Crônica

Carta para NY

Por: Ivan Angelo - Atualizado em

Queridíssima, o Carnaval, como espetáculo de televisão, vai mal. Sabe aquele tipo de filme de Rocky, Rambo, Drácula e Sexta-Feira, que vai decaindo a cada novo lançamento? Os atores vão ficando mais derrubados; o enredo, mais apelativo; a música, pior; as cenas, mais repetidas... – sabe? Nas escolas de samba, as alegorias mantêm o nível, mas o resto, a começar pelos sambas... As mulheres, meu Deus, nem todas, mas as rainhas de bateria, as musas das escolas, os destaques – o que é aquilo nas passarelas do samba? Super-coxas, superbumbuns, superseios – quantidade sem qualidade, um exagero de músculos malhados e silicone. Uma delas teve fôlego para dizer que é disso que o povo gosta. Será? Há cerca de um mês desfilavam, em passarela mais grã-fina, as magrelas da São Paulo Fashion Week, também louvadas como modelos de beleza. Será? Um pouco de moderação nas duas passarelas cairia bem.

Fui à Rua 25 de Março comprar material escolar e bobagens de Carnaval para as crianças. Um fervedouro. Gente andando miudinho para não atropelar, ouvindo "um mo--mentinho" das vendedoras. Lá não tem "estou só dando uma olhadinha", porque não dá tempo. Nem os informais têm tempo, sejam cadernos, serpentinas, confetes, máscaras, canetas, mochilas, CDs piratas, guarda-chuvas chineses, programas de computador ou milho cozido o que vendem. A quantidade de gente e repórteres é menor do que na época do Natal, mas ainda assim é preciso andar miudinho. A 25 é o free shop do povão, metade das vendas é duty-free, sem imposto.

Novidades? Nossa amiga Márcia chegou da viagem, foi atropelada em Londres. Nada dramático. A mão esquerda levou uma pancada do retrovisor do carro na acrobacia que ela fez para evitar o pior. Bem que avisei: ao atravessar uma rua, olhe primeiro para a direita e não para a esquerda. Na Inglaterra, todo mundo trafega na contramão – é a sensação que o estrangeiro tem. O carona dirige o carro! – temos a fugaz impressão ao ver aquele cara ao volante no lado direito.

Você diz na sua carta que com o frio que está fazendo aí é duro acreditar que o planeta está se aquecendo. Imagino. Aqui, parece que ele está derretendo. É culpa nossa o aquecimento? Alguma cabeça brilhante do século passado disse que a natureza não tem preferência pelo homem; se ele fizer uma grande besteira irreparável, ela elegerá outra espécie. Foi Bernard Shaw quem disse? Já não me lembro, e não é importante quem disse, mas a ideia.

O planeta sofreu aquecimentos antes, um deles acabou com 90% das espécies; milhões de anos depois foi o frio, congelou geral, nova mortandade. Deu na VEJA, duas semanas atrás. Entre os sobreviventes, milhares de espécies de insetos.

A propósito: dedetizamos o andar inteiro, juntamos os quatro vizinhos e borrifamos tudo. Caríssimo, e no ano que vem será preciso fazer tudo de novo. A barata ataca no verão, que nem IPTU e IPVA. A luta contra os insetos é a mais antiga da nossa espécie. Por que inseticidas custam tão caro? São venenos de composição antiga, a produção não deve ter custo elevado. O barato sai caro, a barata também. Inseticida de pobre é chinelo e tapa.

E a crise? Você diz que o peso é visível na expressão das pessoas, nas ruas de Manhattan. Aqui, sambou-se. As ameaças da crise persistem, mas o baticum e o feriadão abafaram tudo, botaram na rua os blocos Estressa Não, Vamo que Vamo, Fica Frio, Desencana, Vai que Dá, Sacode a Poeira, Fica na Boa, Relaxa e Goza, Pega Leve e Não Esquenta.

Fonte: VEJA SÃO PAULO