Fogo e paixão

Conheça as histórias de dez sucessos do brega

Cantores como Wando e Agnaldo Batista inspiraram o filme “Vou Rifar Meu Coração”, que estreia nesta sexta (3)

Por: Tiago Faria

Vou Rifar Meu Coração
'Vou Rifar Meu Coração': documentário viaja pela música romântica brasileira (Foto: Divulgação)

No documentário “Vou Rifar Meu Coração”, pessoas comuns contam histórias de amor, traição, ciúme e sexo. Acima de todas essas narrativas, paira um personagem invisível: a música “cafona”, eixo do longa-metragem que estreia nesta sexta (3).

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Canções de ídolos populares como Wando, Waldick Soriano, Lindomar Castilho e Odair José embalam as cenas do longa-metragem, exibido na competição do Festival de Brasília de 2012. No tela, a diretora Ana Rieper mostra como as músicas se relacionam com o dia a dia de seus fãs.

A ideia para a produção surgiu enquanto Ana desenvolvia uma pesquisa antropológica com famílias de ribeirinhos do rio São Francisco, no sertão de Sergipe e de Alagoas. Ela passou a identificar, a partir daí, a força do brega no cotidiano da população. Os versos diretos e desinibidos, segundo a diretora, espelhavam a intimidade e a vida sexual de famílias aparentemente conservadoras.

O filme destaca a experiência dos fãs. A seguir, conheça curiosidades sobre os dez sucessos populares que estão entre os preferidos desses personagens. 

“Os Brutos Também Amam”, de Agnaldo Timóteo

O cantor de Caratinga, Minas Gerais, fez sucesso em 1967 com a canção “Meu Grito”, escrita por Roberto Carlos. A parceria se repetiu outras vezes nos anos 70. Mas não com tanto apelo popular como em “Os Brutos Também Amam”, que deu nome a um disco de 1972. Para inspirar o Rei, Timóteo contou a história real de uma mulher que o xingava de bruto e ignorante. Funcionou.

Trecho: “Minhas lágrimas reclamam/Elas dizem no meu pranto/Que os brutos também amam”

“Cadeira de Rodas”, de Fernando Mendes

A ideia para letra, sobre o amor platônico entre um rapaz tímido e uma moça paralítica, surgiu em 1974, durante um show do cantor mineiro em Vitória da Conquista, interior da Bahia. Do palco, Mendes viu uma fã pré-adolescente sentada em uma cadeira de rodas e ficou impressionado pela alegria da menina. No hotel, logo após a apresentação, convocou o compositor José Wilson e, naquela mesma noite, a música ficou pronta.

Trecho: “Aquela menina em sua cadeira de rodas/Tudo eu daria pra ver novamente sorrir”

“Eu Não Sou Cachorro, Não”, de Waldick Soriano

O baiano de Caetité escreveu a canção numa noite de 1972, pouco depois de ter chegado a Natal, no Rio Grande do Norte, para uma série de shows. Durante a escala em Recife, houve um longo atraso. Quando finalmente desembarcou, Waldick foi recebido pelo empresário Winston de Oliveira com um comentário irônico: “Estou até agora lhe esperando. Eu não sou cachorro, não, rapaz!”. No trajeto entre o aeroporto e a casa de Winston, o cantor começou a escrever os versos do bolero. Lançado em outubro daquele ano, o disco se tornou o maior sucesso de sua carreira.

Trecho: “Eu não sou cachorro, não/Pra viver tão humilhado/Eu não sou cachorro, não/Para ser tão desprezado”

“Eu Vou Tirar Você Desse Lugar”, de Odair José

O hit foi criado enquanto Odair caminhava entre o estúdio da CBS, na Visconde do Rio Branco, e a casa onde morava, na Rua do Riachuelo, no Rio de Janeiro. Nos versos, imagina a história de amor entre um homem comum e uma prostituta. Em entrevista à revista “Showbizz”, o cantor afirmou que o produtor Rossini Pinto não ficou satisfeito com a ideia: “Estou te dando uma oportunidade e você me vem com uma música de prostituta!”, reclamou. “Você vê o que o Roberto Carlos faz? Beijo no cinema, deixa a garota no portão, eu te darei o céu!” Ainda assim, a música de 1972 se tornou um dos maiores hits do goiano de Morrinhos.

Trecho: “Eu vou tirar você desse lugar/Eu vou levar você pra ficar comigo/E não me interessa o que os outros vão pensar”

“Fogo e Paixão”, de Wando

Uma das músicas preferidas do mineiro, morto em fevereiro de 2012, é uma homenagem à ex-mulher Rose, com quem foi casado por 13 anos. Wando contava que eles haviam escrito a canção juntos, em 1985.

Trecho: “Você é luz/É raio, estrela e luar/Manhã de sol/Meu Iaiá, meu ioiô”

“Garçom”, de Reginaldo Rossi

O maior sucesso do pernambucano não provocou estrondo quando foi gravado, em 1987. Mas, no fim dos anos 90, principalmente no sul do país, virou fenômeno. Nos shows, Rossi conta uma história (real?) sobre a criação da música: “Eu era um cabra safado, vivia chifrando a minha mulher. Um dia, cheguei em casa e vi que ela estava com outro. Saí pro bar, pra beber e chorar, e o garçom pediu para que eu fizesse uma música”. Veja o vídeo com a história.

Trecho: “Quero tomar todas/Vou me embriagar/Se eu pegar no sono/Me deite no chão”

“Se Eu Pudesse Conversar com Deus”, de Nelson Ned

Uma mulher chamada Betinha inspirou o “pequeno gigante da canção” a compor uma de suas faixas mais conhecidas. “Ela tinha uma gordini verde e andava pelas noites de São Paulo. Então eu coloquei na minha cabeça: vou ganhar essa menina”, contou, no livro “Eu Não Sou Cachorro, Não”. Depois de levar Nelson para um passeio de carro, no entanto, Betinha o abandonou. Na noite seguinte, ainda inconformado, compôs a música.

Trecho: “Perdi meu tempo aprendendo amar/Alguém que nunca soube o que é o amor”

“Tudo Passará”, de Nelson Ned

Uma das músicas mais populares de Ned salvou o cantor de um desastre comercial. O primeiro LP, lançado pela Philips, não fez sucesso. Em 1969, ele insistiu e, com um compacto com duas músicas, pelo selo Copacabana, acertou.

Trecho: “Só se encontra a felicidade/Quando se entrega o coração”

“(Uma Vida Só) Pare de Tomar a Pílula”, de Odair José

Uma sugestão do locutor Carlos Guarani, que trabalhava como diretor artístico da Rádio Globo, instigou Odair José a pensar numa música sobre a polêmica da pílula anticoncepcional, tema que ainda era tratado como tabu no início dos anos 70. O compositor levou seis meses para arrematar a letra, escrita depois de um encontro de bar com Tom Jobim, em março de 1973. Fenômeno na rádios, foi proibida pela censura nos governos dos generais Médici e Geisel, e liberada apenas em 1979.

“Vou Rifar Meu Coração”, de Lindomar Castilho

A canção que dá nome ao documentário de Ana Rieper foi gravada em 1973 e iniciou a “invasão latina” do cantor de “Você É Doida Demais”: só no México, ganhou mais de 50 versões. O compacto mexicano “Voy a Rifar Mi Corazón” vendeu 78 mil cópias na semana de lançamento. Em março de 1981, o cantor matou a ex-mulher Eliane de Grammont com cinco tiros. Foi condenado a doze anos de prisão.

Fontes: o livro “Eu Não Sou Cachorro, Não”, de Paulo César Araújo (editora Record), o site Música Popular do Brasil (musicapopulardobrasil.blogspot.com) e o filme “Vou Rifar Meu Coração”.

Fonte: VEJA SÃO PAULO