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Estrangeiros sem teto: Kiyoshi Ishimaru

Aos 79 anos, o japonês da acorda todos os dias às 5 da manhã para vender produtos de limpeza de porta em porta

Por: Claudia Jordão

Estrangeiros sem Teto - kiyoshi  2267
"Recebi uma triste notícia em 2002, quando soube que tinha levado um golpe do meu contador. Ele não havia fechado a minha fábrica de detergente nem pago os impostos necessários. Embolsou o dinheiro todo e sumiu" (Foto: Fernando Moraes)

"Quando terminou meu contrato de trabalho numa lavoura em São Joaquim, Santa Catarina, eu não quis voltar ao Japão. Havia chegado ao Brasil sozinho, aos 22 anos, em 8 de novembro de 1955. Deixei a província de Yamaguchi, onde nasci, peguei um navio e desembarquei em Santos. Eu e um amigo resolvemos juntar as nossas economias e investir em dois negócios: uma fábrica de detergente em Santo Amaro, aqui na cidade, e um sítio para policultura em Santo Antônio da Platina, no norte do Paraná. Enquanto eu trabalhava em São Paulo, meu sócio ficava no sul. Todo o dinheiro da fábrica ia para o campo. Na década de 80, com a propriedade ampliada, meu parceiro começou a ter dificuldade para dar conta sozinho de tudo por lá. Coincidiu com a época em que perdi a namorada, que morreu num acidente de carro. Depois disso, vendi a empresa e me mudei para o Paraná.

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Tudo ia bem, até que o Plano Collor bloqueou as nossas economias. Naquele tempo, tínhamos 300 alqueires e sessenta funcionários. Peguei um empréstimo atrás do outro para tentar manter os negócios, mas acabamos quebrando. Voltei para São Paulo em 2000, aluguei uma casa no bairro da Aclimação e comecei a vender produtos de limpeza. Dois anos depois, a situação piorou ainda mais. Soube que havia levado um golpe do contador que contratei para fechar minha empresa. Ele embolsou o dinheiro, não pagou os impostos devidos pela firma e sumiu. Fiquei com o nome sujo e uma dívida enorme. Sem dinheiro para manter uma casa, procurei um albergue. Desde então, moro num deles e nunca consegui pagar o que devo. Vivo de uma aposentadoria especial de um salário mínimo e da venda de produtos de limpeza, que me rende cerca de 300 reais por mês. Acordo todos os dias às 5 da manhã, pego o ônibus e vou do Canindé (Zona Norte) para Santo Amaro (Zona Sul), onde bato na porta da minha clientela. Estou economizando para abrir outro negócio. Não tenho queixas do abrigo, mas quero sair daqui logo. A pior parte é ficar só. Nunca me casei e tenho dificuldade de arrumar amigos. Aqui só falam comigo para pedir dinheiro emprestado."

 

Fonte: VEJA SÃO PAULO