Comportamento

Conheça os centros de tradições gaúchas e nordestinas

Bateu vontade de tomar chimarrão? E de dançar forró?

Por: Maria Paola de Salvo - Atualizado em

Na região metropolitana de São Paulo, pouco mais de 40 quilômetros separam o Rio Grande do Sul do Nordeste. Para dançar vanerão em um fandango no Centro de Tradições Gaúchas (CTG) União e Tradição, em Embu, e, na mesma noite, curtir um forró no Centro de Tradições Nordestinas (CTN), no bairro do Limão, basta viajar uma hora de carro. Pontos de encontro de migrantes que vivem por aqui, esses locais permitem apreciar músicas e danças típicas, além de matar a saudade de comidas difíceis de encontrar fora de seus estados de origem. Tanto no centro de tradições nordestinas quanto no gaúcho, quem nunca saiu de São Paulo pode imaginar que está no estrangeiro: os costumes, os trajes e o vocabulário mudam. Apesar de guetos regionais, ambos estão abertos a qualquer brasileiro radicado na cidade e oferecem boas atrações gastronômicas e culturais mesmo para os paulistanos mais bairristas. No CTG, a impressão é que falta apenas o vento minuano soprando lá dentro para completar o cenário. O galpão onde se realizam os bailes lembra um rancho de fazenda. Até as placas de indicação são um tanto obscuras para os não iniciados. Elas apontam ao bolicho (bar) e ao banheiro de peão e de prenda (homem e mulher, em gauchês). Convidados costumam chegar a caráter, vestindo a pilcha. As prendas exibem modelos bordados e recatados. Já os peões rodam pelo salão com bombachas, lenços e botas. Decote, bermuda e minissaia são vetados. Quem não está "pilchado" se sente um peixe fora d'água, mas podem-se alugar ali mesmo roupas adequadas por cerca de 20 reais. "Os CTGs foram criados para preservar a tradição gaúcha", explica o patrão, ou presidente, do centro, o paranaense Max Bruno Hiendlmayer, que fundou, em 1996, o União e Tradição com outras 72 famílias, entre elas paulistas, cariocas e japonesas. Sim, não se vê por lá só gente do Rio Grande do Sul. "O gauchismo é um estado de espírito", afirma o advogado paulista Reinaldo Lima. A catarinense Taize Zanco Barbosa que o diga. Passou a adolescência no CTG, onde batizou o filho, Lucas Schreiner, de 1 ano. "Dancei vários bailes com ele na barriga", conta. Não faltam nem cearenses que tomaram gosto pelas danças folclóricas. Caso do padre José Donizetti Rolim, de Juazeiro do Norte, que não perde um fandango. Profissionais liberais e empresários rodopiam ao som de bandas como Os Monarcas. "São os Rolling Stones dos tradicionalistas", diz o economista José Camilo Pegoraro, com um chimarrão na mão. Bem perto dele, Ademir Perin, sócio da churrascaria Jardineira Grill, arrisca alguns passos. "Vou mais ao CTG aqui do que quando morava no Rio Grande do Sul", afirma ele, que nasceu na cidade de Encantado. Essa paixão pela tradição não é algo exclusivo de homens e mulheres mais velhos. Em sua maioria, os que dançam o maçanico e o anu são jovens. A estudante de publicidade Patrícia Aguena, de 20 anos, não pára um minuto. "Vou a baladas, mas prefiro o clima do CTG." Há um código para a paquera. Peões solteiros usam lenço desamarrado no pescoço, e as prendas sem compromisso colocam flores do lado esquerdo do cabelo. A noite é longa e termina apenas quando os músicos param de tocar, por volta das 4 horas. É o sinal para avançar na mesa de café colonial, forrada de tortas e pães. Esse banquete matinal teria surgido para aplacar a bebedeira dos tropeiros na saída dos bailes. Não é à toa que, nas manhãs de domingo, a gauchada – de várias partes do Brasil – fica ansiosa pelas iguarias. No CTN, o clima de festa é bem parecido. Alguns garçons usam chapéu de coco e deixam escapar um "sim, meu rei" quando estão diante dos clientes. Num barracão de 27 000 metros quadrados, cerca de 8 000 pessoas se espremem a cada sábado ou domingo para ver de perto as dançarinas de bandas de forró dentro de minúsculas minissaias. Dificilmente se encontra alguém com trajes regionais no meio da pista. Cada um se diverte à sua moda. É para lá que vão os nordestinos – cerca de 70% dos migrantes da capital – quando querem encontrar os amigos perdidos na cidade. A entrada é gratuita e o galpão chega a receber 100 000 freqüentadores todo mês. Zelador de um prédio da Avenida Angélica, o alagoano José Zito Ferreira diz ter reencontrado numa dessas comemorações um colega que não via fazia dez anos. Dono de uma barraca de comidas de seu estado, o cearense Vicente da Silva também já cruzou com parentes. As bandas Aviões do Forró e Calcinha Preta são as que mais fazem sucesso. Quem quer fugir dos shows encontra opções no parque de diversões. Ou então pode ir até a capela para fazer um pedido ou agradecimento aos pés de imagens de Frei Damião e de Padre Cícero, cultuados como santos populares no Nordeste. O prato que mais se vê nas mesas é o baião-de-dois, que leva arroz, feijão-de-corda e queijo de coalho. No box 32, a porção serve até quatro pessoas e custa 23 reais. "Aos domingos, gastamos 100 quilos de arroz para preparar o prato", garante o proprietário Fernando Dantas de Lima, de Natal, no Rio Grande do Norte. "É o melhor baião da cidade", afirma o paraibano João Rogério Silva, gerente do restaurante Ruella, comandado pela chef pernambucana Danielle Dahoui, que costuma ir sempre ao CTN. "A galinha de cabidela é imperdível", diz ela, que recomenda ainda o licor de pequi.

Fonte: VEJA SÃO PAULO