Crise hídrica

Após dois anos no limite, Cantareira tem alívio com chuvas de verão

O principal sistema de abastecimento da capital conta com refresco depois de situação alarmante da crise hídrica

Por: Ana Carolina Soares

Represa Cantareira
Túnel de interligação entre as represas Jaguari-Jacareí e Cachoeira, em março de 2016: do volume morto aos 30% de cheia (Foto: Rodrigo Dionísio)

Faça chuva ou sol, mal acabam detomar o café da manhã, os irmãos Sérgio, Sidney e Silas Trindade seguem para as bordas da Marina Estância Confiança, o negócio da família, afim de checar a régua colocada à margem da represa Jaguari-Jacareí. Mais do que ponto turístico da região de Bragança Paulista, a 86 quilômetros da capital,o local é o principal dos cinco reservatórios do Sistema Cantareira, que garante água para 6 milhões de moradores da Grande São Paulo. Cada milímetro de aumento é comemorado com abraços efusivos pelo trio de empresários.

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Depois do sufoco nos últimos dois anos, em decorrência da maior seca registrada na história de São Paulo, os irmãos têm celebrado os primeiros sinais de recuperação do complexo. Ele saiu do volume morto em dezembro de 2015, após dezenove meses operando com a reserva técnica. No início de março, alcançou 30% da capacidade. Somando-se o volume morto, a conta sobe para aproximadamente 60%. Na época, o governador Geraldo Alckmin comemorou o feito. “A questão da água está resolvida, porque nós já chegamos a quase 60% do Cantareira e 40% do Alto Tietê. Isso é água para quatro ou cinco anos de seca”, afirmou.

Os irmãos Trindade, apesar de observar mudanças positivas nas redondezas, continuam cautelosos. “As autoridades garantemque não há com que se preocupar, mas ainda estamos bem apreensivos”,conta Sidney. Na marina da família, havia cerca de 200 embarcações poucos anos atrás. Com a seca, o número diminuiu para noventa, e a recuperação é lenta: hoje, há 110 lanchas por lá.

Em outros pontos das imediações, é possível identificar também um cenário mais animador. Ainda há bordas de terra, que costumam ficar encobertas em épocas de cheia, mas desapareceram as cenas de solo rachado, típicas dos sertões. As lanchas e os jetskis já conseguem deixar as marinas para um passeio em dia de sol, uma missão quase impossível no ano passado.

Represa Cantareira
Túnel de interligação entre as represas Jaguari-Jacareí e Cachoeira, em julho de 2014: do volume morto aos 30% de cheia (Foto: Luciano Claudino/ Agência Estado)

Os municípios ao redor da Cantareira, no entanto, ainda vão precisar detempo para se recuperar das sequelas ambientais e econômicas da longa estiagem. “Por aqui, acabou a pesca esportiva”, diz Valdir Nogueira Silva, conhecido na região como Braguinha, que atua como esporte há 26 anos na área. Em maio de 2014, o movimento havia caído 70%. Braguinha deixou o negócio e hoje sobrevive de fabricar iscas e dar consultoria a uma revista especializada.

“Não consigo ganhar metade do que conseguia antes”, reclama. O pescador José Flaviano Alves, o Mussum, também precisou abandonar a atividade e, agora, vive apenas com o rendimento de sua oficina mecânica. “Só restaram os lambaris e as tilápias. Os peixes grandes morreram”, constata. O empresário Luiz Issa fechou sua pousada, em Bragança Paulista, em julho de 2014 e demitiu vinte funcionários. “Terminei a operação, mas não vendi o terreno”, afirma. “Posso reabrir no próximo verão. Hoje, não me sinto seguro para voltar a investir”, completa.

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A exemplo do Cantareira, os demais reservatórios apresentam atualmente números melhores, casos do Alto Tietê (43%) e do Guarapiranga (87%). O comportamento de São Pedro ajudou bastante nesse cenário. Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), as precipitações do verão passado tiveram índice 23% acima do habitual. É o volume mais alto desde 2011.

“No futuro, pode vir uma seca tão rara e severa como a última que teremos armas para enfrentá-la”, garante Benedito Braga, secretário de Saneamento e Recursos Hídricos de São Paulo. Ele reconhece que o comportamento recente do clima jogou a favor dos paulistanos, mas destaca que investimentos de 3,3 bilhões de reais em obras variadas, incluindo interligações entre várias bacias, foram cruciais no processo. “Não adiantaria chover em um só lugar, sem que a água pudesse escoar ao longo de diversas regiões.”

Represa Cantareira
O pescador José Alves: "Só restaram os lambaris e as tilápias" (Foto: Ricardo D'Angelo)

A principal intervenção emergencial envolveu a comunicação entre o sistema Rio Grande (da represa Billings) e o Alto Tietê, com investimento de 130 milhões de reais, inaugurada em setembro de 2015. No início de seu funcionamento, a estrutura sofreu com vazamentos e alagou ruas de Ribeirão Pires. Feitos os ajustes necessários, ela passou a ajudar no abastecimento de 4,5 milhões de pessoas da Zona Leste.

Está previsto para outubro de 2017 o começo da operação do Sistema Produtor de Água de São Lourenço, em Ibiúna, que deverá beneficiar quase 2 milhões de moradores,incluindo parte da Zona Oeste e os municípios de Barueri, Carapicuíba, Cotia, Itapevi, Jandira, Santana do Parnaíba e Vargem Grande Paulista. “Nossa estratégia é unir as bacias e criar novas fontes”, explica Braga.

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Outro ponto importante na recuperação dos reservatórios foi a mudança de hábito da população. Entre 2013 e2016, o consumo caiu de 73 para 60 metros cúbicos por segundo na região metropolitana de São Paulo. Vários fatores impactaram nessa queda, a começar pela política de incentivo do governo para as residências com maior economia e, na outra ponta, contas mais salgadas para os “gastões”.

Desde o seu início, em fevereiro de 2014, até o mês passado, a campanha distribuiu 1,38 bilhão de reais em bônus e arrecadou 549 milhões de reais em multas. Ao mesmo tempo em que as pessoas fizeram um esforço para fechar as torneiras, o poder público estadual passou a retirar menos água dos reservatórios.

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(Foto: Veja São Paulo)

Antes da crise, eram subtraídos 33 metros cúbicos por segundo do Cantareira. Atualmente, o número está na casa dos 23. Nos períodos mais críticos, em 2014, o máximo permitido chegou a 12. Por fim, em praticamente toda a capital, a Sabesp intensificou a política de redução depressão no fornecimento de água em alguns bairros ao longo do dia, como medida adicional de economia.

Até o fim do ano, a intenção é manter as multas para o aumento de consumo e os bônus em caso de economia. Se o alívio persistir, as medidas devem ser suspensas em 2017. A situação já está normalizada em toda a cidade? A direção da Sabesp informaque sim, mas há reclamações pontuais na metrópole.

“Todo fim de tarde, fecham a vazão por aqui, e uma vez por semana não chega nada à noite”,reclama o técnico em eletrônica aposentado Joaquim Alberto Ferreira da Costa, diretor da associação de moradores do Parque São Domingos, na Zona Norte. “Se está faltando água lá,deveriam checar na Sabesp”, contesta o secretário Braga. “Desde o início do ano, só há redução de pressão em algumas regiões durante a madrugada”, garante. “Voltamos à normalidade no fornecimento de água.”

Fonte: VEJA SÃO PAULO