Crônica

Casa de espetáculos

Por: Ivan Angelo - Atualizado em

Crônica 2255
(Foto: Veja São Paulo)

Há algum tempo escrevi um conto fabuloso em que é criada uma grande prisão de paredes de vidro transparente. A intenção das autoridades era fazer com que os de fora assistissem ao que se passava lá dentro, 24 horas por dia, movidos pela curiosidade ou pela morbidez. Grande quantidade de curiosos se aglomerava em volta das paredes de vidro para ver: um interrogatório violento, um prisioneiro usando o banheiro, uma presa desmaiada, uma sessão de tortura, alguém que era retirado da cela e não voltava. A casa de vidro era uma prisão pedagógica: os de fora eram levados a considerar que o melhor era não estar lá dentro, não ser uma daquelas pessoas, não praticar nada que os levasse lá para dentro.

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Não imaginava que, trinta anos depois, haveria uma casa cujo interior se poderia espiar na televisão, também por curiosidade ou morbidez. Que proveito traria aos observadores observar tal casa?

Nas casas comuns ocorrem momentos de grosseria e sexo. Cada vez mais esquecemos a delicadeza e o romance na vida real. A pessoa que acompanha aquelas pessoas estaria procurando confirmar a própria normalidade ao constatar que as criaturas espiadas agem igual a ela, na intimidade? Esquece-se de que é uma intimidade encenada, de que todos os envolvidos sabem das câmeras. Também são comuns na vida real jogos de poder e submissão. E, comparando com espetáculos normalmente aceitos, como novelas, programas de auditório e reportagens policiais, o que se vê em tais casas não é diferente. Qual o proveito, então?

O próprio ato de espiar? Olhar não seria nada interessante se nossas emoções, nossa história, nossa imaginação, nossa libido não participassem do ato de ver. O buraco da fechadura tornou-se simbólico. O tornozelo de uma mulher subindo no bonde há um século ou a calcinha de uma garota na escada rolante do shopping hoje; o engarrafamento de veículos na pista contrária de um acidente de estrada ou o ajuntamento em torno de um bate-boca de rua; um beijo vizinho no escurinho do cinema antigamente ou o “amasso” sob um edredom na televisão hoje capturam nosso olhar — mas pouco significam se a pessoa que olha não alimenta com aquilo algum canto escurinho da alma.

O que se aproveita seria a eleição de rotos heróis? Seria a premiação final de um comportamento que abona indiretamente o comportamento de quem elege? Seria a eliminação dos indesejáveis, operação impossível na vida real?

Perda de tempo, não. Por que seria, se é gosto de quem vê e negócio de quem mostra? Trata-se de entender essa relação, e não de julgar do ponto de vista moral. Tantas relações com os espetáculos parecem incompreensíveis para uns, deleitáveis para outros. Com filmes de horror e de monstros, por exemplo, herdeiros de narrativas milenares que nos deram obras de arte formidáveis. Como acreditar que uma pessoa que perde quatro horas diárias no trânsito de uma metrópole, contra a sua vontade, vai achar perda de tempo ver na televisão, por escolha própria, uma hora de outra esquisita realidade?

Só a alma de cada um saberá o que aproveita nesses encontros do espreitar com o mostrar. O ato de exibir será mais perverso? Certas pessoas “da vida” não se contentam com fazer a vida, exageram no visual, mostram mais do que bastaria. Não é só para serem identificadas e assim atraírem os fregueses. Não. Elas fazem tudo pelo espetáculo.

E-mail: ivan@abril.com.br

 

Fonte: VEJA SÃO PAULO