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Rogério Flausino, do Jota Quest: “Não me arrependo de nada”

De volta a São Paulo para apresentar o show do novo disco, o vocalista fala sobre a nova apresentação, críticas incômodas e arrependimentos

Por: Luan Flavio Freires

Jota Quest - divulgação - credito Mauricio Nahas
Rogério Flausino (voz), Márcio Buzelin (teclado), Marco Túlio (guitarra), PJ (baixo) e Paulinho Fonseca (bateria): novo show do Jota Quest desembarca neste sábado (12) em Sâo Paulo (Foto: Maurício Nahas)

Os mineiros do Jota Quest se apresentam neste sábado (12) no Citibank Hall. Será a primeira vez que eles mostrarão aos paulistanos o show do disco mais recente, Funky Funky Boom Boom, lançado no ano passado. Com produção de Jerry Barnes, atual baixista do Chic, o trabalho é uma volta ao som fortemente inspirado pelo funk e pela disco music que a banda fazia no início da carreira.

O próprio fundador do Chic, Nile Rodgers, foi responsável por moldar a estética da disco. Ele já trabalhou com David Bowie, Madonna e, mais recentemente, com o Daft Punk, toca em duas das músicas do álbum. Falamos com Rogério Flausino sobre as parcerias, o retorno às origens, as críticas incômodas e os eventuais arrependimentos que aconteceram ao longo da carreira de mais de duas décadas.

O Jota Quest está com um show novo, que tenta soar como as festas que aconteciam nas discotecas dos anos 1980. Como vai ser isso? A gente está tentando trazer o show para a vibe do CD novo. Então a gente vai tocar umas sete ou oito músicas dele e alguns dos hits, os clássicos que têm mais groove: Encontrar Alguém, Na Moral, Já Foi... E temos arranjos novos, estamos trabalhando com o DJ Babey Drew desde o mês passado. Ele já tocou com a Lauryn Hill e com o Chris Brown. A gente criou um monte de textura nova, sampleamos uns clássicos da disco music. A primeira hora do show é como se fosse um set do DJ, uma música atrás da outra, sem parar. A gente já fez no Rio, dia 29, na Fundição Progresso, e foi muito legal. Lá pelo meio a gente dá uma parada e toca umas baladas, aquele momento pra dançar juntinho que tem ter em todo bom baile. Outra coisa legal é que a gente trouxe de volta, depois de muito tempo, metais e backing vocals. O show esquentou pra caramba.

Ao ouvir o disco, a impressão que fica é de que a banda está tentando conciliar a sonoridade mais pop com a do início da carreira, mais voltada para a black music. Era essa a intenção? É bem isso aí. O Jota Quest é uma banda de música pop e a gente teve várias fontes que nos formaram. Nesse disco bateu uma saudade daquele início, ele tem uma aura daquela virada dos anos 70 para os 80. Tem até reggae, que é uma coisa que a gente nunca tinha feito. As letras são leves, feitas para combinar com canções para dançar. Eu deixei as minhas inquietações de lado dessa vez. Queria comemorar a vida, esse planeta já está cheio de merda, a ideia era dar uma arejada. O último, La Plata (2008), era bem engajado, falava de grana. No novo a gente quis mudar o caminho, se divertir.

Como foi trabalhar com o Nile Rodgers? Foi um presentão. É o nosso mestre. A gente havia feito um contato com ele aqui no Brasil mesmo, muito antes dessa história do Daft Punk [Rodgers está presente em canções do disco mais recente da dupla, Random Access Memories (2013)]. Também conhecemos o Jerry [Barnes, atual baixista do Chic], que virou o produtor do disco. Foi ele que fez essa ponte, com muita naturalidade. Ele estava com as fitas e, como convive com o Nile na estrada e no estúdio, as mostrou para ele. Disse: “pô, aqueles meninos do Brasil são seus fãs” e ele topou. É daqueles momentos que fazem tudo valer a pena.

Você se incomoda com as críticas ou procura nem lê-las? A gente sabe da importância que a crítica especializada tem na carreira de um artista. Claro que a gente se preocupa. A gente quer encontrar caminhos nessas críticas. De vez em quando a gente lê coisas que são absurdas e tenta se colocar no lugar do cara que escreveu, imaginar que som ele gosta de ouvir, quantos anos ele tem, o que ele sabe da história do Jota Quest ou se nem sabe, se tem algum ranço antigo... Nós já estamos aí há muito tempo, é natural que existam desacordos no meio do caminho.

O que você leu que te deixou mais nervoso? De repente você faz um disco black, de volta às raízes, produzido pelo Jerry Barnes, compõe um monte de música maneira, super bem gravado, bem mixado, um monte de gente falando bem. Aí o cara escreve uma crítica e vai música por música, uma a uma, detonando, sacou? O cara se deu a esse trabalho, de achar um adjetivo para cada uma delas? Isso me parece uma coisa pessoal, definitivamente.

Você se arrepende de alguma coisa depois desses vinte anos? Não, não. Erros são naturais quando se está na guerra. Se você está no jogo, corre o risco de perder uma partida. Futebol é uma caixinha de surpresas. O Jota Quest conseguiu vencer todas as dificuldades que se apresentam durante uma carreira. Claro que, olhando para trás, você pode pensar em uma coisa ou outra que você faria diferente. Eu faria tudo de novo. Até as perucas, me vestir de macaco [risos].

Até o comercial da Fanta, pelo qual vocês foram tão criticados? Até isso. Pô! Esse comercial abriu espaço pra gente, como outras campanhas que a gente faz. Todo mundo sabe que é difícil tocar uma carreira sem apoio, seja ele de uma gravadora ou da iniciativa privada. Muitos colegas, inclusive alguns dos que nos criticaram, fizeram ações publicitárias e viram que uma coisa não tem nada a ver com a outra. O nosso trabalho nunca foi engajado, contra o sistema. Somos uma banda pop.

Fonte: VEJA SÃO PAULO