Polêmica

Best-seller reclama de retaliação da USP

Universidade teria vetado evento no Museu Republicano de Itu. Diretora nega e diz que não recebeu pedido formal

Por: Redação Veja São Paulo

Fachada Museu do Ipiranga - Capa 2334
Fachada do Museu do Ipiranga interditado: frequentadores foram pegos de surpresa pela notícia (Foto: Mario Rodrigues)

Autor de grandes sucessos editoriais sobre a história do Brasil, Laurentino Gomes publicou nesta sexta (13) em seu blog um texto reclamando que a USP vetou o lançamento de sua nova obra, 1889, no Museu Republicano de Itu. Uma nota publicada em 30 de agosto no jornal Gazeta do Ipiranga levantou essa polêmica. Segundo o escritor, a medida foi em retaliação a uma reportagem de capa que publicou na edição de 14 de agosto de VEJA SÃO PAULO, sobre os problemas que levaram ao fechamento do Museu do Ipiranga, também administrado pela USP.

Procurada para comentar o caso, a responsável pelos dois museus, Sheila Walbe Ornstein, nega o episódio. "Nós só avaliamos pedidos formais. Houve sondagem (para o lançamento do livro em Itu), mas nós não trabalhamos com sondagem", diz. "O museu passa por uma fase muito difícil. Não teríamos nem condições de pensar nessas questões (lançamento de livro) em um momento como esse. Estamos atendendo apenas emergências, como pedidos de pesquisadores."

Confira a íntegra do post publicado no blog do autor:

"O veto da USP ao lançamento do meu livro 1889

Durante a minha participação no programa “Roda Viva” da TV Cultura, na última segunda-feira, por mais de uma vez os entrevistadores insistiram em uma pergunta que me persegue desde o lançamento do meu primeiro livro, “1808”. Queriam saber como tem sido a reação dos historiadores acadêmicos ao meu trabalho. “Você tem sentido algum ciúme por parte deles?”, inquiriu um dos jornalistas na parte final do programa.

Como sempre, tentei ser diplomático e afirmei que, ao contrário, a reação dos historiadores às minhas obras tem sido bastante generosa, em especial entre os professores que enfrentam diariamente na sala de aula o difícil desafio de atrair o interesse de crianças e adolescentes para o estudo da História do Brasil .

Um fato novo ocorrido esta semana me levou a crer que, infelizmente, as relações não são tão suaves como eu imaginava que fossem. Acabo de saber pelo jornal “Gazeta do Ipiranga” que a direção do Museu Paulista, instituição da Universidade de São Paulo (USP), vetou o lançamento do meu novo livro, “1889”, nas dependências do Museu Republicano de Itu, a cidade onde moro. O Museu Paulista é responsável tanto pelo museu ituano quanto pelo Museu do Ipiranga, em São Paulo.

Segundo a notícia publicada pela “Gazeta do Ipiranga”, a decisão do Museu Paulista foi uma represália a mim em virtude de uma reportagem de capa que, no final de agosto, assinei para a revista “Veja São Paulo”. No artigo, escrito a convite da direção da revista, eu criticava o estado de abandono em que se encontra o Museu do Ipiranga, fechado de forma atabalhoada e, no meu entender, desrepeitosa com o público às véspera do último feriado de Sete de Setembro. Incomodada com as minhas críticas, a direção do Museu Paulista recusou um pedido da Academia Ituana de Letras (ACADIL) e da Secretaria de Cultura de Itu para uma sessão de autógrafos do livro “1889” no Museu Republicano.

A Universidade de São Paulo é uma instituição que já pagou um alto preço na defesa do seu direito de liberdade de expressão e pensamento. Durante o regime militar de 64, vários de seus professores e funcionários foram aposentados de forma compulsória ou tiveram de fugir do país porque se opunham às autoridades constituídas e, por essa razão, corriam o risco de serem presos ou mesmo torturados nos porões do regime. A defesa intransigente intransigentes desses direitos, mesmo à custa de tanto sacrifício, é uma das razões pela quais a USP hoje uma instituição adminirada e respeitada por todos os brasileiros.

Diante das novas revelações, no entanto, só me resta lamentar essa mesma Universidade de São Paulo, tão perseguida durante a ditadura, agora se envolva num episódio de óbvia retaliação e censura a um jornalista que teve a ousadia de criticar seus professores-doutores responsáveis pelo Museu Paulista.

O prédio do atual Museu Republicano de Itu foi cenário importante dos acontecimentos que levaram à queda da monarquia brasileira em 1889, tema do meu novo livro. Nesse edificio se realizou em 1873 a famosa Convenção de Itu, na qual um grupo de fazendeiros e intelectuais da região decidiu a criação do Partido Republicano Paulista, cuja atuação seria fundamental na campanha republicana nos anos seguintes. Desse grupo sairam os dois primeiros presidentes civis do novo regime, Prudente de Morais e Campos Salles. Por essa razão, dediquei um capítulo do livro “1889” à Convenção de Itu. E, pelo mesmo motivo, eu me sentiria honrado em lançar a obra nas dependências do Museu Republicano.

Resta-me, porém, um consolo: a Universidade de São Paulo e o Museu Paulista, apesar de toda a sua importância do cenário educacional brasileiro, ainda não atingiram o poder institucional que a Igreja Católica deteve no final do Idade Média. Caso contrário, a esta altura muito provavelmente os meus livros já estariam sendo queimados em praça pública. E o autor também!"

 

 

Fonte: VEJA SÃO PAULO