Crime

Em Alphaville, Elk Alves da Silva mata os três filhos e se suicida

A ex-mulher e mãe das crianças diz que perdeu a família por ter amado demais o assassino, um empresário do ramo imobiliário

Por: Sandra Soares e Marcella Centofanti - Atualizado em

A porta de um dos três quartos do apartamento da família Silva, em Alphaville, traz uma mensagem escrita a mão: "Never lose hope" ("Nunca perca a esperança"). A frase foi copiada a caneta por Karoline, de 16 anos. Era constantemente repetida pela adolescente, que há seis anos convivia com as brigas e as agressões entre o pai e a mãe. Em sua página no Orkut, site de relacionamentos da internet, ela se definia como "uma pessoa à espera da felicidade" e dizia também estar "cansada dessa vida". Na madrugada de sexta-feira (18), a esperança em dias melhores teve fim. Karoline e os irmãos Elk Júnior, 15, e Derek, 5, foram assassinados pelo pai, o empresário do ramo imobiliário Elk Alves da Silva, de 66 anos. Ele atirou na cabeça dos filhos enquanto dormiam – a polícia acredita que os três tenham sido dopados com calmantes misturados a brigadeiro – e depois se suicidou usando a mesma pistola Taurus calibre 380. Karoline foi encontrada em um colchão na sala, deitada de lado e com as mãos sob o rosto. "Sua expressão era serena", descreve o delegado Luis Roberto Hellmeister, da Delegacia de Santana do Parnaíba, responsável pelo inquérito sobre o crime. Elk Júnior, o Juninho, estava próximo dela, no chão, de bruços. A posição indica que teria acordado com o disparo que matou a irmã e tentado correr. Ele foi atingido nas costas antes de receber o tiro na cabeça. Em seguida, foi baleado o caçula, conhecido pelos amiguinhos como Dedé. O pai e o menino foram achados na cama de casal. Ao lado do corpo de Elk, uma carta tentava explicar o motivo da barbárie já no título, grafado em letras maiúsculas: O DESESPERO MUDOU A MINHA VIDA. No texto, o empresário reclama que estaria sendo lesado na venda de uns terrenos que teria na região. "Pagaram abaixo do mercado", escreveu. Em seguida, deixa claro que viveu em união estável com a costureira Maria de Fátima Diogo, 41 anos, sua segunda mulher e mãe dos três menores mortos. Os dois não oficializaram o casamento. "Ela tem os mesmos direitos que eu, ou seja, 10 000 metros quadrados em lotes e 1 milhão de reais em dinheiro." Apaixonado por corridas de carro, encerra a carta com uma queixa direcionada aos pilotos do automobilismo brasileiro: "Os que venceram não fazem nada pelos novos talentos". Amigos da família contam que nos últimos seis meses Elk passava os dias trancado no quarto assistindo a fitas de vídeo com imagens de Ayrton Senna. Ele andava deprimido e cada vez mais mergulhado na obsessão de tentar transformar Juninho, o filho mais velho, em um campeão do esporte. Falava em se mudar com o adolescente para a Inglaterra, onde acreditava que ele poderia seguir carreira. "Elk sempre fez planos de ser rico e famoso", diz um ex-vizinho. Até o fim do ano passado, ele gastava cerca de 5 000 reais por mês para custear as despesas de Juninho com o kart e angustiava-se com a perspectiva de o filho vir a abandonar as pistas por falta de dinheiro. Mas no início deste ano a equipe da qual o garoto fazia parte, ligada ao kartódromo da Granja Viana, conseguiu um patrocínio. Juninho, dedicado nos treinos, era considerado talentoso. "Ele estava entre os seis melhores pilotos da região", afirma o preparador da equipe, Marcelo Felipe. "O pai sempre foi estourado e arrogante. Entendia de kart e não aceitava as decisões do time." Na noite em que os irmãos foram mortos no apartamento em camas improvisadas na sala, o beliche que deveriam dividir no quarto estava coberto pelos troféus ganhos por Juninho durante os nove anos em que participou de competições. Em um armário, a polícia encontrou três armas de fogo e uma maleta trancada, cheia de fotos do piloto mirim. "Ela estava tão pesada que achamos que havia mais revólveres dentro", diz o delegado Hellmeister. "Das outras crianças não encontramos muitos retratos." A preferência de Elk por Elk Júnior era assumida e provocava desentendimentos entre ele e Fátima. "Elk costumava dizer que a Karol era só minha filha e o Ju, só dele", conta Fátima. "Dava tudo o que o menino pedia e para ela, nada." Professores da Fundação Instituto de Educação de Barueri (Fieb), onde Karoline e Juninho estudavam, revelam que a garota tinha poucos amigos e vez ou outra chorava pelos corredores. O empresário sempre quis um filho homem, mas só aos 51 anos realizou esse sonho, depois de ser pai de cinco meninas. Além de Karoline, ele teve outras quatro filhas com a primeira mulher, Magali Hassun, com quem ficou casado por quase vinte anos. As amigas de Fátima descrevem Elk como machista. "Sempre falou mal das mulheres e tratava a Fátima como um cachorro", afirma Silvia Lucia do Nascimento, que conviveu com o casal desde o fim dos anos 80. "Reclamava, na frente das pessoas, que ela não tinha berço e estava acima do peso. "As brigas entre os dois eram bastante comentadas, barulhentas e, nos últimos tempos, documentadas em boletins de ocorrência na Delegacia de Santana do Parnaíba. De 2003 para cá, foram registrados pelo menos dois B.O.s dele contra ela e outros dois dela contra ele. Em um, Elk acusava Fátima de estar há 24 horas desaparecida com o caçula. Em outro, ela se queixa de que o marido havia batido em sua cabeça a ponto de fazê-la desmaiar. Juntos desde 1988, Elk e Fátima passaram a se desentender seis anos atrás, quando os problemas financeiros dele começaram. Ele foi um dos primeiros construtores de Alphaville, onde passou a atuar no fim dos anos 70. Seu trabalho consistia em comprar propriedades, regularizá-las e negociá-las. Quando o mercado ficou mais concorrido, ele viu seus rendimentos diminuir pouco a pouco. Dona de um ateliê que fornece cortinas e almofadas a lojas de decoração – com três funcionários e faturamento de cerca de 6 000 reais por mês –, Fátima acabou assumindo as despesas da casa nos últimos dois anos. Ela e Elk brigavam por causa de dinheiro e por discordarem em relação à educação dos filhos. Apesar de ser constantemente agredida pelo marido e até ameaçada de morte (veja entrevista abaixo), a costureira continuava casada com ele, numa relação de amor e ódio, cheia de idas e vindas. "Houve épocas em que moramos separados, mas nunca deixamos de conviver", diz ela. "Eu sabia que o Elk passava por um período de depressão, mas acreditava que as coisas melhorariam." Nas fases em que o casal morou em endereços diferentes, Karoline, Juninho e Derek ficaram com o pai. Fátima levava uma vida nômade, dormia na casa de amigas ou em seu ateliê, mas freqüentava o apartamento da família. Cerca de quatro anos atrás, ela chegou a montar uma casa, também em Santana do Parnaíba, que Elk mandou destelhar para obrigá-la a sair de lá. "Ele dizia que se fosse privado de conviver com os filhos sofreria muito", conta ela. "Falava que estava velho, que ia durar pouco e que eu teria a vida toda para ficar com as crianças. Por amor, eu permitia que elas morassem com ele." Há três meses, a costureira insistiu na separação e arranjou um namorado. Elk parecia aceitar bem a situação. Ele próprio vinha se relacionando com uma ex-namorada. Na quarta-feira, dois dias antes do crime, o empresário esteve na casa dessa mulher, Janete, e saiu fazendo planos de apresentar-lhe Karoline na semana seguinte. Na semana retrasada, ele comprou um uniforme para o pequeno Derek, que acabara de ser matriculado em uma escolinha de Alphaville. Na segunda-feira, dia em que Dedé teria sua primeira aula, Fátima, cercada por amigas e parentes, relembrava os últimos momentos dos filhos, enterrados no domingo em um cemitério distante daquele em que foi sepultado o pai. Chorando muito, e sempre com um terço nas mãos, a costureira fazia planos de montar um orfanato, que pretende batizar de Três Anjos. "Quero ser chamada de mãe e dar todo o meu amor às crianças que necessitam", afirma. "Rezo para que esse projeto dê certo e para que meus filhos apareçam em sonhos para conversar comigo." No domingo (20), ao enterrar os três filhos mortos pelo ex-marido, a costureira Maria de Fátima Diogo causou espanto ao pedir que se rezasse uma Ave-Maria pelo assassino. No dia seguinte, concedeu à repórter Sandra Soares a seguinte entrevista. Veja São Paulo – Por que você pediu uma oração ao homem que matou os seus filhos? Maria de Fátima – Eu amava esse homem. Se eu tivesse amado menos, teria tirado as crianças dele. A verdade é que eu nunca tive amor-próprio. Se eu gostasse de mim não teria permitido que ele fizesse tudo o que fez comigo. Veja São Paulo – Ele batia em você? Maria de Fátima – A gente brigava muito. Houve ocasiões em que ele me bateu na cabeça, dizendo que assim não deixaria marcas. Mas as agressões eram mais psicológicas do que físicas. Ele falava que eu parecia um colchão amarrado no meio, que minha pele era manchada e que eu não tinha educação. Costumava dizer que, se eu arrumasse um homem, daria um dote para a pessoa. Veja São Paulo – O que provocava as brigas? Maria de Fátima – Tudo. Às vezes eram motivos banais. Ele andava deprimido e descontava na família. Veja São Paulo – Mas mesmo em meio a tantos desentendimentos vocês tiveram mais um filho... Maria de Fátima – Sim. A gente se separava e voltava. Nunca deixamos de conviver por causa das crianças. Quando contei que estava grávida do Dedé, ele falou que o filho não era dele e pediu que eu abortasse. Durante os nove meses de gravidez quem acariciou a minha barriga foi a Karoline. O Elk se recusava a tocar em mim. Veja São Paulo – Nesse período de crise no casamento você namorou outras pessoas? Maria de Fátima – Há três meses, depois que o Elk se esqueceu do meu aniversário e chegou em casa me pedindo dinheiro, eu resolvi dar um basta e insisti na separação. Aí comecei a me relacionar com um outro homem. Veja São Paulo – O Elk foi um bom pai? Maria de Fátima – Sim. Mas foi melhor para o Juninho do que para a Karol. Dava tudo o que ele queria, mas, se presenteava a menina, depois tomava o presente de volta. O Elk sempre tratou mal as mulheres. Quando brigava com a Karol, dizia que o destino dela estava traçado: ela viraria prostituta ou engravidaria de um homem qualquer.

Fonte: VEJA SÃO PAULO