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Craque da narração, José Silvério completa cinquenta anos de carreira

O astro do rádio conquistou os torcedores com estilo veloz de narração, a precisão e o gogó potente, capaz de sustentar gritos de gol por até doze segundos

Por: Paulo Nogueira

José Silvério
José Silvério: metralhadora do rádio (Foto: Mario Rodrigues)

Um dos astros do rádio esportivo brasileiro iniciou a carreira há cinquenta anos em Lavras, a 230 quilômetros de Belo Horizonte, a capital mineira. Sua estreia ao microfone ocorreu em julho de 1963, em uma partida amistosa não propriamente galáctica entre Olímpica de Lavras e Bragantino. O prélio, como se dizia naqueles tempos em que o narrador também era muitas vezes chamado por um termo em inglês (speaker), terminou em 1 a 0 para a equipe da casa. Empolgado com a experiência, o estudante José Silvério, que tinha 18 anos de idade, decidiu ali que tentaria a sorte na profissão. “Minha brincadeira preferida de criança era fazer locução de jogos de futebol de botão”, lembra ele, que começou a burilar seu estilo relatando para os amigos clássicos épicos em que a bola era um botãozinho branco e as redes tinham armação de plástico.

Silvério trabalhou na Rádio Cultura de Lavras e teve passagens por emissoras de Belo Horizonte e do Rio de Janeiro, mas se consagrou mesmo em São Paulo. Em 1975, fez sua entrada triunfal na Jovem Pan, onde pontificou por 25 anos. Primeiro, atuou como reserva de luxo de Osmar Santos, então uma superestrela do rádio esportivo. Com a saída de Santos em 1977 para a Rádio Globo, Silvério virou titular absoluto na Pan. Desde 2000, esgrime os microfones da Rádio Bandeirantes, onde embolsaria um salário mensal de 100.000 reais, segundo estimativas de mercado. “Meu rendimento é uma questão pessoal, e não falo sobre o assunto, pois não sou uma celebridade como o Neymar”, desconversa.

Ele conquistou os torcedores com o estilo veloz de narração, a precisão e o gogó potente, capaz de sustentar gritos de gol por doze segundos (a concorrência não chega a oito). Em uma das transmissões mais famosas, na final do Paulistão de 1993, quando o Palmeiras venceu o Corinthians e encerrou um jejum de títulos que durava dezessete anos, mandou ver: “Agora, eu vou soltar a minha voz!”. E tome decibéis. Até hoje torcedores do Verdão vêm lhe mostrar o celular com a gravação histórica. Em outro momento memorável de suas mais de 2.000 transmissões, incluindo a cobertura de nove Copas do Mundo, subiu no telhado de uma casa para driblar a proibição da presença da imprensa em um treino secreto da seleção brasileira, em 1986. “A narração foi um sucesso de audiência”, lembra.

Diferentemente da pegada de outros grandes nomes da área, como o romântico Fiori Gigliotti, morto em 2006, que começava as irradiações com o bordão “Abrem-se as cortinas e começa o espetáculo”, Silvério emprega vários jargões, que nunca se resumem a firulas. Sua marca de Zorro é a esticada nas últimas sílabas da frase “Golaaaaaaço!”. “Ele tem a antevisão do craque, não narra em cima do lance, narra no vácuo”, diz Mauro Beting, comentarista e colega de jornadas esportivas da Bandeirantes. De outro companheiro de trabalho, o apresentador Milton Neves, ganhou o apelido Pai do Gol. Ao contrário de muitos de seus melhores pares, Silvério nunca trocou o rádio pela televisão. Não foi por falta de assédio nem de competência técnica. Teve duas passagens pela telinha: uma na finada Manchete, durante a Olimpíada de 1996, e outra na ESPN, em 1995. Mas percebeu de estalo que o rádio era mesmo a sua praia.

Aos 67 anos, o narrador continua bem ativo. Transmite pelo menos duas partidas por semana. Nascido em Itumirim, município com cerca de 6.500 habitantes no interior de Minas, mantém até hoje um sítio no vizinho Lavras. “Fujo para lá a toda hora e dou uma reequilibrada na cabeça”, conta. “Ver futebol nas folgas, só se for um jogo muito, muito decisivo.” Em São Paulo, mora no Jabaquara. É viúvo há dois anos e meio, quando perdeu a esposa, Sebastiana. Tem três filhos (Alessandro, de 45 anos, Andrea, 42, e Ana Cristina, 35) e cinco netos. Vascaíno na infância, diz que começou depois a gostar do Cruzeiro. “Mas eu simpatizo com todos os clubes, sem fazer média”, jura, mineiramente. Nem pensa em se aposentar. Está salivando pela Copa do Mundo no Brasil no ano que vem e já tem um sonho: narrar a final no Maracanã, com uma apoteose canarinho e um golaaaaaaaaço de Neymar.

Idade: 67 anos

Natural de: Itumirim (MG)

Carreira: começou na Rádio Cultura de Lavras, trabalhou 25 anos na Jovem Pan e está na Bandeirantes desde 2000

Jogos já transmitidos: mais de 2.000

Duração de seu grito de gol: doze segundos (contra oito segundos da maioria dos profissionais)

Times do coração: Vasco e Cruzeiro

Salário mensal: 100.000 reais (estimativa)

Carga de trabalho: pelo menos duas partidas por semana

Fonte: VEJA SÃO PAULO