Crise Hídrica

Chuvas e diminuição do consumo fazem Cantareira sair do sufoco

Sabesp acredita ser possível atravessar o período seco sem voltar ao volume morto

Por: Nataly Costa - Atualizado em

Cantareira crise hídrica
A Represa do Atibainha em 2014... (Foto: LUIS MOURA/ESTADÃO CONTEÚDO)

O início de 2015 foi um período no mínimo inusitado para os paulistanos. Além de enfrentarem o calorão típico da época, eles tiveram de aprender a lidar com a baixa disponibilidade de água onde ela é mais necessária: nos reservatórios que abastecem a capital. Em janeiro do ano passado, o Sistema Cantareira contava com apenas 49 milhões dos 982 milhões de metros cúbicos de água de sua capacidade total. Para piorar, só caiu metade da precipitação esperada, de 271 milímetros. A boa notícia é que a situação melhorou bastante de lá para cá. O manancial, que atende 5,3 milhões de pessoas na região metropolitana, está com um volume cinco vezes maior do que no mesmo período do ano passado. Além disso, a primeira semana de 2016 teve o dobro da chuva registrada nos primeiros dias de 2015. O resultado é que, após permanecer dezenove meses no volume morto, o Cantareira voltou a operar no azul. Na quarta-feira (6), tinha 31,6% de sua capacidade — desses, 2,4% já são “volume vivo”, ou seja, água que não precisa ser captada da reserva localizada no fundo das represas.

Cantareira crise hídrica
e na semana passada: saindo do sufoco (Foto: LUIS MOURA/ESTADÃO CONTEÚDO)

Para especialistas, o alívio (ainda que modesto) da crise hídrica tem duas explicações. A primeira vai para a conta de São Pedro, que, na reta final de 2015, resolveu colaborar. De acordo com o Climatempo, São Paulo teve o novembro mais chuvoso em 37 anos. Foram 196 milímetros só na região do Cantareira, 23% acima do esperado. A precipitação extrapolou a média também em dezembro, com 259 milímetros. Para se ter uma ideia, não chovia tanto desde dezembro de 2009, mês marcado pelas fortes enxurradas que deixaram 23 mortos no estado. A segunda explicação é técnica: hoje, a Agência Nacional de Águas permite que a Sabesp retire do Cantareira apenas 15 metros cúbicos de água por segundo. Antes da crise, essa captação chegava a 30 metros cúbicos por segundo. "É uma simples questão matemática: entrou mais água e gastamos menos", explica o professor Pedro Côrtes, especialista em gestão de recursos hídricos da USP. Também pesa nessa balança a economia feita por 70% dos moradores da região metropolitana, que representou uma poupança de 16 milhões de litros de água em novembro. O volume seria suficiente para abastecer Campinas, Santos e Sorocaba, juntas.

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Computando-se essas variáveis importantes,o prognóstico para os próximos meses é mais animador. Se o ritmo de retomada se mantiver, o Cantareira poderá chegar ao fim do verão com 500 bilhões de litros de água, patamar que não alcança há dois anos. Segundo a Sabesp, seria possível ao manancial até mesmo enfrentar o período seco, entre abril e agosto, sem voltar ao volume morto.

Cantareira crise hídrica
Obras para levar água ao Alto Tietê: mais 4 metros cúbicos de água por segundo (Foto: LUIS MOURA/ESTADÃO CONTEÚDO)

Mesmo com as recentes melhoras no cenário, nada muda na política de redução de pressão, que tem ocasionado a falta de água em pontos da cidade. "Esse trabalho será mantido enquanto o nível do Cantareira estiver em recuperação", informou acompanhia em nota. O alívio momentâneo também não anima alguns especialistas. Para eles, a bonança é passageira. "Estamos sob o efeito de um fenômeno associadoao El Niñp, que traz chuva acima da média a cada dez anos", diz a meteorologista Bianca Lobo, da Climatempo. "Mas há indicativos de que esse mesmo processo trará anomalias negativas e um verão mais seco na temporada 2016/2017". 

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Além disso, é preciso considerar os percalços enfrentados pelo governo estadual nas suas principais ações para minimizaros efeitos da crise. Há seis meses, foi inaugurada uma obra para transferir 1 000 litros de água por segundo do Rio Guaió ao Sistema Alto Tietê, que atende 5 milhões de moradores da Grande SãoPaulo. Em agosto, porém, descobriu-se que o rio estava seco. Hoje, o investimento de 29 milhões de reais capta apenas 450 litros de água por segundo (há a promessa de funcionamento pleno ainda para este mês). A interligação com a Represa Billings, que adiciona 4 000 litros por segundo à capacidade do sistema,também enfrentou problemas semelhantes.De acordo com o governo, ela encontra-se hoje em operação plena. "O cenário é mais favorável, mas ainda é cedo para decretar o fim da crise", afirma Pedro Côrtes.

Fonte: VEJA SÃO PAULO