Arte & Design

Fábrica de porcelanas se renova com desenhos de grife francesa

A 80 quilômetros do Porto, a centenária Vista Alegre trabalha com a marca Christian Lacroix

Por: Adriana Marmo, de Ílhavo

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Em 2009, quando Christian Lacroix bateu asas e voou da moda – leia-se: declarou a falência da casa de alta-costura e prêt-à-porter que leva seu nome, uma das mais amadas a partir dos anos 80 na França –, parecia o fim da exuberância e do colorido do costureiro.

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Com a entrada no negócio de um novo investidor e de um diretor criativo cuja família vem da capital francesa da porcelana, as borboletas características de Lacroix encontraram outros lugares, além das roupas, para pousar.

Por cinco anos, num contrato de exclusividade, estarão em pratos, xícaras, bules, travessas e candelabros da Vista Alegre. “Aprendi a amar a cerâmica com a minha avó, nascida na região de Limousin, berço da porcelana de Limoges”, diz Sacha Walckhoff, que por quase duas décadas foi braço-direito de Lacroix.

Porcelanas - Luxo Ed.: 2376
Parte das 120 peças do jogo Butterfl y Parade, desenhado pelo estilista Sacha Walckhoff, da Lacroix: estampado com as borboletas típicas da alta-costura (Foto: Divulgação)

A Butterfly Parade é uma das quatro estampas assinadas por ele para a marca portuguesa que há mais de um século produz a louça que serve o rei Juan Carlos, da espanha, o presidente americano Barack Obama, a rainha Beatriz, da Holanda, e consumidores do mundo inteiro. As outras linhas trazem desenhos geométricos, flores e paisagens, feitos para, numa explosão típica do exagero à moda Lacroix, ser combinados entre si.

A ligação das lembranças de Walckhoff com o lançamento recente é o caulim, um minério típico da terra de sua avó. Os primeiros depósitos foram descobertos em 1771, em Saint-Yrieix-la-Perche, a pouco mais de meia hora da cidade de Limoges. Na capital da região de Limousin se estabeleceu a indústria que atingiu o auge no século XIX. O local permanece como um centro da produção – e a fábrica mais antiga em atividade é a Royal Limoges, de 1797.

Os chineses, no entanto, já utilizavam o caulim desde o século XVII. Foi Marco Polo quem trouxe a técnica do uso para o Ocidente. Há jazidas dessa matéria-prima também em Ílhavo, cidade com pouco mais de 38 000 habitantes, a 80 quilômetros do Porto, onde nasceu a Vista Alegre.

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Na fábrica de Ílhavo, o feitio começa com o desenho (Foto: Divulgação)

A história começa em 1824, quando dom JoãoVI assinou o alvará de funcionamento da fábrica, que nasceu ao redor da bela e barroca Igreja de Nossa Senhora da Penha de França, construída em 1693. No início, produziam-se apenas vidro e uma porcelana mais grosseira. Com a descoberta do caulim na região, em 1832, foram “importados” mestres de Limoges para elevar a qualidade dos pratos portugueses. Com o passar dos anos, surgiu ao redor um bairro com as casas dos funcionários, o clube de recreação, o teatro e a escola.

Hoje não são mais os empregados que moram lá. O teatro está fechado. A igreja recebe fiéis apenas no primeiro fim de semana de julho, para a festa da padroeira. Ao todo, são quatro fábricas em Portugal, que produziram, no ano passado, um total de 15 milhões de itens, divididos em 4 000 tipos de peça, tanto das linhas industriais quanto das porcelanas finas feitas em Ílhavo.

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Etapas manuais, abrangendo desde o preenchimento dos moldes até a decoração, como os portugueses aprenderam no século XIX com os artesãos de Limoges (Foto: Divulgação)

A produção, ainda que acrescida de um bom tanto de tecnologia, continua muito parecida com a do passado: a mão está presente em todas as etapas, que começam com o preenchimento do molde com a pasta de argila. “É preciso ficar atento à quantidade exata e observar se o líquido endurece de maneira uniforme”, explica Antonio Farias, na empresa há vinte anos.

Com cuidado, ele despeja a pasta, contida em uma pequena jarra, dentro das dezenas de moldes de xícaras da linha Lacroix dispostas em uma espécie de carrossel. Mais cinco horas de descanso e elas estão prontas para ser desenformadas. É um trabalho para mãos femininas, consideradas mais delicadas ,responsáveis também pela primeira parte do acabamento: aparar as arestas e observar se as formas estão corretas.

Peças mais complexas, como os candelabros, compostos de várias partes, são esculpidas a mão. Depois de tiradas do molde, são coladas item a item. Só então seguem para um dos fornos. Eles ardem a mais de 1 000 graus. Para mantê-los flamejantes, a fábrica nunca fecha, nem mesmo nas noites de Natal e Ano-Novo. Em revezamento, cada um deles é apagado apenas uma vez por ano para manutenção. Ali dentro as peças serão cozidas por, no mínimo, vinte horas.

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Depois de cinco horas de descanso, as peças vão para o forno: pintura, adesivos e polimento arrematam a decoração (Foto: Divulgação)

A etapa seguinte é a decoração. Desenhos e frisos surgem da ponta de um finíssimo pincel, segurado por mãos firmes de artesãos em mesas ajustadas para acomodar os cotovelos. Algumas peças levam adesivos no lugar da pintura, e a aplicação deles é um trabalho minucioso. “O mais prazeroso é saber que uma nunca é igual à outra, não importa quantos padrões a gente siga. Isso se chama manufatura”, diz Elisa da Costa, ocupada em finalizar a folhagem de um prato florido. Uma peça pode demorar meses para ser pintada.

Tinta seca, é hora de embalar. “Esta é uma obsessão para mim, pois não há de ser o transporte a lascar o trabalho feito com tanta dedicação e por tantas pessoas”, afirma Fernando Mouzinho, chefe da manufatura. Concentrado, ele pousa o candelabro de borboletas Lacroix na caixa acolchoada produzida sob medida. Assim, elas voarão em segurança para as prateleiras brasileiras, aonde o candelabro chegará seguro (e por mais de 4 000 reais).

Fonte: VEJA SÃO PAULO