Crônica

Drama: casal no limite

Por: Ivan Angelo - Atualizado em

Crônica: casal no limite
(Foto: Divulgação)

Percebo teu olhar me estudando, de través, de revés, de viés.

Que procuras? A chama? Aquele perder-se, aconteça o que acontecer? Aquele dane-se? A ideia de que mesmo que tudo desse certo a gente poderia se ferrar, mas não ia voltar atrás?

Procuras a verdade? Saber se por trás da incapacidade masculina de dizer eu te amo existe apenas a falta de jeito de dizer eu te amo ou é mesmo falta de amor?

Rugas? É isso que procuras? As novas rugas que rivalizam com as antigas, ou as recentes que afluem para elas? Estão mais fundas, sei, percebo, e atraem companheiras, amigas aventureiras que mais longe vão.

A beleza? Sim, ela se furta aos olhos, mas não às lembranças. A tua, a nossa beleza é apenas uma fotografia na parede. Dói?

Percebo teu olhar me investigando, de revés, de viés, de través.

É a barriga? Que novas te conta ela? Ainda se sente a paredemusculosa que absorvia golpes? Está mais fria? Mau sinal, indício de que outra parede sob a pele — toucinho, pensas— impede que o sangue mais quente chegue à superfície, como chegava à tua mão.

Buscas pintas, manchas? Não aquelas que nos acompanham a vida inteira, desde que nascemos, a seu tempo charmosas, endereço de beijos, mas aquelas outras, fabricadas ao sol das nossas atribulações ou das nossas relaxações, perigosas, carcinogênicas?

Estuda teu olhar o meu olhar? Esconde algo o meu do teu, o teu do meu? Quando aprenderam a fugir esses dois pares que antes se buscavam, indiscretos numa época, famintos noutra?

Percebo teu olhar me examinando, de viés, de revés, de través.

Sentes a falta de mais cabelos? Estão mais finos, sem volume, sem brilho? Rareiam? Lamentas isso ou saboreias?

Que buscas, com tanta minúcia? Pelos brancos entre os pretos, ou pretos entre os brancos?

Conferes, comparas? Esperavas mais rapidez ao me levantar? Mais pulso ao amparar tuas quedas? Mais agilidade nas escadas?

Notas como crescem mais longos do que antes os pelos nas narinas, nos ouvidos, nas sobrancelhas? É isso que te aguça o olhar avaliador, também isso?

Buscas sinais de beijos, de outros beijos? De manchas, de cosméticos, de secreções, de salivas, de desalinho? Procuras lábios areolados e entumecidos pela faina de beijar? Suspeitas de outros beijares, olhares, falares?

É aquele sorriso antigo que teu olhar reclama, aquele humor, perdido humor? Como se a vida prazerosa dependesse dele e não ele da vida prazerosa?

Percebo teu olhar me interrogando, atravessado, enviesado, arrevesado.

Pena, será? Achas que escondo doença grave e te preparas para o sacrifício da participação? Ou suspeitas de uma doença suja e ensaias teu asco?

O contrário? Supões-te doente e me recriminas por não perceber, não me preocupar com sinais, como outrora, não atentar para uma tosse, um tremor, uma palidez?

Ou passou alguma data, teu aniversário, nosso aniversário, bodas de alguma prata, de pérolas, o que seja, e simplesmente esqueci?

Buscas sinais de dissipação? Pele lassa, olheiras, flacidez, hálito de álcool? É isso que esquadrinhas com olhos inquisidores?

Descobriste algum bilhete, quebraste o sigilo do meu Face, estou no YouTube, interceptaste meus emails, vasculhaste o saldo bancário, recebeste carta anônima, suspeitas, se não te procuro, que virei gay; tens um amante, uma amante, e te assustas; queres o divórcio, é isso, o divórcio?

É cobrança? Dúvida? Inquietação? Rancor? É tudo isso junto?

Desejo, que já não sei interpretar?

Desejo? Não! Será?!

Fonte: VEJA SÃO PAULO