Violência

Canadense morto na Anchieta ia abrir negócio no Brasil

Amigo da vítima, o acadêmico da USP Marcos Buckeridge conta que Dean Tissen se sentia tranquilo em São Paulo e estava empolgado para trabalhar aqui

Por: Nataly Costa - Atualizado em

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O empresário na fazenda da empresa (Foto: Reprodução/Facebook/New Energy Farms)

Filho de fazendeiros, o empresário Dean Tiessen, 46 anos, tinha um jeito diferente de olhar os negócios: menos lucro e mais qualidade no produto oferecido. Era assim que liderava a New Energy Farms, uma empresa de bioenergia que buscava novos tipos de matéria-prima para indústrias, fazendas e também para o consumidor final. Tiessen, assassinado na Anchieta em uma tentativa de assalto neste fim de semana, pretendia ainda no começo de 2014 trazer um braço dos negócios para o Brasil. Em São Paulo, já havia participado de reuniões com gigantes do setor de agricultura, como Monsanto e Syngenta. Em seu perfil no Facebook, a última foto é de uma antiga fazenda de cana-de-açúcar no interior do Estado, que descrevia como "uma página no livro da revolução do biocombustível". 

Quem conta os detalhes da personalidade e das ambições empresariais do canadense é o pesquisador da USP Marcos Buckeridge, um dos maiores especialistas brasileiros em bioetanol e amigo de Tiessen. "Ele até comentava comigo que, apesar da fama da violência do país, ele se sentia muito tranquilo aqui", conta Buckeridge, que se diz "envergonhado" pelo que aconteceu com o amigo. 

Nesta segunda (9), o Consulado do Canadá emitiu uma nota sobre o caso. "Nossos pensamentos estão com a família e amigos do cidadão canadense que faleceu no Brasil. As autoridades canadenses em São Paulo e em Ottawa estão prestando assistência consular à família e aos amigos, e estão em contato com as autoridades locais. Para proteger a privacidade do indivíduo, mais detalhes sobre este caso não estão sendo liberados", diz o texto. 

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O empresário morto Dean Willian Tiessen estava no Brasil há 10 dias (Foto: Reprodução)

Confira a entrevista concedida à VEJASÃOPAULO.COM pelo pesquisador e amigo de Tiessen.

Há quanto tempo você e Dean Tiessen eram amigos? Desde 2008, quando nos conhecemos em um congresso de bioenergia no México. Desde então, ele fez algumas visitas ao Brasil e sempre nos encontrávamos, ele frequentava a USP. Fizemos uma caminhada juntos na sexta-feira (6), conversamos bastante. 

O que ele fazia em São Paulo? Estava aqui a trabalho. Dean veio visitar uma série de lugares e empresas, queria investir em um sistema novo de plantio de cana por aqui. Já estava com uma nova viagem para cá marcada em janeiro, quando pretendia instalar aqui um braço da empresa. O estilo de trabalho dele é único na área de bioenergia. Como cresceu em fazenda e era apaixonado por esse ambiente, pensava menos no lucro e mais em melhorar a qualidade das coisas. 

Ele gostava do Brasil? Sim, e era impressionante quão entusiasmado ele estava para trabalhar aqui. Apesar de ser uma pessoa simples, era inteligentíssimo e conversava com acadêmicos de igual para igual. Um sujeito apaixonante e extremamente ligado, queria conhecer tudo, saber tudo. Estava para começar a aprender português a valer, apesar de já saber um pouco da língua. Dean queria se comunicar bem aqui no Brasil. 

Alguma vez já tinha relatado problemas com a segurança no Brasil ou em São Paulo? Não, pelo contrário. Ele até comentava comigo que, apesar da fama da violência do país, ele se sentia muito tranquilo aqui. E eu sempre dizia: "Olha, não é bem assim, você tem que ter mais cuidado". 

E como você recebeu a notícia? Estou chocado e envergonhado. Como isso acontece de maneira tão gratuita, com uma pessoa na flor da idade, empolgado em fazer negócios no Brasil? Claro que a perda maior é para a mulher e os quatro filhos dele, que o esperavam ansiosamente para o Natal. Mas, para a gente, resulta em uma péssima imagem do Brasil lá fora, principalmente na nossa área. Todos os nossos amigos estrangeiros em comum estão comentando, horrorizados também. Tem muita gente da área científica de olho no país, as pessoas vêm para cá com o maior gosto e acontece uma coisa dessas. Isso dificulta tudo, a internacionalização da ciência, dos negócios, faz as pessoas pensarem duas vezes antes de investir no Brasil. 

Fonte: VEJA SÃO PAULO