Memória

Os Fofos recuperam capítulo da história do teatro com Baú da Arethuzza

Encabeçado por Fernando Neves, projeto concorre ao Prêmio Shell na categoria inovação

Por: Bruno Machado - Atualizado em

Vancê Não Viu Minha Fia
Os Fofos em cena de 'Vancê Não Viu Minha Fia?', parte do projeto Baú da Arethuzza: celebração da estética circense (Foto: Ligia Jardim)

“Arethuzza era a irmã mais velha do meu avô. Nasceu em 1896, e era uma grande atriz. Os jornais a comparavam com Sarah Bernhardt. Depois que meu bisavô morreu, ela passou a liderar o circo-teatro da família, que levou o seu nome”, explica o diretor de teatro Fernando Neves, 62 anos, que até dez anos atrás renegava seu passado circense. “Eu nasci na coxia de um circo-teatro, enquanto meu pai estava no palco”, conta o integrante da Cia. Os Fofos Encenam, que há uma década iniciou uma pesquisa da estética circense com A Mulher do Trem. O espetáculo se tornou um clássico no repertório do grupo e levou um Prêmio Shell de melhor figurino em 2003. Agora, a companhia volta a concorrer à láurea com o resultado da pesquisa encabeçada por Neves, o projeto Baú da Arethuzza.

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Neves explica que descobriu a importância dos circos para a cultura brasileira com recortes de jornal e fotografias do teatro da família conservadas por um tio. “É uma estética ignorada e até desprezada pela academia, mas que representa o verdadeiro teatro brasileiro”, afirma o encenador, referindo-se a companhias mambembes de origem europeia que chegaram ao Brasil no começo do século passado fugindo da gripe espanhola e da Primeira Guerra. Até o começo dos anos 1960, eram os principais difusores de cultura no interior do país.

Fernando Neves - Cia. Os Fofos Encenam
Fernando Neves, o idealizador do projeto: mais de 200 textos lidos (Foto: Divulgação)

Da vontade de recuperar a tradição dos circo-teatros daquela época nasceu o projeto que leva o nome da sua tia-avó e compreende a montagem de cinco textos — Antes do Enterro do Anão, Vancê Não Viu Minha Fia, A Ré MisteriosaA Canção de Bernadete e Dar Corda pra Se Enforcar —, a reestreia de A Mulher do Trem, em setembro, além de oficinas sobre a estética circense e a formação do ator popular. “Eram artistas com um grande poder de improvisação, que faziam de tudo no palco. Se jogavam do trapézio e, dez minutos depois, estavam trocados, atuando nos palcos improvisados”, explica o diretor, que orientou os atores da companhia a fazer aulas de circo. “Alguns grandes atores são dessa tradição, como Dercy Gonçalves, Procópio e Bibi Ferreira”.

Outro diferencial do projeto é a velocidade com que os espetáculos são levantados. Tudo é feito no prazo máximo de duas semanas, como nos circos-teatros. “Os atores daquela época eram pragmáticos e não ensimesmados como hoje. Não tinham muito tempo para refletir sobre os personagens, pois precisavam se sustentar, precisavam ganhar dinheiro. Brinco com meu elenco dizendo que esse projeto é para tirar o ator de qualquer crise. A gente não pode ficar mais meses ou mesmo anos pesquisando e experimentando um determinado projeto”, defende.

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Ao todo, o pesquisador leu cerca de duzentos textos para chegar aos cinco encenados pela companhia. “A ideia é apresentar o texto mais icônico de cada década do circo-teatro, dos anos 1910 até os anos 1950, e fazer um painel dos gêneros que eram apresentados no palco, desde a pantomima, até a comédia vaudeville, a chanchada e o melodrama”.

O resultado da minuciosa pesquisa de uma década acaba de ser indicada ao Prêmio Shell na categoria inovação. “Eu entendo a indicação não como um presente ao meu trabalho de investigação, mas como um indício que não estou só nessa reflexão sobre o ator popular e essa dramaturgia legitimamente brasileira”, afirma Neves. “Meu medo é que as pessoas pensem que estou fazendo isso por se tratar de um assunto íntimo. Na verdade, é um trabalho de recuperação de um pedaço da memória do teatro brasileiro, que por acaso, é parte da memória da minha família.”

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Para o diretor, recuperar o circo-teatro também significa dar um novo valor ao melodrama, o gênero mais encenado pelos circos-teatros do começo do século passado. “As pessoas tendem a rejeitar e depreciar o melodrama, mas não há escapatória. Nós estamos rodeados por ele. Na publicidade, no jornalismo, no comercial de margarina e na telenovela. Não consigo enxergar um autor mais melodramático que Nelson Rodrigues. O brasileiro é um povo melodramático por excelência”.

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burleta: um gênero muito próximo do teatro de revista, que consistia numa série de números musicais e humorísticos sobre os acontecimentos da atualidade. A burleta se distingue por haver um fio condutor narrativo entre as atrações.

chanchada: trata-se de uma comédia inocente, com humor ingênuo e bastante acessível. Entre os grandes nomes desse gênero, que também fez muito sucesso no cinema entre as décadas de 1930 e 1960, estão Oscarito e Grande Otelo.

melodrama: o gênero popular nasceu no século XVIII, como uma mistura de drama e espetáculo musical. Com o tempo, sofreu transformações, embora tenha mantido o nome original. Hoje, refere-se a um tipo de encenação em que as situações dramáticas se acumulam, exageradamente, sempre entremeadas por cenas cômicas que aliviam a carga trágica da trama. A principal característica do melodrama é o embate entre o bem e o mal, e o melhor exemplo do gênero são as telenovelas. Neves observa que se o melodrama não tiver uma certa dose de comicidade, torna-se uma tragédia. "O excesso de situações dramáticas também pode gerar o efeito cômico", explica.

vaudeville: também conhecido como teatro de variedades, reunia dezenas de atores e músicos no palco para números musicais rápidos e breves esquetes humorísticos. A principal característica do gênero, segundo Neves, são os quiprocós e confusões presentes nas tramas.

Fonte: VEJA SÃO PAULO