submersos, estavam trechos das marginais Pinheiros e Tietê, onde a água trazia de volta a sujeira descartada nos rios e córregos que ali desembocam. À medida que a água baixava e a imundície secava em calçadas e canteiros, uma coisa ficava mais do que evidente: a íntima relação entre a maneira como tratamos nosso lixo e o caos que se repete após as chuvas. Lidar com a dinâmica de uma cidade que produz 17000 toneladas de resíduos por dia não é tarefa fácil. Já seria complicado mesmo que os munícipes sempre respeitassem as regras e a prefeitura tomasse todos os cuidados necessários. Imagine então quando nenhum dos lados cumpre sua parte. Moradores se livram do que não querem mais pelas ruas e córregos, além de colocar os sacos na calçada fora do horário da passagem do caminhão. A prefeitura, por sua vez, não oferece alternativa a quem sai de casa muito antes da hora da coleta. Falta fiscalização no descarte de entulho e no término das feiras livres, cuja demora atrasa a limpeza das ruas onde funcionam. São Paulo fica devendo também na reciclagem, que representa a irrisória taxa de 1% do resíduo produzido e que, sem o acompanhamento incisivo do poder público, abre caminho para a ação de aproveitadores. Conheça as partes do quebra-cabeça que fazem do lixo um problema de cada um de nós. 

Liberdade: ponto de descarte irregular - capa 2200
Ponto de descarte irregular de entulho, na Liberdade: centenas espalhados pela capital (Foto: Fernando Moraes)

 

O CAMINHO DO LIXO COMUM

Descarte 

O caminho do lixo - capa 2200
(Foto: Arte VEJA SÃO PAULO)

 

■ A prefeitura recomenda que os sacos sejam postos para fora, no máximo, duas horas antes da passagem do caminhão.

■ Quem descartá-los fora do horário estará sujeito a multa de 50 reais se pego em flagrante. Também está prevista punição de até 12000 reais para quem jogar entulho em lugar inapropriado.

■ Para os paulistanos que saem cedo ou chegam tarde e precisam colocar o lixo na rua com grande antecedência, só apelando para o vizinho. A prefeitura não oferece alternativa para quem quer evitar que seus sacos saiam boiando na água da chuva.

Coleta

O caminho do lixo - capa 2200
(Foto: Arte VEJA SÃO PAULO)

 

■ Duas empresas contratadas pela prefeitura são responsáveis por recolher os sacos produzidos na cidade. A Loga atende o centro e as zonas Oeste e Norte. A Ecourbis, as zonas Leste e Sul.

■ Estabelecimentos e empresas que descartem mais de dois sacos grandes por dia (200 litros) não podem usar a coleta municipal. Devem contratar uma empresa particular cadastrada na Limpurb para realizar o serviço.

■ Cada caminhão comporta até 12 toneladas prensadas. Para dar conta do volume produzido, faz de três a quatro viagens por dia.

■ A bordo de cada veículo há três coletores e um motorista. O piso salarial dos coletores é 804 reais, para uma jornada de oito horas. Eles percorrem cerca de 12 quilômetros ao dia. O zigue-zague para apanhar os resíduos faz com que cheguem a correr 20 quilômetros.

Destinação

 

O caminho do lixo - capa 2200
(Foto: Arte VEJA SÃO PAULO)

 

■ Na Zona Sul e no centro, existem transbordos – estações intermediárias onde os resíduos são despejados antes de atingir seu destino final.

■ Com os aterros saturados, a cidade passou a exportar seu lixo para outros municípios. A previsão da prefeitura é inaugurar um novo aterro na Zona Leste neste semestre.

■ O aterro São João, na Zona Leste, foi desativado e tem sido usado para a produção de biogás. 

Ladrões de materiais recicláveis - capa 2200
“Ladrões” de materiais recicláveis nos Jardins: em busca de produtos para venda, eles deixam um rastro de sujeira (Foto: Fernando Moraes)

O CAMINHO DO LIXO RECICLÁVEL

Descarte

■ Separe embalagens plásticas, papéis, metais e vidros. Lave-os para evitar que os restos atraiam ratos e baratas.

■ Coloque-os em um mesmo saco, com exceção dos vidros, que devem ser embrulhados, acomodados separadamente e identificados como material cortante, para evitar acidentes. Em média, a cada dois dias um coletor se corta manejando vidro.

■ Verifique no site da Limpurb se sua rua tem coleta de recicláveis. Se não tiver, entregue-os a quem encaminha esses materiais, como escolas, supermercados e postos de gasolina.

Coleta

■ Além da prefeitura, carroceiros e veículos apelidados de “morcegões”, devido ao costume de circular à noite, percorrem as ruas em busca de materiais que tenham valor no mercado informal.

■ Alumínio é o material mais cobiçado: 1 quilo chega a valer 3 reais. Plásticos (1,30 real por quilo), papel branco (50 centavos por quilo), papelão (45 centavos por quilo) e vidro (30 centavos por quilo) aparecem em seguida. Os preços oscilam conforme a demanda.

Destinação

■ Veículos de recicláveis da prefeitura comportam apenas 3 toneladas, em vez das 12 usuais. A compactação é menor para evitar danos aos materiais.

■ O carregamento é levado a cooperativas cadastradas na Limpurb. Despejado em uma esteira, ele é separado manualmente. Itens não recicláveis ou muito danificados são descartados. Cada cooperado ganha cerca de 1 000 reais por mês e trabalha oito horas diárias.

Fonte: VEJA SÃO PAULO