Crônicas

Excluídos

Por: Ivan Angelo - Atualizado em

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(Foto: Veja São Paulo)

Fui salvo do vício de fumar por um maço de cigarros. Menino, entre os 8 e 10 anos, surrupiei de um tio um maço de Continental sem filtro, cigarro que o via tragar com prazer por entre as duas falhas dos dentes inferiores da frente. Eu queria experimentar aquilo, e não me perguntem por que simplesmente não pedi um. Penso, hoje, que ele não daria, mas na época eu não considerava a hipótese de pedir. Cultivava o escondido e o proibido, não ia recorrer ao gesto simples.

Fumei no fundo do quintal, atrás das bananeiras, imitando sua tragada funda, no meu caso intercalada pela tosse abafada a custo. Fumei um, outro, e outro. Não estava gostando nada daquilo, mas não podia devolver o maço faltando nem deixar cigarros sobrando lá nas bananeiras. Minha lógica era esconder o crime. Fumei todos, uns cinco, sei lá, como o bicheiro que engolia as apostas do jogo quando ouvia a polícia chegar. Apaguei. Não o cigarro, eu que apaguei, dormi ou desmaiei por não sei quanto tempo. Passei dias vomitando e, ao longo da vida, se cheguei a botar algum cigarro na boca foi desafio de macheza, zero de prazer. Vinham-me aquele arrepio, aquele enjoo, desistia.

Ainda bem. Se tivesse continuado e escapado com vida de um enfisema pulmonar, um câncer, um ataque cardíaco ou uma bronquite, seria hoje um excluído.

Explico. Há pouco tempo estive no oeste paulista e fui a um restaurante em Rancharia. Da janela ampla via uma cena curiosa. Ao lado da escada de uma das entradas do restaurante havia uma grande árvore em torno da qual fora construída uma larga mureta circular. Um senhor distinto estava sentado numa cadeira de frente para a mureta, e sobre ela haviam sido colocados um jogo americano e um serviço de jantar. O garçom levava-lhe sua cerveja, servia seu bife, seu arroz, legumes, e o senhor ficava lá, fumando, comendo, bebendo, fumando, com um ar — talvez fosse impressão minha — melancólico.

Jantava ali todos os dias, debaixo da árvore, contou-me o garçom. Aposentado, era freguês havia mais de vinte anos. Costumava ir com a mulher, sempre bem-vestidos. Ela morreu de câncer no pulmão, e não fumava, ou só fumava a fumaça dele. O senhor passou a comer ali fora desde que fumar em restaurantes e lugares fechados foi proibido. O cigarro é sua companhia e autopunição. É um excluído.

Em outros tempos, fumantes imperavam. Os incomodados que se retirassem. Em Viena, cidade de fumantes que tem até um imponente Museu do Tabaco, estive em um bar em que era tal o nevoeiro que não se distinguiam pessoas duas mesas adiante. Lá também já é proibido, mas há bares só para fumantes. Ou havia, porque a exclusão avança. Encontrei um boteco em Osvaldo Cruz, no interior de São Paulo, cujo dono resolveu ser democrático: o lugar não tem dentro, só tem fora. Na parte de dentro, só existem a cozinha, a pia e os frigoríficos. À proporção que a freguesia vai chegando, ele vai pondo mesas e cadeiras na calçada e no meio da rua. “Aqui fuma quem quer, dentro da lei”, diz ele.

Vezes sem conta os dependentes de nicotina são roubados de uma conversa, de uma paquera, de uma dança, de uma reunião, de um trabalho, de uma decisão, porque têm de ir lá fora fumar. Já há empresas que excluem fumantes, porque dez saidinhas para o fumódromo somam trinta minutos de trabalho perdidos; vinte saídas, uma hora.

Pessoas de dinheiro ou de carreira já não fumam, não se permitem essa exclusão momentânea, em que podem perder algo importante. Fumar está se tornando vício dos pobres, de operários da construção civil, porque na obra é permitido fumar, de pessoas nos pontos dos ônibus, de moradores de rua e de estudantes da PUC. Como, estudantes da PUC? É que eles preferem a pose retrô, a atitude, a onda da turma.

Olho com incompreensão e pena os dissabores dos remediados excluídos. Que coisa é essa que os leva a deixar o ambiente aquecido de um bar, a conversa dos amigos, a mão quentinha da amada e encarar os ventos gelados lá de fora? Fraqueza? Dependência? Resistência? Ansiedade? São heróis ou pobres figuras? Vítimas? Por que não renunciam ao fumo e acabam logo com o sacrifício? Difícil compreendê-los.

Fonte: VEJA SÃO PAULO